Nas águas geladas da Antártida existe todo um ecossistema misterioso. No fundo do mar, aranhas-do-mar de aspeto inquietante deslocam-se sobre pernas finas e compridas, num ambiente que é o seu lar.
Uma delas, a aranha-do-mar-gigante-da-Antártida (Colossendeis megalonyx), acaba de revelar um dos seus segredos. Os cientistas conseguiram, finalmente, observar como estes curiosos animais se reproduzem - e, tanto quanto os especialistas sabem, o processo não tem equivalente em qualquer outra espécie de aranha-do-mar.
"Na maioria das aranhas-do-mar, o progenitor macho cuida das crias, transportando-as enquanto se desenvolvem", afirma a ecóloga marinha Amy Moran, da Universidade do Havai em Mānoa.
"O estranho é que, apesar de existirem descrições e estudos há mais de 140 anos, ninguém tinha alguma vez visto as aranhas-do-mar-gigantes-da-Antártida a incubar as suas crias, nem sabia nada sobre o seu desenvolvimento."
Apesar da designação, as aranhas-do-mar não são verdadeiras aranhas que vivem no oceano. Também não são crustáceos, como os caranguejos-aranha. São artrópodes marinhos pertencentes a um grupo próprio, os pantópodes, cuja classificação filogenética se revelou surpreendentemente difícil.
Ainda assim, são animais muito bem-sucedidos. Podem ser encontradas em ambientes de todo o planeta, desde águas profundas a zonas pouco profundas, em águas com diferentes níveis de salinidade e numa ampla variedade de temperaturas.
Reprodução das aranhas-do-mar-gigantes-da-Antártida
Embora se saiba menos sobre aranhas-do-mar do que sobre outros animais, a sua reprodução tem sido razoavelmente bem caracterizada. Quando um casal decide acasalar, o macho sobe para a fêmea e ambos alinham os poros genitais localizados nas pernas. A fêmea liberta os ovos e o macho fecunda-os externamente. Depois, a fêmea afasta-se, enquanto o macho guarda os ovos num par de pernas especializadas, chamadas ovígeros, tratando deles cuidadosamente durante a incubação.
A existência desta espécie específica de aranha-do-mar-gigante-da-Antártida é conhecida pelo menos desde 1881, mas nunca tinha sido confirmado que os seus hábitos reprodutivos seguiam este padrão habitual.
No final de 2021, Moran e os seus colegas realizaram uma expedição à Antártida para estudar o fenómeno conhecido como gigantismo polar. Trata-se de um fenómeno em que muitas espécies polares são fisicamente muito maiores do que os seus parentes de latitudes mais baixas. As aranhas-do-mar não são exceção: a maioria das espécies mede menos do que uma unha. Nos polos, a envergadura das pernas das aranhas-do-mar pode atingir 70 centímetros.
O surpreendente destino dos ovos no fundo marinho
Durante mergulhos sob o gelo do estreito de McMurdo, alguns membros da equipa encontraram aranhas-do-mar-gigantes-da-Antártida que pareciam estar a acasalar. Recolheram-nas com cuidado e colocaram-nas em tanques de observação, para perceberem como, afinal, estas criaturas enigmáticas se reproduzem.
Observaram atentamente dois grupos reprodutores distintos, com resultados surpreendentes. Entre os dois, produziram milhares de ovos, visíveis sob a forma de nuvens gelatinosas que rodeavam uma única aranha que antes tinha integrado um grupo de acasalamento.
Um dos progenitores - provavelmente o macho - apanhou esta nuvem de ovos e, ao longo de dois dias, colou-os meticulosamente ao substrato no fundo do tanque. Ali, os ovos desenvolveram-se durante vários meses, antes de eclodirem em minúsculas larvas de aranha-do-mar. A primeira eclosão verificou-se 8 meses após a desova.
Depois das observações nos tanques, os investigadores avistaram, por diversas vezes na natureza, nuvens gelatinosas semelhantes à volta de aranhas-do-mar adultas. A recolha e análise confirmaram que também eram ovos.
Assim, ao contrário de outras aranhas-do-mar cuja estratégia reprodutiva é conhecida, as aranhas-do-mar-gigantes-da-Antártida escondem os ovos entre as rochas do fundo marinho para os incubarem.
Uma incubação longa escondida pelas algas
O período de incubação de muitas espécies de aranhas-do-mar é desconhecido. Sabe-se, porém, que numa espécie do Atlântico Norte, Pycnogonum litorale, esse período ronda 1 a 3 meses, pelo menos em contexto laboratorial. Não se sabe por que motivo as aranhas-do-mar-gigantes-da-Antártida não incubam as crias da mesma forma que outras aranhas-do-mar, mas a duração da incubação pode estar relacionada com essa diferença.
Ao fim de algumas semanas, os ovos escondidos ficam cobertos por um tapete de algas, tornando-se praticamente invisíveis. Isto explica de forma clara por que razão ninguém os tinha visto antes - mas também indica que permanecer ocultos sob as algas durante períodos de, pelo menos, 8 meses poderá ser mais seguro do que ficarem nas pernas muito mais vulneráveis do pai.
"Tivemos imensa sorte por conseguir observar isto", afirma o biólogo marinho Aaron Toh, da Universidade do Havai em Mānoa. "A oportunidade de trabalhar diretamente com estes animais extraordinários na Antártida permitiu-nos descobrir coisas que ninguém sequer tinha imaginado."
A investigação da equipa foi publicada na revista Ecology.






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