Pessoas de muitas culturas diferentes associam há muito o ciclo menstrual humano às fases da Lua. Contudo, por mais invulgares que sejam as semelhanças entre a duração média de um ciclo e a de um mês, existiam poucos indícios de uma ligação.
Agora, uma equipa de investigação de França e dos EUA concluiu que os ritmos do ciclo menstrual são provavelmente regulados pelo relógio interno do organismo, e não pelo conjunto de processos inerentes ao próprio ciclo.
Além disso, detetou uma associação fraca, mas significativa, com o período orbital da Lua, o que aponta para uma biologia mais fundamental que, em tempos, poderá ter dependido do ritmo das marés.
Ciclos menstruais e as fases da Lua
É compreensível que tantas culturas relacionem os ciclos lunares com os menstruais: as fases da Lua repetem-se a cada 29,5 dias, com uma margem de cerca de sete horas, enquanto os ciclos menstruais têm uma duração média de 29,3 dias, apesar da grande variação entre pessoas.
Os céticos defendem que esta sincronia aparente não passa de uma coincidência, útil para medir o tempo ou talvez fruto de pensamento mágico. Embora nunca tenha mencionado especificamente a menstruação, Charles Darwin propôs, em 1871, que estas ligações à Lua poderiam ter uma origem evolutiva: “Nos períodos recorrentes lunares ou semanais de algumas das nossas funções, aparentemente ainda conservamos vestígios do nosso local de nascimento primordial, uma costa banhada pelas marés.”
Há evidências de que isso acontece em espécies cuja reprodução depende das marés altas, como alguns peixes e bivalves.
O relógio interno regula o ciclo menstrual
Os investigadores analisaram dados de quase 27 000 ciclos menstruais, referentes a 2 303 mulheres europeias e 721 mulheres norte-americanas. A análise revelou as chamadas «transições de fase», nas quais as fases menstruais «saltam» para se alinharem com um relógio corporal externo ao processo.
“Se o ciclo se prolongar, por qualquer razão, este processo baseado no relógio adapta-se para o encurtar rapidamente”, disse Claude Gronfier, neurocientista da Universidade de Lyon, em França, à BBC Science Focus.
O novo estudo sugere que, caso a Lua desempenhe algum papel na duração dos ciclos menstruais humanos - quer como vestígio evolutivo, quer por influência atual -, será mais como um passageiro no banco de trás, enquanto o relógio interno do organismo assume firmemente o volante.
O «relógio» do corpo humano tem um período de pouco mais de 24 horas, independentemente de fatores externos, como o tempo de exposição à luz solar. Embora apresente ligeiras diferenças entre indivíduos, este ritmo circadiano é muito estável em cada pessoa.
Sem luz solar - que reajusta o relógio biológico ao dia de 24 horas -, pode perder a sincronização, como qualquer pessoa com jet lag pode confirmar.
Os investigadores propuseram que, se um relógio interno estiver envolvido no ciclo menstrual, a duração dos ciclos deverá ser igualmente estável em cada indivíduo e apresentar uma distribuição estreita numa população.
A influência lunar varia consoante a geografia
Embora o estudo indique que este é o mecanismo principal do calendário menstrual, os cientistas encontraram uma relação fraca, mas estatisticamente significativa, entre os ciclos menstruais e lunares, que variava consoante a região geográfica.
“O ciclo menstrual começou mais frequentemente durante a Lua crescente na Europa, ao passo que, na América do Norte, começou na Lua cheia”, escrevem os autores.
Apesar de não disporem de uma explicação clara para esta diferença, sugerem que ela poderá resultar de distinções no estilo de vida - como os ciclos de sono-vigília - entre habitantes destes continentes.
“Há muito trabalho pela frente e esperamos que os nossos colegas embarquem connosco no que poderá ser uma futura área da medicina circadiana”, afirmou Gronfier à BBC Science Focus.
A equipa considera que os resultados poderão conduzir a potenciais tratamentos de fertilidade e afirma que compreender melhor a forma como os genes regulam o ciclo menstrual é essencial para entender a sua cronobiologia. Um estudo anterior identificou uma variante genética específica associada a uma hormona que afeta a duração do ciclo.
No entanto, isso não esclarece por que motivo os ciclos podem sofrer transições de fase consoante a duração dos ciclos anteriores, nem como o relógio interno do organismo poderá afetar a duração do ciclo. São necessários mais estudos, com grupos maiores, para confirmar estas novas conclusões e compreender os mecanismos subjacentes.
“Se a existência de um relógio interno que controla o ciclo menstrual for confirmada em estudos posteriores, então o tratamento médico das perturbações da ovulação poderá recorrer a abordagens cronobiológicas”, escrevem os autores.
Esta investigação foi publicada na Science Advances.






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