Não é possível alterar a idade que consta do cartão de cidadão. Mas será que o mesmo se aplica à idade do corpo?
Uma nova investigação revela que um medicamento concebido com a ajuda de inteligência artificial fez com que os perfis sanguíneos de pessoas com uma doença pulmonar parecessem biologicamente mais jovens.
O resultado surgiu de seis modelos informáticos que estimam a idade biológica através da análise de proteínas no sangue. Os cientistas chamam-lhes relógios de envelhecimento biológico.
As estimativas variaram entre os relógios, consoante a dose e a fase do tratamento. Ainda assim, os seis detetaram uma alteração no mesmo sentido.
Rentosertib e fibrose pulmonar idiopática
O medicamento analisado no estudo, publicado na revista Nature Biotechnology, chama-se rentosertib.
Foi concebido para tratar uma doença que provoca cicatrização nos pulmões e torna a respiração progressivamente mais difícil, tendo também como alvo processos biológicos associados ao envelhecimento.
A doença, denominada fibrose pulmonar idiopática, ou FPI, afeta geralmente adultos mais velhos. Envolve inflamação, danos celulares e dificuldades na reparação dos tecidos - alterações que coincidem com algumas das observadas durante o envelhecimento.
Essa ligação levantou uma questão: poderia um medicamento desenvolvido para uma doença pulmonar afetar também processos biológicos associados ao envelhecimento?
Investigadores da Insilico Medicine, da Escola de Medicina de Harvard e de outras instituições decidiram procurar uma resposta. Para isso, voltaram a analisar amostras de sangue recolhidas num ensaio clínico anterior do rentosertib.
O ensaio original contou com 71 pessoas com FPI. Os participantes receberam uma de três doses de rentosertib ou um placebo. Na nova análise, os investigadores estudaram amostras de 42 participantes, com uma idade média de 67 anos.
Foram medidas quase 3.000 proteínas no sangue. A inflamação, a doença, a utilização de energia, os danos nos tecidos e o envelhecimento podem deixar vestígios reconhecíveis nestas moléculas.
O que revelaram os relógios de envelhecimento biológico
A equipa analisou depois esses padrões com seis relógios de envelhecimento biológico. Alguns tinham sido desenvolvidos para estimar a idade de uma pessoa; outros destinavam-se a prever riscos para a saúde e de mortalidade.
Por que motivo é importante recorrer a seis relógios?
Não existe um método perfeito para medir o envelhecimento biológico. O resultado de um único relógio pode ser influenciado pelas proteínas que analisa ou pela forma como efetua os cálculos.
Quando vários modelos desenvolvidos de forma independente detetam uma alteração semelhante, é menos provável que o resultado seja apenas uma particularidade de um deles.
Na nova análise, os seis relógios detetaram uma mudança no sentido de uma idade biológica estimada mais baixa nas pessoas tratadas com rentosertib. No grupo do placebo houve pouca alteração, embora alguns relógios indicassem um aumento da idade biológica.
Os resultados mais claros surgiram ao fim de quatro semanas. No grupo que tomou 60 miligramas uma vez por dia, os relógios concebidos para estimar a idade cronológica indicaram reduções entre 2,71 e 3,46 anos.
Outros relógios e grupos com doses diferentes apresentaram valores distintos, incluindo estimativas muito mais elevadas de alguns modelos exploratórios concebidos para examinar órgãos individuais. Por isso, os investigadores não apontaram um único valor como a redução global da idade biológica atribuível ao rentosertib.
O aspeto importante foi o sentido da alteração: apesar de terem sido construídos de formas diferentes, os seis relógios detetaram padrões de proteínas com aspeto mais jovem nas pessoas que receberam o medicamento.
O rentosertib alterou também os níveis de 326 proteínas, face a apenas duas no grupo do placebo. Algumas estavam associadas à cicatrização pulmonar e à reparação dos tecidos. Outras participavam na inflamação, na utilização de energia, no stress celular e no comportamento de células envelhecidas ou danificadas.
Muitas das alterações nas proteínas mantiveram-se ao longo das 12 semanas do estudo. Contudo, a aparente evolução para uma idade biológica mais jovem deixou de aumentar após a quarta semana e estabilizou.
Os investigadores ainda não sabem porquê. O organismo pode ter-se adaptado ao medicamento. Pode ser necessário um esquema de administração diferente ou os relógios de envelhecimento podem ter atingido o limite do que conseguiam detetar num estudo tão curto.
Limitações do estudo sobre o rentosertib
Embora sejam intrigantes, os resultados têm limitações importantes.
Todos os participantes tinham uma doença pulmonar grave. Se o rentosertib reduziu a fibrose ou melhorou a doença pulmonar de outra forma, essa melhoria, por si só, pode ter feito com que o sangue parecesse biologicamente mais jovem.
Assim, os relógios podem ter detetado uma melhoria da doença, e não uma alteração do próprio envelhecimento. O estudo não conseguiu distinguir completamente as duas possibilidades.
Além disso, a análise incluiu apenas 42 pessoas e durou 12 semanas. Não demonstrou que os participantes tivessem rejuvenescido, que se manteriam saudáveis durante mais tempo ou que viveriam mais.
Importa também referir que vários autores trabalham para a Insilico Medicine, a empresa que está a desenvolver o rentosertib. O autor principal, Alex Zhavoronkov, é fundador e codiretor executivo da empresa.
Pelo menos por agora, o rentosertib ainda não pode ser descrito como um medicamento antienvelhecimento. Será necessário testar os resultados em estudos maiores e mais longos, incluindo ensaios com pessoas sem FPI.
Ainda assim, é difícil ignorar que seis relógios diferentes apontaram no mesmo sentido. A investigação aponta para um futuro em que os medicamentos desenvolvidos para tratar doenças da idade avançada poderão fazer mais do que atuar sobre uma única doença, ajudando os cientistas a descobrir se também é possível alterar processos biológicos mais amplos associados ao envelhecimento.
O estudo foi publicado na revista Nature Biotechnology.
Este artigo foi verificado e editado por Peter Dockrill. Embora nos orgulhemos do nosso processo, somos apenas humanos. Se detetar um erro, informe-nos.






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