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Como mais de 40 000 florestas comunitárias protegem o clima e a biodiversidade

Dois jovens marcam uma árvore com uma fita vermelha numa floresta, um deles segura um mapa e GPS.
Neste artigo
  1. De «terreno vazio» a escudo vivo para o clima e a vida selvagem
  2. Como as comunidades protegem as florestas, árvore a árvore
  3. O que as florestas comunitárias significam para si, mesmo à distância
  4. Florestas que pertencem a pessoas que pertencem às florestas

Numa aldeia situada numa encosta do Nepal, crianças correm umas atrás das outras entre jovens árvores de sal. Perto delas, uma mulher de xaile vermelho vivo regista cuidadosamente, num caderno de folhas gastas, quantos troncos foram cortados naquele mês. Na orla da floresta, uma placa desbotada anuncia, com tinta a descascar: «Floresta Comunitária – O Nosso Futuro». Não há vedações nem guardas. Ainda assim, a floresta continua de pé.

Há poucos anos, aquela encosta estava quase despida. A madeira vendia-se depressa e o solo desaparecia com igual rapidez, arrastado por cada chuva forte. Hoje, a mesma cumeeira surge verde-escura nos mapas de satélite e ilumina os rostos dos habitantes. A mudança não resultou de um projeto climático sofisticado: mudou quem tinha o poder de decidir. Em todo o mundo, as comunidades gerem agora mais de 40 000 florestas semelhantes, que retêm discretamente toneladas de carbono e dão abrigo a espécies sem outro lugar para onde ir.

Quem escutar durante algum tempo acaba por perceber: a floresta deixou de ser uma mercadoria. Passou a ser uma relação.

De «terreno vazio» a escudo vivo para o clima e a vida selvagem

Ao aproximar a imagem de um mapa mundial da desflorestação, surge um fenómeno curioso. Em muitas regiões, as manchas despidas terminam abruptamente em fronteiras invisíveis. De um lado há cortes rasos, incêndios e gado; do outro, copas intactas e canto de aves. Essas linhas invisíveis assinalam muitas vezes florestas comunitárias: áreas legalmente reconhecidas como pertencentes a aldeias, povos indígenas ou grupos de utilizadores locais.

Os investigadores contabilizam atualmente mais de 40 000 florestas comunitárias na América Latina, em África e na Ásia. Por trás desse número existe uma diversidade surpreendente. Algumas abrangem apenas algumas dezenas de hectares de sistemas agroflorestais na Guatemala. Outras estendem-se por vastas paisagens em mosaico no México ou na bacia do Congo, onde rios, terrenos agrícolas e bosques sagrados se entrelaçam. Todas partilham uma ideia simples: quem vive mais perto da floresta decide como ela é utilizada.

Esta mudança no poder de decisão altera a forma como as árvores se mantêm de pé - e durante quanto tempo.

Na Reserva da Biosfera Maia, na Guatemala, por exemplo, existem nove concessões florestais comunitárias numa área que poderia facilmente ter-se tornado uma fronteira de exploração madeireira. Há vinte anos, muitos observadores previam uma destruição desenfreada caso os habitantes recebessem direitos de exploração. Sucedeu precisamente o contrário. Os dados de satélite revelam que estas concessões comunitárias apresentam algumas das taxas de desflorestação mais baixas de toda a região, inferiores às dos parques nacionais adjacentes sujeitos a proteção rigorosa.

Ao caminhar com os guardas florestais da comunidade de Uaxactún, percebe-se porquê. Todas as árvores assinaladas para corte são inspecionadas. As famílias sabem que parcela será explorada daqui a dez anos e que cursos de água têm de permanecer à sombra para proteger os peixes. As crianças aprendem a medir o diâmetro das árvores antes de conseguirem ler um relatório climático. As receitas regressam à comunidade, financiando escolas, clínicas e patrulhas. Não se trata de florestas romanticamente «intocadas»: são geridas como se cuidaria de uma horta estimada que alimenta a família.

O mesmo padrão repete-se nas colinas intermédias do Nepal, nas reservas florestais em terras de aldeias da Tanzânia e nos célebres ejidos do México. Onde os direitos estão garantidos e as comunidades organizadas, as florestas mantêm-se mais verdes nos mapas e a vida nas aldeias continua mais viável.

Porque se traduz o controlo comunitário em proteção climática e áreas de grande biodiversidade? A resposta começa no tempo. As empresas externas trabalham muitas vezes com contratos curtos e lucros trimestrais. As comunidades locais fazem planos em função das colheitas, dos casamentos, das épocas de escassez e das crianças que precisarão de lenha daqui a 15 anos. Essa perspetiva mais longa favorece o corte seletivo, as regras de regeneração e a proteção das árvores produtoras de sementes.

Depois há o conhecimento. Os habitantes sabem que vale inunda primeiro, que cumeeira apanha os ventos mais fortes e onde ainda floresce a rara orquídea medicinal. Estes pormenores raramente figuram nos planos oficiais de gestão, mas orientam milhares de decisões quotidianas: onde levar as cabras a pastar, quando proibir fogueiras e que espécies voltar a plantar. Em conjunto, essas escolhas retêm carbono no subsolo e nos troncos, deixando espaço para macacos, insetos, fungos e grandes predadores que necessitam de habitats contínuos.

Há ainda algo mais difícil de medir: a dignidade. Quando as pessoas sentem que algo lhes pertence, defendem-no. As florestas remotas «do Estado» são muitas vezes tratadas como um problema de ninguém e uma oportunidade para todos. Depois de uma assembleia de aldeia votar a criação de uma floresta, cortar uma árvore viva sem autorização deixa de parecer um ato sem vítimas. É roubar aos vizinhos - e aos próprios netos.

Como as comunidades protegem as florestas, árvore a árvore

Por detrás de cada imagem de satélite com uma mancha verde intacta existe uma rotina quase aborrecida: reuniões, regras, patrulhas e discussões. O centro prático da gestão florestal comunitária é o plano de gestão. Não um relatório vistoso esquecido numa prateleira, mas um conjunto vivo de regras sobre quem pode fazer o quê, onde e quando. Muitas comunidades dividem a floresta em zonas de proteção rigorosa, exploração madeireira sustentável, recolha de lenha, pastoreio ou áreas sagradas em que ninguém toca.

Um método típico funciona assim: os habitantes mapeiam a floresta, conjugando o GPS com a memória. Definem ciclos de exploração claros, por exemplo, cortando apenas árvores maduras de determinadas espécies em cada parcela, uma vez a cada 20 ou 30 anos. Estabelecem limites para a madeira que cada família pode retirar gratuitamente e para a quantidade pela qual tem de pagar. As multas são reais, ainda que impopulares. Os grupos de patrulha percorrem a floresta ao amanhecer ou depois do jantar, à escuta de motosserras ilegais ou disparos. No papel, tudo parece arrumado; de perto, é uma negociação permanente com a natureza e entre as pessoas.

Numa manhã de nevoeiro no distrito de Kilosa, na Tanzânia, uma comissão florestal de aldeia reúne-se debaixo de uma mangueira. O grande tema do dia é o carvão vegetal. Os jovens querem ganhar dinheiro com a sua venda na cidade; os mais velhos receiam que a floresta de miombo esteja a perder densidade rapidamente. O compromisso passa por reservar uma pequena zona para a produção de carvão cuidadosamente controlada, com quotas rigorosas e plantação obrigatória de árvores em redor dos terrenos agrícolas. Outra zona fica interdita aos machados, para permitir a recuperação da fauna e das bacias hidrográficas.

A decisão é registada num livro gasto e um dos membros da comissão tira-lhe uma fotografia com o telemóvel para a enviar à administração distrital. A burocracia encontra o WhatsApp. O sistema não é perfeito e haverá quem continue a infringir as regras. Ainda assim, em comparação com a ausência de controlo anterior, a floresta tem agora limites, épocas definidas e expectativas partilhadas. Ao longo de cinco ou dez anos, é isso que permite recuperar a cobertura das copas e manter o carbono no solo.

No papel, muitas políticas exaltam os direitos das comunidades. No terreno, a realidade é mais dura. Os títulos de propriedade ficam retidos nos gabinetes. Os guardas florestais importunam os habitantes mesmo quando estes cumprem as regras. As empresas madeireiras pressionam os governos para obter acesso. Por vezes, dirigentes locais corruptos apropriam-se dos benefícios. A imagem romantizada dos «guardiões da floresta» esconde verdadeiras disputas de poder e o cansaço de quem as enfrenta.

Sejamos honestos: ninguém numa aldeia rural pobre acorda a pensar primeiro nas curvas do clima mundial. As preocupações são as despesas escolares, as próximas colheitas e a possibilidade de o ribeiro ainda correr em maio. É precisamente por isso que as florestas comunitárias perduram onde falha a conservação imposta de cima. Quando a mesma floresta que armazena carbono também fornece forragem, cogumelos, água limpa e algum dinheiro proveniente de madeira certificada, as pessoas têm razões diretas e quotidianas para a manter viva.

Num ano mau, esse equilíbrio pode vacilar. Uma seca, uma colheita perdida ou uma crise política podem tornar a venda de troncos dolorosamente tentadora. Algumas florestas comunitárias voltaram mesmo a uma situação de acesso livre. As histórias de sucesso hoje celebradas assentam numa combinação complexa de direitos, incentivos, orgulho e apoio externo. Não são milagres. São acordos conquistados com esforço, que exigem cuidado constante.

O que as florestas comunitárias significam para si, mesmo à distância

Tudo isto pode parecer acontecer noutro planeta: cumeeiras enevoadas no Nepal, clareiras abafadas na Amazónia, savanas cheias do zumbido das cigarras. No entanto, ao olhar para a sua própria vida, encontrará fios que a ligam a essas 40 000 florestas comunitárias. A madeira certificada da estante. O café com indicação de «cultivado à sombra» de uma cooperativa de pequenos produtores. A compensação de carbono que a sua empresa compra discretamente todos os anos. Muitos destes produtos dependem de comunidades que mantêm as árvores de pé por escolha, não por imposição.

Se quiser aproximar a sua vida quotidiana dessas escolhas, comece por ações pequenas e concretas. Procure rótulos associados à gestão comunitária ou indígena, em vez de simples alegações genéricas de que são «verdes». Apoie organizações não governamentais que trabalhem pelos direitos à terra, e não apenas pela plantação de árvores. Nas viagens, escolha guias ou alojamentos pertencentes a cooperativas locais, pergunte quem controla os terrenos circundantes e escute realmente a resposta. Estes gestos não transformam o mundo de um dia para o outro, mas orientam dinheiro e atenção para quem faz o trabalho lento de proteção.

Num ecrã, a crise climática parece abstrata: gráficos, graus, cenários. Num caminho florestal acontece o contrário. Veem-se linhas de cepos a avançar lentamente encosta acima. Nascentes que antes corriam todo o ano secam agora em agosto. Todos já tivemos um momento em que sentimos que o mundo muda mais depressa do que os nossos hábitos. É por isso que os conselhos baseados na culpa muitas vezes produzem o efeito contrário: as pessoas paralisam, percorrem o ecrã e seguem em frente.

Uma abordagem mais honesta reconhece os limites. Não pode patrulhar pessoalmente uma floresta nos Camarões. Provavelmente também não lerá todas as páginas do relatório ambiental, social e de governação do seu fundo de pensões. Pode, porém, escolher alguns pontos de influência - os seus gastos, o seu voto, as suas competências profissionais - e ligá-los a lugares e pessoas concretos. Fale dessas ligações à mesa ou em reuniões, não como lições de moral, mas como histórias: «Este café vem de uma cooperativa que salvou um corredor para jaguares» ou «Esta aldeia na Indonésia duplicou o rendimento quando os seus direitos florestais foram reconhecidos». As pequenas histórias viajam.

«Quando o governo disse que esta floresta era nossa, dormi aqui na primeira noite», contou-me um dirigente comunitário mexicano, a rir baixinho. «Não por estar a vigiá-la. Foi porque, pela primeira vez, me senti em casa debaixo destas árvores.»

Este tipo de ligação tem uma força discreta. Espalha-se de formas que os documentos de políticas em PDF nunca conseguirão. Se procura um ponto de partida, aqui ficam algumas portas de entrada simples:

  • Escolha pelo menos uma compra recorrente - café, chocolate ou produtos de madeira - que apoie claramente os direitos das comunidades ou dos povos indígenas.
  • Acompanhe e partilhe o trabalho de uma organização que defenda os direitos à terra ou a gestão florestal comunitária.
  • Pergunte à sua entidade empregadora ou universidade de que modo a estratégia climática apoia a proteção florestal dirigida localmente, em vez de depender apenas de compensações à distância.

Florestas que pertencem a pessoas que pertencem às florestas

Esta noite, algures numa floresta que nunca visitará, alguém caminha com uma lanterna e um caderno gasto, não com uma espingarda. Essa pessoa verifica os limites, escuta à procura de camiões e talvez pare para tocar na casca de uma árvore plantada pela avó. Na linguagem da ciência climática, está a «evitar emissões» e a «proteger áreas de grande biodiversidade». Nas suas próprias palavras, está apenas a cuidar do que lhe pertence.

Mais de 40 000 florestas comunitárias formam pelo planeta fora uma manta de retalhos deste género. Muitas são demasiado pequenas para aparecer em relatórios vistosos. Algumas são estrelas mundiais nos meios da conservação. Em conjunto, armazenam milhares de milhões de toneladas de carbono e abrigam mais espécies de aves, insetos, mamíferos e árvores do que aquelas a que já demos nome. O seu verdadeiro poder está na continuidade. Ano após ano, reunião após reunião, dizem não ao dinheiro rápido em favor de uma paisagem viva que possam entregar à geração seguinte.

Estes lugares não são museus imobilizados no tempo. Os jovens partem para as cidades. Chegam os telemóveis. Os preços de mercado mudam. Algumas comunidades optarão por cortar mais; outras, por proteger mais. As florestas crescerão, arderão e voltarão a crescer. Ainda assim, sempre que uma aldeia garante os direitos sobre a sua terra e os utiliza para manter uma floresta de pé, a balança inclina-se um pouco. Menos carbono no céu. Mais oxigénio levado pelo vento. Mais um refúgio onde uma anta pode beber, uma orquídea agarrar-se a um ramo e uma criança crescer a conhecer o cheiro da terra molhada depois da chuva.

Vistas de uma distância suficiente, estas 40 000 manchas verdes parecem um arquipélago disperso: ilhas de resiliência num mundo em aquecimento. Deixam no ar uma pergunta persistente: não apenas como salvar as florestas, mas como viver de modo que essa proteção se torne normal, e não heroica.

Ponto principal Pormenor Interesse para o leitor
As florestas comunitárias abrandam a desflorestação Mais de 40 000 florestas geridas por comunidades apresentam menor perda florestal do que as áreas próximas. Mostra que o controlo local pode ter melhores resultados para o clima do que regras definidas à distância.
Retêm enormes reservas de carbono A gestão seletiva e de longo prazo mantém o carbono nos troncos, no solo e nas raízes. Liga escolhas quotidianas, como os produtos comprados e a defesa de causas, a benefícios climáticos reais.
Protegem áreas de grande biodiversidade As regras tradicionais e as áreas sagradas abrigam espécies e habitats únicos. Evidencia como a cultura e a conservação se reforçam mutuamente na prática.

Neste momento

Inês Margarida Carvalho

Inês Margarida Carvalho é técnica superior de intervenção social, com experiência em desenvolvimento comunitário, envelhecimento ativo e apoio a famílias. Colabora com projetos ligados ao CSPSJ, dedicando-se à promoção da inclusão, do bem-estar social e da participação da comunidade.

Perguntas frequentes

O que é exatamente uma floresta comunitária?

É uma área onde a população local ou grupos indígenas detêm direitos reconhecidos para gerir a floresta e beneficiar dela, normalmente segundo regras partilhadas e um plano formal de gestão.

Como ajudam as florestas comunitárias a combater as alterações climáticas?

Reduzem a desflorestação e promovem uma exploração cuidadosa, mantendo o carbono armazenado nas árvores e no solo, em vez de o libertarem para a atmosfera.

As florestas comunitárias têm sempre sucesso?

Não. Algumas falham devido à fragilidade dos direitos à terra, à corrupção ou às pressões da pobreza. Contudo, quando os direitos e o apoio são sólidos, muitas têm resultados tão bons ou melhores do que as áreas protegidas geridas pelo Estado.

Os consumidores urbanos podem realmente apoiar as florestas comunitárias?

Sim. Podem comprar produtos de cooperativas comunitárias, apoiar campanhas pelos direitos à terra e pressionar empresas ou instituições para financiarem a proteção florestal dirigida localmente.

Uma floresta comunitária significa que não há qualquer exploração madeireira?

Não necessariamente. Muitas permitem cortes seletivos e planeados, utilizando as receitas em escolas, clínicas e patrulhas, ao mesmo tempo que mantêm o ecossistema florestal em grande parte intacto.

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