“Parabéns pelo robô!”, felicita um médico ao cruzar-se com Francisco Serdoura num corredor de acesso ao bloco operatório. No Hospital de São João, está prestes a dar-se mais um passo na cirurgia robótica, com as primeiras intervenções à anca e ao joelho realizadas com esta técnica.
A nova etapa da história da tecnologia robótica no hospital do Porto começou no final da semana passada e reforça uma aposta iniciada há três anos. A unidade conta já com cinco robôs, num investimento global de oito milhões de euros, e ultrapassou as duas mil intervenções com estes equipamentos. A primeira máquina chegou ao São João no final de 2022 e estreou-se numa operação à próstata, no início de 2023, recorda a diretora do bloco operatório, Susana Vargas.
Enquanto numa sala do bloco começa a primeira cirurgia à anca assistida por robótica, noutra decorre uma demonstração de outro avanço tecnológico da medicina. Os braços do robô Da Vinci operam um rim, comandados à distância pelo cirurgião, sentado numa consola com controlos e um monitor que permite observar e ampliar a zona intervencionada.
“Aumentar a precisão” na cirurgia robótica
“Temos todas as soluções tecnológicas disponíveis no mercado a nível de robótica”, afirma Francisco Serdoura, diretor do Serviço de Ortopedia e primeiro médico em Portugal a operar a coluna vertebral com apoio de um robô. Sorri e agradece a felicitação do colega, mas não deixa de lembrar que o trabalho é sempre de equipa. É também uma equipa de profissionais que se observa através dos vidros da sala onde Manuel Seara opera com o Mako. O robô assegura o posicionamento exato dos implantes colocados nos dois primeiros doentes intervencionados com este sistema: uma mulher de 66 anos e um homem de 80, ambos com artroses causadas pelo desgaste da anca.
Paulo Ribeiro de Oliveira passa igualmente a usar o Mako nas operações ao joelho, já que o robô está preparado para intervir nos dois tipos de articulações. Antecipando receios e estigmas, os cirurgiões procuram tranquilizar os doentes mais reticentes. “É importante as pessoas perceberem que não são os robôs que fazem as cirurgias; eles são adjuvantes dos cirurgiões”, sublinha Francisco Serdoura. Estes equipamentos, explica, “permitem aumentar a precisão do gesto cirúrgico, e esse é o aporte relevante”. No entanto, “o cirurgião tem de ter controlo sobre a cirurgia”.
“Equidade no acesso”
“Podemos trabalhar com mais segurança, planeamento, previsibilidade e qualidade, com melhores resultados clínicos. E tudo o que ajuda o cirurgião, ajuda o doente”, salienta o diretor do Serviço de Ortopedia. Francisco Serdoura destaca também que o sistema pode servir toda a população: “O que é bonito é termos, no Serviço Nacional de Saúde, equidade no acesso à tecnologia, que não é só para quem possa, economicamente, aceder. No SNS, as pessoas são tratadas, independentemente de onde vêm, com o que de melhor a tecnologia tem”.
O sistema que marcou a estreia da cirurgia robótica no São João recebeu o nome Da Vinci em homenagem ao génio renascentista Leonardo da Vinci, autor do primeiro projeto de um robô. Na sala 4, um cirurgião de urologia está sentado à consola e comanda a máquina, que reproduz e amplia os movimentos da mão humana, permitindo intervenções menos invasivas.
“Estes robôs são muito versáteis, e dão para quase todas as especialidades cirúrgicas, menos ortopedia”, realça Susana Vargas. Além da urologia, os dois robôs Da Vinci do hospital são utilizados em várias áreas, incluindo cirurgia geral, torácica e pediátrica, cirurgia da obesidade e ginecologia.
Depois de colocar a prótese na anca da doente de 66 anos, Manuel Seara volta à sala de operações para iniciar um procedimento semelhante num homem de 80 anos, o segundo paciente operado no São João com esta técnica, na especialidade. “A grande vantagem é a precisão com que colocamos o implante. Vamos para a cirurgia com um planeamento muito mais seguro, e sabemos os resultados que vamos obter no fim”, diz o cirurgião de ortopedia. Através de uma plataforma tecnológica onde são introduzidas as imagens do exame TAC (tomografia computorizada), o sistema permite fazer “uma simulação dos movimentos da anca” do doente a operar.
O método permite “colocar o implante na posição que melhor se adapta à anatomia daquele doente”, reduzindo a imprecisão e possibilitando melhores resultados. “As cirurgias correram muito bem, e os doentes ficaram muito contentes”, relata o médico, para quem “a experiência foi extremamente positiva”.
“É um instrumento de fiabilidade e precisão que assegura um resultado final o mais preciso possível, porque reduz tudo o que é viés e dá-nos a garantia de que estamos a fazer o melhor para o doente”, observa Paulo Ribeiro de Oliveira. Segundo o cirurgião, uma programação prévia, adaptada a cada paciente, permite preparar o osso para receber a prótese numa única abordagem. O robô recebe instruções sobre os pontos exatos da intervenção e pára caso detete um desvio face ao que foi programado.
“Criar conhecimento”
Os benefícios dos robôs não se limitam às salas de operações, lembram os cirurgiões. A utilização destas máquinas contribui também para o seu aperfeiçoamento, desenvolvimento e adaptação a novas funções.
“Quando integramos esta tecnologia, estamos a criar conhecimento. Não encaramos os robôs apenas como instrumentos que compramos para usar, porque através deles podemos criar conhecimento que servirá a evolução tecnológica”, explica Francisco Serdoura.
Outros casos
Matosinhos
No final de setembro, o Hospital Pedro Hispano realizou a sua primeira operação assistida por robô. A intervenção, na área da cirurgia bariátrica, consistiu na colocação de uma derivação gástrica.
Penafiel
O Hospital Padre Américo, em Penafiel, começou a recorrer a robôs nas operações em meados deste ano, com a realização de uma derivação gástrica.
Braga
As primeiras cirurgias robóticas no Hospital de Braga aconteceram em abril de 2025, com operações à próstata apoiadas pelo sistema Da Vinci. No início deste ano, a unidade estreou a utilização de robôs em pediatria.
Robôs ao serviço
Da Vinci X
Foi o primeiro robô do São João, comprado no final de 2022 com fundos próprios, e começou a operar em 2023. Custou 1,8 milhões de euros e é utilizado em cirurgias de urologia, ginecologia e do sistema digestivo.
Da Vinci Xi
Adquirido por 2,3 milhões de euros com financiamento do PRR (Plano de Recuperação e Resiliência), chegou em dezembro de 2025. Veio alargar a capacidade do primeiro robô, permitindo realizar, entre outras, cirurgias torácicas, cardíacas e pediátricas.
O-ARM
Utilizado em operações à coluna vertebral desde setembro de 2025, integra um sistema com imagens anatómicas em 3D. O São João foi o “primeiro hospital português a utilizar este sistema robótico”, adquirido por 1,6 milhões de euros com financiamento de fundos do Norte 2030.
Mako
Ao serviço da ortopedia desde este mês, destina-se a operações à anca e ao joelho. Custou 1,6 milhões de euros, financiados pelo Norte 2030.
Neurocirurgia
O São João foi “o primeiro hospital público a aplicar a robótica à neurocirurgia funcional”. Estreado este ano, o sistema destina-se a procedimentos de elevada complexidade, entre os quais o estudo avançado da epilepsia. O investimento rondou os 570 mil euros.






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