Ao contrário dos metais, que refletem os sinais de radar, o grafeno absorve-os. Um drone revestido com este material pode, por isso, transmitir a indicação de que é um objeto muito mais pequeno, como um pássaro. A tecnologia que o permite foi desenvolvida e patenteada por uma empresa portuguesa de Sever do Vouga, que começa a afirmar-se no setor da Defesa nos Estados Unidos e na Europa, numa altura de aceleração do rearmamento.
A Graphenest apresenta-se como a "única empresa portuguesa a dedicar-se à produção industrial de grafeno". Os seus fundadores, Rui Silva, Vítor Abrantes e Bruno Figueiredo, antigos alunos da Universidade de Aveiro, descobriram um método inovador para extrair grafeno da grafite. Garantem tratar-se de uma tecnologia "mais limpa", sem recurso a "química agressiva".
A empresa foi criada há 11 anos. Quando tentaram colocar o produto no mercado, os fundadores perceberam que a venda de materiais falsos tinha retirado credibilidade ao grafeno. "Isso levou-nos a ter de mostrar o nosso valor. Então, começámos a fazer a integração nos nossos próprios materiais", recorda ao JN Rui Silva, engenheiro químico e diretor técnico da Graphenest.
O passo seguinte foi incorporar o grafeno produzido pela empresa em plásticos, revestimentos e outros materiais, como tintas, para lhes conferir propriedades de blindagem eletromagnética e de condutividade elétrica. É com esses materiais que a Graphenest trabalha atualmente.
"Proteção e ocultação" com grafeno
As aplicações possíveis são variadas, nomeadamente no setor automóvel e nas tecnologias de comunicação, onde o grafeno pode substituir os metais até agora usados como condutores. "É um material à base de carbono com propriedades únicas de condução elétrica, leveza e resistência", sublinha a empresa. No entanto, poderá ser na Defesa que a tecnologia portuguesa terá maior destaque. A oportunidade apareceu em 2018, depois de a Graphenest ter sido "a única empresa portuguesa a ser convidada para participar no primeiro programa das forças aéreas americanas".
"Fazemos produtos para blindagem eletromagnética e temos dois fatores: a proteção e a ocultação. Em termos de sinal de radar, podemos integrar a superfície do objeto com as nossas tintas ou outras soluções. O sinal, ao ser transmitido por uma antena, é absorvido e reduzido na ordem dos 99,999%", detalha Vítor Abrantes, administrador da Graphenest.
Aumentar a produção
É neste domínio que poderão surgir drones indetetáveis, numa fase em que a Europa aposta no rearmamento. "Estamos a entrar num ramo de grande importância e não há nenhuma empresa europeia a produzir materiais de proteção, de blindagem ou de absorção de radar", explica o responsável. Acrescenta que a Europa "está dependente dos EUA e da Ásia, tanto na produção de grafite como, depois, de grafeno".
"Até há pouco tempo, tínhamos de ir à indústria mostrar a nossa tecnologia. Agora, já começam a vir até nós a pedir soluções", aponta Vítor Abrantes, CEO da Graphenest.
A Graphenest consegue atualmente produzir uma tonelada de grafeno por ano e pretende, a curto prazo, elevar a capacidade para 50 toneladas, garante Rui Silva. "Há indústrias que necessitam de quantidades de grafeno muito avultadas e 50 toneladas continuam a ser insuficientes. Mas temos a capacidade já idealizada para fazer face a esse aumento integrativo na nossa nova unidade industrial. Isso já está contemplado", assegura.
Retrato da Defesa em Portugal
Mudança de perfil
Nos últimos anos, mudou o perfil dos produtos exportados. Em 2004, as armas de fogo e respetivos componentes correspondiam a 56% das exportações e o material de proteção a 40%. Em 2025, as armas de fogo mantêm um peso de 46%, enquanto os drones já representam 22% das exportações.
Destino das exportações
Os Estados Unidos da América recebem 41% das exportações portuguesas de bens com utilização militar, sendo o seu principal destino. A Ucrânia já responde, por seu lado, por 5% das vendas nacionais do setor.
Crescimento com drones
Entre 2022 e 2025, as exportações do setor da defesa aumentaram 77%, impulsionadas pela guerra entre a Ucrânia e a Rússia e por outros conflitos. Os drones destacam-se como o sinal mais visível dessa transformação.
Outros produtos
Além da aposta em sistemas autónomos, como os drones desenvolvidos por empresas como a Tekever, Portugal tem-se afirmado nas comunicações militares, nos sistemas de comando e controlo, na inteligência artificial, na cibersegurança, na gestão de tráfego aéreo e nas tecnologias espaciais.
Substituição de caças
A nova Lei de Programação Militar, cuja elaboração está na fase final, vai prever a substituição dos caças F-16 portugueses. O programa contempla a renovação da frota em fim de ciclo, mas a escolha do novo caça ainda não foi feita e divide opiniões. Disputam o negócio a norte-americana Lockheed Martin, a sueca Saab e o consórcio europeu que inclui a Airbus.
Criação do SAFE
Em agosto, o Conselho de Ministros aprovou a criação efetiva da estrutura nacional SAFE, responsável pela gestão do financiamento europeu atribuído a Portugal para a Defesa, no valor de 5,8 mil milhões de euros. O Governo autorizou também a Marinha a efetuar uma despesa de até 21 milhões de euros junto da agência de apoio e aquisições da NATO, para modernizar e ampliar as instalações da base naval de Lisboa, no Alfeite.
Investimento
Em julho, Luís Montenegro adiantou que Portugal deverá aplicar 3,1% do Produto Interno Bruto em investimentos diretos em Defesa. O país tem acelerado o investimento no setor sob pressão da NATO e perante a atual situação de segurança internacional.






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