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Península Ibérica roda em sentido contrário, revelam novos dados de satélite e sísmicos

Jovem cientista em laboratório analisa globo terrestre iluminado com mapas e dados climáticos nos ecrãs.
Neste artigo
  1. De bloco em deslocação a pivô resistente
  2. Uma rotação lenta da Península Ibérica detetada a partir do espaço
  3. Porque importa esta mudança para os sismos
  4. A longa história do Mediterrâneo por detrás de uma pequena mudança
  5. Termos essenciais para compreender os resultados
  6. O que poderá isto significar no dia a dia?
  7. Como os cientistas testam cenários futuros

Novos dados de satélite e informações sísmicas revelam que a Península Ibérica, onde se situam Portugal e Espanha, não está a deslocar-se como os geólogos acreditaram durante muito tempo. Este bloco continental roda agora no sentido contrário, alterando a visão científica da tectónica do Mediterrâneo e do risco sísmico.

De bloco em deslocação a pivô resistente

A história complexa do Mediterrâneo não se limita à superfície. A grande profundidade, várias placas tectónicas empurram-se, deslizam e colidem há dezenas de milhões de anos.

A Ibéria é uma peça fundamental deste puzzle. Outrora unido ao território que hoje corresponde ao oeste de França, o bloco que transporta Portugal e Espanha separou-se à medida que o oceano Atlântico Norte se abria. Uma dorsal de expansão afastou as duas regiões, abriu o golfo da Biscaia e deu origem a uma microplaca ibérica independente.

Durante um longo período geológico, essa microplaca rodou no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio enquanto se deslocava para sudoeste. O movimento ajudou a comprimir e a enrugar a crosta, contribuindo para a elevação dos Pirenéus entre a Ibéria e o resto da Europa.

Quando a atual bacia do Mediterrâneo começou a ganhar forma, os principais intervenientes já ocupavam as suas posições: a placa Africana exercia pressão para norte, a placa Euroasiática oferecia resistência a norte e a Ibéria encontrava-se encaixada entre ambas numa posição difícil.

A novidade é que a Ibéria continua a rodar, mas agora no sentido dos ponteiros do relógio, e não no sentido contrário, como sucedeu na fase anterior do seu percurso.

Uma rotação lenta da Península Ibérica detetada a partir do espaço

Não é simples detetar um movimento tão subtil. As placas Africana e Euroasiática aproximam-se apenas 4 a 6 milímetros por ano, menos do que o ritmo de crescimento das unhas.

Para registar o comportamento atual da Ibéria, os investigadores reuniram várias fontes de dados:

  • Dados de posicionamento por satélite de elevada precisão (GNSS/GPS)
  • Medições da deformação da crosta, ou seja, do grau de extensão ou compressão do terreno
  • “Campos de tensão” sísmicos deduzidos a partir dos mecanismos focais dos sismos
  • Registos geológicos de sismos antigos, estudados pela paleossismologia

O estudo, publicado na revista Gondwana Research, mostra que a península não está simplesmente a ser empurrada para norte como uma jangada rígida. Comporta-se antes como um bloco em rotação, que pivota numa zona de contacto entre placas tectónicas densamente ocupada.

Gibraltar: o ponto onde as forças mudam de direção

O limite entre a placa Africana e a microplaca ibérica passa aproximadamente pelo Arco de Gibraltar, a região curva que rodeia o estreito de Gibraltar e o sul de Espanha.

A oeste do estreito, África exerce pressão quase diretamente contra a Ibéria ao longo da margem atlântica. A leste, em direção ao Mediterrâneo ocidental, parte dessa força de compressão é absorvida pela crosta complexa situada sob o Arco de Gibraltar.

O desequilíbrio entre as forças a oeste e a leste parece produzir um momento de torção no sentido dos ponteiros do relógio sobre a Ibéria, fazendo a península rodar lentamente.

À escala de uma vida humana, esta rotação é minúscula. Uma cidade na costa atlântica não verá, de repente, o nascer do sol numa direção diferente. Ao longo de dezenas de milhares ou de milhões de anos, porém, a mudança de orientação tem consequências relevantes para a deformação das rochas, a formação de montanhas e os padrões de sismicidade.

Porque importa esta mudança para os sismos

Compreender o movimento de uma placa ou microplaca é essencial para avaliar a perigosidade sísmica. As tensões acumulam-se nas falhas segundo direções específicas, que dependem dos movimentos regionais das placas.

O novo modelo de rotação fornece pistas adicionais sobre várias regiões sensíveis:

Região Principal efeito tectónico Potencial preocupação
Pirenéus Compressão renovada e reativação de falhas locais Perigosidade sísmica moderada, mas ainda mal quantificada
Sul de Espanha e Gibraltar Deformação complexa no Arco de Gibraltar Possibilidade de sismos fortes e de tsunamis
Margem ocidental ibérica Contacto direto com as forças da placa Africana Sismos ao largo que podem afetar cidades costeiras

Ao comparar as direções de tensão observadas com as falhas conhecidas, os cientistas conseguem identificar melhor as estruturas que continuam ativas e aquelas em que é agora pouco provável ocorrer deslizamento durante grandes sismos.

Nos Pirenéus, por exemplo, os novos dados ajudam a separar as falhas que acomodam sobretudo a elevação vertical das que continuam capazes de movimentos horizontais significativos. Essa distinção influencia o tipo e a intensidade dos abalos que futuros sismos poderão provocar.

A longa história do Mediterrâneo por detrás de uma pequena mudança

A atual rotação no sentido dos ponteiros do relógio é apenas um capítulo do longo percurso tectónico da Ibéria, integrado na história mais ampla do Mediterrâneo.

No Cretácico Superior, há cerca de 90 milhões de anos, o oceano de Tétis Alpino ocupava o espaço onde hoje se encontram partes do Mediterrâneo. À medida que o Atlântico Norte se abria, o movimento da placa Africana alterou-se: em vez de se afastar da Europa, África começou a aproximar-se dela.

A crosta oceânica de Tétis foi empurrada para o manto ao longo de zonas de subducção. África acabou por colidir com a Eurásia, dando início à orogenia Alpina, o processo prolongado que formou os Alpes e deformou grandes áreas do sul da Europa.

Comprimida entre estes gigantes em convergência, a Ibéria deslocou-se, rodou e deslizou cerca de 200 quilómetros para leste, até ficar próxima da sua posição atual. Os Pirenéus, as cordilheiras Béticas, no sul de Espanha, e as montanhas do Rife, em Marrocos, refletem todos essa história intrincada.

O novo resultado sobre a rotação, obtido com dados de satélite, não reescreve essa história, mas aperfeiçoa o fotograma mais recente de um filme muito longo.

Termos essenciais para compreender os resultados

O que entendem os geólogos por “microplaca”

Uma microplaca é um bloco rígido da camada exterior da Terra que se move com alguma independência, mas é mais pequeno do que uma placa principal, como a Africana ou a Euroasiática. A Ibéria enquadra-se nesta definição por ter limites e padrões de movimento próprios, embora esteja integrada no mosaico mais amplo das placas.

Dorsal oceânica, cadeias orogénicas e falhas ativas

  • Dorsal oceânica: extensa cadeia montanhosa submarina onde se forma nova crosta oceânica à medida que as placas se afastam. Um exemplo é a Dorsal Mesoatlântica, que ajudou a separar a Ibéria de França.
  • Orogenia: processo prolongado de formação de montanhas, desencadeado pela colisão de placas ou pela subducção. A orogenia Alpina moldou os Alpes, os Pirenéus e outras cadeias montanhosas.
  • Falha ativa: fratura da crosta que ainda pode provocar sismos, porque a tensão continua a acumular-se e a superar o atrito ao longo da fratura.

O que poderá isto significar no dia a dia?

Para quem vive em Lisboa, Madrid ou Barcelona, os novos resultados não indicam um perigo imediato. O risco sísmico na região continua a ser moderado quando comparado, por exemplo, com o da Turquia ou do Japão. As normas de construção e os planos de emergência em Portugal e Espanha já contemplam vários cenários baseados nos sistemas de falhas conhecidos.

O verdadeiro impacto está em mapas de risco mais bem fundamentados. Os modelos de seguros, o planeamento de infraestruturas e as instalações nucleares ou industriais de grande dimensão dependem de avaliações atualizadas da perigosidade sísmica. Uma descrição mais precisa do movimento da Ibéria ajuda a afinar esses valores, sobretudo para o sul de Espanha, os Pirenéus e as zonas costeiras próximas da margem atlântica portuguesa.

Há também benefícios científicos para além da avaliação da perigosidade. O Mediterrâneo funciona como um laboratório natural para estudar a interação entre placas em diferentes fases de colisão e subducção. Aperfeiçoar a descrição do movimento atual da Ibéria dá aos geofísicos um ponto de partida mais fiável para simulações que projetam a possível evolução da região ao longo de milhões de anos.

Como os cientistas testam cenários futuros

Os modelos geodinâmicos partem dos movimentos e dos padrões de tensão atuais e projetam-nos no tempo. Ao alterar as velocidades das placas, a espessura da crosta e as propriedades do manto, os investigadores podem testar vários futuros para a Ibéria e as regiões vizinhas. Irão as zonas de subducção recuar ainda mais para o Mediterrâneo? Deslocar-se-á a compressão para norte, em direção à Europa? Formar-se-ão novas falhas enquanto as antigas ficam bloqueadas?

Embora estas escalas temporais estejam muito para além dos horizontes do planeamento humano, os mesmos modelos também podem responder a questões de prazo mais curto. Por exemplo, permitem avaliar onde a deformação se está a concentrar atualmente e se é provável que um determinado sistema de falhas esteja a suportar uma parte maior da pressão. Em conjunto com os registos históricos de sismos, esta informação ajuda a identificar segmentos que poderão estar a aproximar-se de um limiar de rutura.

O retrato que emerge é o de uma península que não está imóvel nem se limita a deslocar-se para norte: roda sob a pressão desigual exercida por África e pela placa Euroasiática mais ampla. Numa região que se orgulha da sua história profunda, a Ibéria continua a reescrever discretamente a sua própria história geológica, um milímetro de rotação de cada vez.

Neste momento

Inês Margarida Carvalho

Inês Margarida Carvalho é técnica superior de intervenção social, com experiência em desenvolvimento comunitário, envelhecimento ativo e apoio a famílias. Colabora com projetos ligados ao CSPSJ, dedicando-se à promoção da inclusão, do bem-estar social e da participação da comunidade.

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