O que significa para si a palavra natureza? Evoca imagens de lugares selvagens, longe da agitação humana, ou abrange também as pessoas?
O sentido de natureza foi-se alterando desde que o termo começou a ser usado, já no século XV.
Hoje, uma nova campanha, We Are Nature, pretende levar os dicionários a incluir os seres humanos nas suas definições de natureza.
A natureza inclui os seres humanos?
Esta iniciativa, criada em colaboração por um grupo de advogados e uma empresa de design, reúne uma petição, uma carta aberta e várias definições alternativas propostas por pensadores e autores, entre os quais me incluo. Esta é a minha definição de natureza:
O mundo vivo entendido como o conjunto total de organismos e das relações entre eles. Esses organismos incluem bactérias, fungos, plantas e animais (incluindo os seres humanos). Algumas definições podem ainda incluir entidades não vivas como parte da natureza - por exemplo, montanhas, quedas de água e formações de nuvens - reconhecendo o seu papel essencial no suporte à teia da vida.
Proveniente do latim natura, cujo significado literal é “nascimento”, a palavra natureza designava inicialmente apenas as qualidades inatas ou a disposição essencial de algo. Contudo, ao longo do tempo, passou também a descrever algo “outro”, separado dos seres humanos. Por exemplo, o Oxford English Dictionary (OED) define natureza como:
Os fenómenos do mundo físico considerados no seu conjunto; especialmente as plantas, os animais e outras características e produtos da própria Terra, em oposição aos seres humanos e às criações humanas.
Mas como chegámos a uma definição assente na ideia de estarmos separados, em vez de fazermos parte, do mundo natural? Desde o século XVII, uma visão racionalista do mundo, impulsionada por filósofos como René Descartes, passou cada vez mais a interpretar a realidade de forma mecânica, comparando o funcionamento do universo a uma grande máquina. Em vez de admitir a presença de algum espírito divino no mundo natural, esta perspetiva acentuou a divisão entre a mente humana e a matéria física.
Tudo o que não era humano passou a integrar a segunda categoria e foi comparado a uma maquinaria de relojoaria. Porém, entretanto verificou-se que esta perspetiva conduz à crueldade contra os animais, e várias entidades ambientais, incluindo a Agência Europeia do Ambiente, consideram que esta desconexão está a acelerar o declínio da natureza.
As palavras moldam a relação com a natureza
Será aceitável alterar palavras de um dicionário através de pressão organizada? Há duas formas de encarar esta questão. Uma delas defende que sim, caso a evidência científica indique que a distinção entre natureza e seres humanos é ilusória - algo que tenho sustentado com base em conclusões da biologia, da ecologia e das neurociências.
A definição num dicionário traduz a forma como a sociedade enquadra o mundo natural. Por sua vez, esse enquadramento influencia a perceção do nosso lugar nesse mundo - e as medidas que tomamos para proteger a natureza. Assim, as palavras que escolhemos produzem efeitos concretos: orientam o pensamento e condicionam aquilo que sentimos e fazemos. O linguista George Lakoff defendeu que, em última análise, elas estruturam a nossa sociedade.
Os meus filhos estão a crescer num mundo em que os seres humanos se sentem desligados da natureza - e, de facto, o Reino Unido está entre os países mais desconectados. A investigação demonstra que isto leva as pessoas a introduzir menos mudanças ambientais positivas no seu comportamento, como reduzir a pegada de carbono, reciclar ou participar voluntariamente em trabalhos de conservação.
Pelo contrário, quando as pessoas sentem que estão entrelaçadas com a natureza, não só adotam comportamentos mais ecológicos como tendem a ser mais felizes. Por isso, quero sem dúvida que os meus filhos cresçam a sentir que fazem parte da natureza.
Há também palavras que, na minha opinião, deveríamos usar menos. Não gosto da expressão “capital natural”, que trata a natureza como um ativo que pode ser transformado em mercadoria e vendido. Estes termos têm utilidade entre profissionais do ambiente e no âmbito das políticas públicas, mas podem igualmente criar distanciamento psicológico e reduzir a nossa preocupação com o mundo natural.
Uma agência de comunicação dedicada à sustentabilidade concluiu que a forma mais eficaz de motivar as pessoas a proteger a natureza passa por mensagens baseadas no espanto e na maravilha, e não no valor económico da natureza. Os estudos científicos corroboram esta conclusão.
Os perigos de controlar a linguagem
Ainda assim, tenho dúvidas. Outra perspetiva defende que não é aceitável alterar o significado das palavras através de pressão organizada e que os dicionários devem registar o modo como as palavras são efetivamente usadas - posição assumida pelo OED.
A ficção distópica, incluindo Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, de George Orwell, evidencia os riscos de um mundo em que o controlo da linguagem permite controlar a população. Ver dicionários cederem à pressão de campanhas de lobbying parece estabelecer um precedente perigoso.
No caso do significado de natureza, uma palavra demasiado abrangente pode perder utilidade na comunicação, tal como uma faca sem fio é um mau instrumento para cortar alimentos. Quem quiser referir-se ao mundo natural poderá simplesmente recorrer a outras palavras, como “ambiente”. Este termo deriva do francês environs e descreve explicitamente aquilo que nos rodeia.
Ambiente já vem substituindo natureza no léxico moderno. Isto poderá refletir uma mudança cognitiva subtil, no sentido de vermos cada vez mais os seres humanos como entidades distintas e separadas do mundo natural.
Natureza versus ambiente: acompanhar o uso destas palavras
No entanto, a campanha We Are Nature não se limita a pressionar o OED com base numa utilização preferida da linguagem. Os organizadores reuniram numerosos usos históricos da palavra natureza, desde 1850 até à atualidade, alguns dos quais incluem os seres humanos no seu significado, e apresentaram essas provas ao dicionário. Em abril de 2024, como resultado disso, o OED retirou a indicação “obsoleto” de uma definição secundária e mais ampla de natureza, que abrange “todo o mundo natural, incluindo os seres humanos”.
Mas, para mudar a definição principal de natureza de “em oposição aos seres humanos” para “incluindo os seres humanos”, será necessário que mais pessoas utilizem a palavra de uma forma que reflita como os seres humanos estão interligados com toda a teia da vida.
O melhor é que, ao fazê-lo, reavivamos os laços de cuidado com o mundo vivo que nos rodeia. Ao desfazermos a ilusão de que estamos separados da natureza, podemos também esperar viver vidas mais felizes. As palavras importam - há recuperação e alegria em dizer que somos natureza.
Tom Oliver, Professor de Ecologia Aplicada, Universidade de Reading
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.






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