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Uma câmara submarina filma um tubarão ao largo de Marselha após seis meses de espera

Mergulhador submarino a fotografar um tubarão azul ligado a uma bóia amarela sob a luz do sol.
Neste artigo
  1. Seis meses de imagens tranquilas e a aparição de um tubarão
  2. Filmar sem perturbar: a paciência como melhor técnica
  3. Um tubarão diante da objetiva e outra forma de olhar para Marselha

Ao nascer do dia, ao largo de Marselha, o mar tinha a cor de estanho bem conhecida dos pescadores e dos mergulhadores de fim de semana. Durante meses, uma pequena câmara presa a uma rocha, vários metros abaixo da superfície, filmara apenas sargos, bodiões e nuvens de partículas que dançavam ao sabor da corrente. Até que, numa manhã de janeiro, o proprietário parou de repente enquanto percorria as imagens no computador: uma silhueta comprida, flexível, quase irreal, acabara de atravessar o enquadramento. Era um tubarão. Não um monstro de cinema nem uma sombra indistinta criada por um olhar inquieto, mas um animal perfeitamente reconhecível, a avançar sem pressa. O Mediterrâneo guarda por vezes surpresas para quem sabe esperar. Desta vez, guardou-as durante seis meses.

Seis meses de imagens tranquilas e a aparição de um tubarão

A ideia inicial era simples: filmar a vida quotidiana debaixo de água, longe dos postais ilustrados e dos mergulhadores com barbatanas acabadas de estrear. Instalada numa zona rochosa ao largo de Marselha, a câmara gravava algumas sequências por dia e atraía sobretudo os pequenos peixes habituados ao relevo e às pradarias marinhas próximas. Nada de espetacular, pelo menos na aceção que a Internet dá à palavra. Apenas o ritmo discreto do mar: as passagens rápidas das obladas, os polvos a desaparecerem numa fenda e os cardumes a apertarem-se quando uma sombra passa. Todos conhecemos aquele momento em que julgamos estar a observar algo banal, até que um pormenor muda toda a história. Neste caso, o pormenor tinha barbatanas e uma postura surpreendentemente calma.

Nas imagens, o animal atravessa o campo de visão durante apenas alguns segundos. Sem uma referência precisa, é difícil determinar o seu tamanho exato, mas a silhueta faz pensar num tubarão de mar aberto que se aproximou da costa, talvez orientado pela temperatura, pela presença de presas ou pelas correntes. O vídeo foi analisado imagem a imagem antes de ser partilhado com entusiastas da fauna marinha. O que impressiona não é apenas a presença do tubarão, mas também a sua total indiferença perante a câmara. Não olha para a objetiva, não nada à sua volta, não representa qualquer papel. Limita-se a passar. E esse gesto quase banal dá às imagens uma força estranha, como se tivéssemos entreaberto uma porta para um mundo que continua sem nós.

O Mediterrâneo acolhe várias dezenas de espécies de tubarões e raias, embora raramente sejam vistas junto das zonas frequentadas. Muitas são discretas e estão ameaçadas pela pesca, pela perturbação dos habitats ou pela escassez de alguns recursos. Assim, avistar um tubarão perto de Marselha não é impossível, ainda que o acontecimento continue a surpreender o grande público. A palavra, por si só, desperta receios antigos. A realidade, porém, é muito menos espetacular do que nos filmes: estes animais evitam geralmente os seres humanos e desempenham um papel valioso no equilíbrio dos ecossistemas marinhos. O verdadeiro choque resulta, sobretudo, do nosso desconhecimento. Debaixo dos barcos, das pranchas de paddle e dos reflexos azuis, circula diariamente uma vida abundante.

Filmar sem perturbar: a paciência como melhor técnica

Na instalação de uma câmara subaquática, a primeira regra é escolher um local estável, afastado das passagens de barcos e das zonas onde a ancoragem possa danificar os fundos. Uma rocha, uma estrutura já existente ou um suporte adequado ajudam a reduzir o impacto ambiental. Também é preciso ter em conta a corrente: se estiver mal fixada, a câmara depressa passará a filmar apenas areia, algas ou um ângulo absurdo apontado ao céu. Convenhamos que quase ninguém faz isto todos os dias. Entre a estanquidade da caixa, a autonomia da bateria, a recuperação dos ficheiros e as eventuais autorizações, a observação marinha exige tempo. Mas essa lentidão faz parte da experiência quase tanto como o próprio vídeo.

O erro mais comum é tentar atrair os peixes com comida. A ideia pode parecer prática, sobretudo quando as primeiras imagens parecem desesperadamente vazias, mas altera o comportamento dos animais e pode criar maus hábitos. É preferível deixar o local seguir o seu ritmo, sem isco, sem luz agressiva e sem presença repetida junto da objetiva. As imagens mais comoventes nem sempre mostram acontecimentos extraordinários. Uma moreia a sair timidamente, um salmonete a remexer na areia ou um choco a mudar de cor já contam muito. A paciência debaixo de água vale muitas vezes mais do que todos os truques de filmagem.

Depois de descobrir o tubarão, o autor do vídeo não tentou repetir a cena mudando a câmara de sítio ou multiplicando os mergulhos. Manteve a instalação praticamente intacta, guiado por uma ideia simples: observar sem forçar.

«Percebi que o mar não dá nada por encomenda. Por vezes deixa uma prenda e depois retoma o seu silêncio.»

Para quem sonha experimentar, alguns gestos fazem a diferença:

  • fixar o equipamento sem arrancar algas nem deslocar pedras;
  • evitar qualquer isco, mesmo em pequenas quantidades;
  • filmar à distância e recolher a câmara discretamente;
  • comunicar uma observação invulgar a especialistas locais, se necessário.

Um tubarão diante da objetiva e outra forma de olhar para Marselha

A sequência recorda que Marselha é mais do que o seu Porto Velho, os seus ferries, as praias cheias em julho ou as falésias brancas das Calanques. Abaixo da linha de água, a cidade revela outra face: mais frágil, mais discreta, por vezes ameaçada, mas ainda profundamente viva. O tubarão filmado durante alguns segundos não transforma o Mediterrâneo num cenário de aventura. Lembra antes que este não é um simples espaço de lazer. É um meio habitado, percorrido por espécies com as quais nos cruzamos sem as ver. Talvez a verdadeira emoção esteja aí: na certeza de que a vida selvagem não desapareceu por completo. Espera apenas que baixemos um pouco o volume.

Ponto essencial Pormenor Valor acrescentado para o leitor
Uma presença rara, mas possível O Mediterrâneo alberga numerosas espécies de tubarões, muitas vezes discretas e pouco observadas. Compreender melhor que a presença de um tubarão não significa automaticamente perigo.
Uma câmara instalada com paciência Seis meses de imagens comuns antecederam a passagem do animal diante da objetiva. Avaliar o interesse de uma observação lenta e respeitadora da natureza.
Filmar sem perturbar Sem isco, com poucas intervenções e equipamento fixado num suporte adequado. Adotar boas práticas para preservar os fundos marinhos durante as filmagens.

Neste momento

Inês Margarida Carvalho

Inês Margarida Carvalho é técnica superior de intervenção social, com experiência em desenvolvimento comunitário, envelhecimento ativo e apoio a famílias. Colabora com projetos ligados ao CSPSJ, dedicando-se à promoção da inclusão, do bem-estar social e da participação da comunidade.

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