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A surpreendente recuperação do pombo-de-cabeça-vermelha de Ogasawara após a retirada de 131 gatos

Pássaro com asas abertas pousado em pedra com outros pássaros e observadores com binóculos em paisagem costeira verde.
Neste artigo
  1. Um arquipélago isolado e uma ave à beira do desaparecimento
  2. O plano para retirar 131 gatos
  3. Crescimento inesperado da população de pombos
  4. O enigma genético: porque não entrou a população em colapso?
  5. O efeito em cascata no ecossistema das ilhas
  6. Lições para outras ilhas ameaçadas
  7. Conceitos que ajudam a compreender o fenómeno
  8. Riscos, oportunidades e próximos passos

Num arquipélago isolado do Pacífico, a retirada de gatos errantes transformou-se, inesperadamente, numa experiência ecológica acompanhada em tempo real.

Longe do território continental japonês, as ilhas Ogasawara foram cenário de uma mudança ambiental que surpreendeu até investigadores experientes. A remoção de 131 gatos errantes, inicialmente encarada como mais uma medida de controlo de espécies invasoras, desencadeou uma reação em cadeia que os modelos informáticos não tinham previsto.

Um arquipélago isolado e uma ave à beira do desaparecimento

As ilhas Ogasawara situam-se a cerca de mil quilómetros a sul de Tóquio. Pequenas e montanhosas, rodeadas de arribas, têm floresta densa e um clima húmido. Ao longo de milhares de anos, o isolamento geográfico fez delas um laboratório natural repleto de espécies que não existem em mais nenhum lugar.

Uma dessas espécies é o pombo-de-cabeça-vermelha de Ogasawara, uma ave endémica e discreta que habita as copas das árvores e se alimenta de frutos nativos. Antes da intervenção, encontrava-se em estado crítico. Os registos apontavam para pouco mais de uma centena de adultos e quase nenhuma ave jovem conseguia atingir a idade reprodutiva.

A causa era conhecida: gatos domésticos tornados predadores ferozes caçavam durante a noite, trepavam às árvores e atacavam ninhos e crias. A situação repete-se em ilhas por todo o mundo, da Austrália ao Havai, mas em Ogasawara aproximava-se do ponto sem retorno.

Em ilhas isoladas, a combinação de uma população reduzida, reprodução lenta e um predador eficaz é uma receita clássica para uma extinção silenciosa.

O plano para retirar 131 gatos

Em colaboração com as autoridades locais, investigadores japoneses prepararam uma operação delicada: capturar os gatos errantes, retirá-los da ilha e acompanhar minuciosamente a resposta da natureza.

A ação não foi improvisada. As suas etapas incluíram:

  • colocar armadilhas com isco em locais estratégicos;
  • utilizar câmaras de vigilância noturna para acompanhar os movimentos dos gatos;
  • retirar os animais gradualmente, para evitar desequilíbrios repentinos;
  • esterilizar os gatos e encaminhá-los para abrigos noutras regiões;
  • acompanhar rigorosamente as populações de aves antes, durante e depois da intervenção.

Ao fim de poucos meses, 131 gatos tinham sido retirados das zonas críticas. Terminava assim uma pressão de caça constante, dirigida sobretudo aos juvenis do pombo-de-cabeça-vermelha.

Crescimento inesperado da população de pombos

Os dados divulgados posteriormente na revista Communications Biology despertaram o interesse da comunidade científica internacional. Nos três anos que se seguiram à retirada dos gatos, a população de pombos adultos passou de 111 para 966 indivíduos. Entre os juvenis, o aumento foi ainda mais expressivo: de apenas 9 para 189.

Categoria Antes da remoção dos gatos Três anos depois
Pombos adultos 111 966
Pombos juvenis 9 189

Para quem trabalha na conservação, está longe de ser habitual observar uma espécie em estado crítico multiplicar a sua população em tão pouco tempo. Normalmente, a recuperação é lenta, marcada por recuos e por progressos modestos ao longo de décadas.

O crescimento dos pombos de Ogasawara figura entre as recuperações mais rápidas alguma vez registadas para uma espécie tão reduzida e ameaçada.

O enigma genético: porque não entrou a população em colapso?

A análise genética realizada pela equipa da Universidade de Quioto revelou outro dado intrigante. As populações pequenas tendem a sofrer de consanguinidade, perda de diversidade genética e acumulação de mutações prejudiciais. Em teoria, estes fatores limitam a capacidade de recuperação, mesmo depois de desaparecer a principal ameaça.

No caso dos pombos de Ogasawara, os investigadores esperavam encontrar uma espécie geneticamente “rígida”, com pouca margem de adaptação. Os exames, porém, mostraram outra realidade.

Os dados indicam que a espécie conseguiu conservar uma diversidade genética razoável, possivelmente devido à combinação de vários fatores:

  • uma população maior num passado recente, que deixou uma “reserva” de variabilidade;
  • um número efetivo de reprodutores superior ao estimado com base nos avistamentos;
  • estratégias de acasalamento que evitam cruzamentos entre parentes próximos;
  • uma pressão de seleção natural intensa, que elimina mais depressa os indivíduos menos aptos.

Em conjunto com a retirada dos gatos, estes fatores criaram uma situação rara: existiam indivíduos suficientes, e geneticamente aptos, para tirar partido da maior segurança ecológica.

O efeito em cascata no ecossistema das ilhas

Embora os pombos sejam o caso mais evidente, não são a única mudança em curso nas ilhas Ogasawara. Os relatos recolhidos no terreno apontam para um reajuste mais amplo do ecossistema.

Com mais pombos a consumir frutos e a dispersar sementes, algumas plantas nativas começaram a regenerar-se em zonas onde quase não surgiam novas plantas. A ave funciona como jardineira da floresta: come os frutos, transporta as sementes e deposita-as noutros locais, muitas vezes acompanhadas pelos seus próprios dejetos, que servem de adubo.

Este processo tende a fortalecer a floresta nativa, que, por sua vez, proporciona abrigo e alimento a insetos, répteis e outras aves. Assim, uma única alteração - a retirada dos gatos - está a desbloquear uma série de processos ecológicos anteriormente travados.

Quando se remove um predador invasor, não é apenas uma espécie que beneficia. Toda a rede de relações ecológicas se reorganiza.

Porque são os gatos domésticos um problema nas ilhas?

Para quem vive numa grande cidade, pode parecer estranho encarar os gatos como uma ameaça. Em meio urbano, ajudam a controlar os roedores e convivem com os seres humanos há milhares de anos. Nas ilhas isoladas, contudo, a situação é diferente.

A fauna nativa evolui sem contacto com mamíferos predadores. Muitas aves não desenvolveram receio de pequenos felinos e algumas chegam a nidificar no solo ou em ramos baixos, tornando-se presas fáceis. Um único gato à solta, mesmo bem alimentado, pode matar dezenas de animais selvagens em poucas semanas, quer para se alimentar, quer apenas por instinto de caça.

Lições para outras ilhas ameaçadas

O resultado obtido em Ogasawara já serve de referência a responsáveis ambientais de outros arquipélagos. Reforça uma ideia que vinha a ganhar terreno: projetos de erradicação ou controlo de predadores invasores podem ser decisivos para evitar extinções em massa nas ilhas.

Ao mesmo tempo, o caso japonês demonstra que é possível conciliar o bem-estar animal com a conservação. Os gatos não foram abatidos em larga escala: foram capturados, tratados, esterilizados e retirados. É um esforço que exige mais logística, mas reduz o conflito com a população local.

Este tipo de iniciativa tende a resultar melhor quando existe diálogo entre moradores, detentores de animais de companhia, organizações de proteção animal e cientistas. Sem apoio social, os projetos de remoção podem ser sabotados ou interrompidos antes de produzirem resultados.

Conceitos que ajudam a compreender o fenómeno

Dois termos surgem frequentemente neste debate. Um deles é “espécie invasora”: um organismo que não integra a fauna ou a flora original de uma região, mas que aí chega com ajuda humana, direta ou indireta, e passa a causar desequilíbrios.

Outro conceito importante é o “efeito de estrangulamento genético”. Descreve o que acontece quando uma população sofre uma redução brusca do número de indivíduos e perde parte da sua variação genética. Como sugere o caso do pombo de Ogasawara, esse estrangulamento nem sempre conduz a um colapso inevitável, embora aumente bastante o risco.

Os modelos de simulação usados pelos biólogos da conservação costumam prever percursos prováveis para estas populações: extinção, estabilização num nível baixo ou recuperação. Ao retirar os gatos, os cientistas alteraram uma variável-chave do modelo. O que os surpreendeu foi a rapidez com que a curva de recuperação se tornou ascendente.

Riscos, oportunidades e próximos passos

O sucesso em Ogasawara não significa que todas as espécies ameaçadas reajam com igual rapidez à retirada de um predador. Algumas já perderam demasiada diversidade genética. Outras deixaram de dispor de habitat adequado, mesmo na ausência de gatos, ratos ou cães.

Ainda assim, o caso reforça uma mensagem prática: o controlo de espécies invasoras pode funcionar como um “atalho” para recuperar ecossistemas insulares, sobretudo quando ainda existem indivíduos suficientes em idade reprodutiva e áreas bem conservadas.

Para o futuro, os investigadores defendem uma monitorização a longo prazo. Pretendem saber se a população de pombos estabilizará num nível seguro, se surgirão novos problemas, como a competição por alimento, e se o equilíbrio alcançado resistirá às alterações climáticas, a novas doenças ou à reintrodução acidental de gatos.

Noutros arquipélagos, as autoridades já começam a testar cenários semelhantes. As simulações indicam que retirar gatos, ratos e outros predadores de ilhas-chave do Pacífico e do Atlântico poderá salvar dezenas de espécies de aves, répteis e pequenos mamíferos de um destino semelhante ao que ameaçava o pombo-de-cabeça-vermelha de Ogasawara.

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Inês Margarida Carvalho

Inês Margarida Carvalho é técnica superior de intervenção social, com experiência em desenvolvimento comunitário, envelhecimento ativo e apoio a famílias. Colabora com projetos ligados ao CSPSJ, dedicando-se à promoção da inclusão, do bem-estar social e da participação da comunidade.

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