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O manuscrito Voynich poderá revelar sexo e conceção

Mulher a examinar livro antigo com lupa numa biblioteca, rodeada de desenhos e livros.
Neste artigo
  1. Sexologia e ginecologia no final da Idade Média
  2. Censura dos "segredos das mulheres"
  3. As Rosetas do manuscrito Voynich

O manuscrito Voynich intriga há muito tempo historiadores e o público em geral.

Este documento do final da Idade Média está repleto de ilustrações de estrelas e planetas, plantas, símbolos do zodíaco, mulheres nuas e fluidos azuis e verdes. Porém, o próprio texto - que se pensa ter sido escrito por cinco escribas diferentes - encontra-se cifrado e continua por decifrar.

Num artigo publicado na Social History of Medicine, a minha coautora, Michelle L. Lewis, e eu defendemos que o sexo é um dos temas abordados no manuscrito e que o diagrama de maior dimensão representa simultaneamente o sexo e a conceção.

Sexologia e ginecologia no final da Idade Média

A investigação sobre o manuscrito Voynich revelou alguns indícios relativos à sua origem. A datação por carbono indica, com 95% de probabilidade, que as peles usadas para produzir o manuscrito provêm de animais que morreram entre 1404 e 1438.

Contudo, o primeiro proprietário cuja posse é conhecida com segurança foi um associado do imperador do Sacro Império Romano-Germânico Rodolfo II, que viveu entre 1552 e 1612. Assim, fica por esclarecer mais de um século da história de propriedade do documento.

Algumas ilustrações - os símbolos do zodíaco, o desenho de uma coroa e um tipo específico de muralha de castelo denominado merlão em cauda de andorinha - sugerem que o manuscrito foi produzido nas áreas culturais do sul germânico ou do norte de Itália.

Uma das secções apresenta mulheres nuas a segurar objetos junto dos genitais ou orientados para estes. Tais imagens não se enquadrariam num manuscrito exclusivamente dedicado a plantas ou à astronomia.

Para interpretar estas imagens, analisámos a cultura da ginecologia e da sexologia no final da Idade Média, áreas que os médicos da época frequentemente designavam por "segredos das mulheres".

Começámos por estudar o médico bávaro Johannes Hartlieb (cerca de 1410–68), que viveu aproximadamente na mesma época e no mesmo local em que o manuscrito Voynich foi produzido.

Hartlieb escreveu sobre plantas, mulheres, magia, astronomia e banhos. Recomendava também o recurso a "letras secretas" - como uma cifra, um alfabeto secreto ou algo semelhante - para ocultar receitas e procedimentos médicos suscetíveis de resultar em contraceção, aborto ou esterilidade.

Embora o seu alfabeto secreto não tenha sobrevivido, a análise da sua obra ajudou-nos a compreender as atitudes que, naquele período, terão motivado o uso da cifragem.

Por exemplo, Hartlieb receava fortemente que os "segredos das mulheres" se tornassem amplamente conhecidos. Temia que os seus escritos pudessem facilitar relações sexuais extraconjugais e que Deus o condenasse se tal acontecesse.

Nos seus textos não cifrados, recusa-se ou hesita em escrever sobre determinados assuntos: unguentos vaginais pós-parto, o prazer sexual das mulheres, alegações de mulheres que davam à luz animais, as posições coitais "corretas" para a conceção, conselhos alimentares que alterariam a libido e informações sobre plantas venenosas, alucinogénias, contracetivas ou abortivas.

Ao escrever em bávaro vernacular, e não em latim académico, para aristocratas homens, Hartlieb afirma que esse conhecimento deveria ser vedado a trabalhadoras do sexo, pessoas comuns, crianças e, em certos casos, às próprias mulheres, que se estavam a tornar cada vez mais alfabetizadas.

Enquanto homem que valorizava o casamento heterossexual e a "modéstia" das mulheres, condenando a luxúria, a promiscuidade e a prostituição, Hartlieb era inteiramente convencional no seu meio.

Censura dos "segredos das mulheres"

Se estas atitudes eram então generalizadas, a censura dos segredos das mulheres também o seria? A resposta curta é: sim.

Durante a nossa investigação, decifrámos várias cifras deste período, embora nenhuma pertencesse ao manuscrito Voynich. A mais longa era uma cifra de 21 linhas, oriunda do norte de Itália no final da Idade Média, que ocultava uma receita com utilizações ginecológicas, incluindo o aborto.

Encontrámos ainda muitos exemplos de autores que se autocensuravam ou de leitores que apagavam ou destruíam informação em textos ginecológicos e/ou sexológicos. Os censores ocultavam frequentemente apenas algumas palavras, em geral termos relativos aos órgãos genitais ou nomes de plantas em receitas, mas por vezes eliminavam páginas ou capítulos inteiros.

Um manuscrito bávaro inclui receitas para a invisibilidade e feitiços destinados a coagir sexualmente mulheres, após os quais foram retiradas duas páginas. O censor escreveu que essa remoção foi feita "não sem razão".

As Rosetas do manuscrito Voynich

Ao analisarmos as ilustrações do manuscrito Voynich à luz deste contexto, propomos que as Rosetas - a ilustração maior e mais elaborada do manuscrito - representam uma compreensão do sexo e da conceção própria do final da Idade Média.

A nossa proposta é compatível com a cultura patriarcal da época e resolve muitas das aparentes contradições do manuscrito. Permite-nos igualmente identificar diversas características da ilustração.

No final da Idade Média, acreditava-se que o útero tinha sete câmaras e que a vagina possuía duas aberturas, uma externa e outra interna.

Consideramos que os nove círculos grandes das Rosetas representam essas estruturas: o círculo central corresponderia à abertura exterior, e o círculo no canto superior esquerdo à abertura interna. Os oito círculos exteriores têm margens lisas porque representam anatomia interna, enquanto o círculo central apresenta uma margem moldada por representar anatomia externa.

Abu Bakr Al-Rāzī, médico persa que influenciou a medicina europeia do final da Idade Média, escreveu que existiam cinco pequenas veias nas vaginas das virgens. Vemo-las a partir do círculo superior esquerdo em direção ao centro.

Os médicos daquele tempo também entendiam que a conceção exigia uma componente masculina e outra feminina, ambas denominadas "esperma". Estas surgem representadas a amarelo, a masculina, e a azul, a feminina.

Pensava-se que as mulheres sentiam prazer devido ao movimento dos dois espermas no útero, algo retratado pelas linhas e pelos padrões.

Acreditava-se igualmente que o útero possuía dois cornos ou pontas, visíveis nos círculos superior direito e inferior direito.

Os castelos e as muralhas das cidades podem corresponder a um jogo de palavras com o termo alemão schloss, cujos significados incluíam "castelo", "fechadura", "genitais femininos" e "pélvis feminina".

Os dois sóis, no extremo superior esquerdo e no canto inferior direito, refletem provavelmente a crença de Aristóteles de que o Sol fornece calor natural ao embrião durante o seu desenvolvimento inicial.

Embora muitas características da ilustração permaneçam por compreender, a nossa proposta merece uma análise atenta. Esperamos que futuras investigações sobre o manuscrito o abordem através de uma perspetiva semelhante. Talvez, reunindo indícios suficientes, possamos encontrar finalmente uma forma de decifrar este texto esquivo.

Keagan Brewer, Investigador, Departamento de Media, Comunicação, Artes Criativas, Língua e Literatura, Universidade Macquarie

Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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Inês Margarida Carvalho

Inês Margarida Carvalho é técnica superior de intervenção social, com experiência em desenvolvimento comunitário, envelhecimento ativo e apoio a famílias. Colabora com projetos ligados ao CSPSJ, dedicando-se à promoção da inclusão, do bem-estar social e da participação da comunidade.

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