A qualquer noite, uma «nova estrela», ou nova, poderá surgir no céu nocturno. Embora não vá incendiar o firmamento, será uma oportunidade especial para observar um acontecimento raro, que habitualmente é difícil de antecipar.
A estrela em causa é a T Coronae Borealis (T CrB, pronunciada «T Cor Bor»). Situa-se na constelação da Coroa Boreal, bem visível no Hemisfério Norte, mas que também poderá ser observada no céu do norte da Austrália e da Aotearoa Nova Zelândia nos próximos meses.
Na maior parte do tempo, a T CrB, localizada a 3.000 anos-luz de distância, é demasiado ténue para ser vista. Contudo, aproximadamente uma vez a cada 80 anos, entra numa erupção muito brilhante.
Parece então surgir subitamente uma estrela totalmente nova, ainda que apenas por pouco tempo. Poucas noites depois, a luminosidade diminui depressa, até voltar a desaparecer na escuridão.
Uma explosão de vida
No auge da sua existência, as estrelas são alimentadas por reacções de fusão nuclear que ocorrem nas profundezas dos seus núcleos. Na situação mais comum, o hidrogénio é convertido em hélio, libertando energia suficiente para manter a estrela estável e luminosa durante milhares de milhões de anos.
Mas a T CrB já ultrapassou há muito essa fase e é agora um remanescente estelar chamado anã branca. O fogo nuclear no seu interior extinguiu-se, permitindo que a gravidade comprima de forma drástica esta estrela morta.
A T CrB tem também uma companheira estelar: uma gigante vermelha que se expandiu ao entrar na velhice. A anã branca recolhe o gás da gigante vermelha dilatada, criando à volta da estrela morta aquilo que se designa por disco de acreção.
A matéria continua a acumular-se numa estrela que já está comprimida até ao seu limite, provocando uma subida constante da pressão e da temperatura. As condições tornam-se tão extremas que reproduzem aquelas que antes existiriam no núcleo da estrela. A superfície entra em ignição numa reacção termonuclear descontrolada.
Quando isso acontece, a energia libertada faz com que a T CrB brilhe 1.500 vezes mais do que o normal. Vista da Terra, torna-se brevemente visível no céu nocturno. Após esta reinicialização dramática, a estrela expulsa o gás, permitindo que todo o ciclo recomece.
Porque sabemos que a nova T CrB está próxima?
A T CrB é a mais brilhante de uma classe rara de novas recorrentes, cujas explosões se repetem num período inferior a cem anos - uma escala temporal que permite aos astrónomos reconhecer a sua natureza recorrente.
Actualmente, conhecem-se apenas dez novas recorrentes, embora possam existir mais novas com este comportamento, mas em escalas temporais muito mais longas e, por isso, menos fáceis de acompanhar.
O registo mais antigo conhecido de uma erupção da T CrB data de 1217 e baseia-se em observações anotadas numa crónica monástica medieval. É notável que os astrónomos consigam hoje prever as suas erupções com tanta precisão, desde que a nova mantenha o padrão habitual.
As duas erupções mais recentes da estrela - em 1866 e 1946 - revelaram exactamente as mesmas características. Cerca de dez anos antes da erupção, a luminosidade da T CrB aumentou ligeiramente, num fenómeno conhecido como estado alto, seguindo-se uma redução breve, ou depressão, aproximadamente um ano antes da explosão.
A T CrB entrou no seu estado alto em 2015, e a depressão pré-erupção foi identificada em Março de 2023, deixando os astrónomos em alerta. As causas destes fenómenos são apenas alguns dos mistérios que ainda rodeiam a T CrB.
Como a posso observar?
Comece já a observar o céu! Convém habituar-se a identificar a Coroa Boreal tal como ela se apresenta agora, para sentir todo o impacto da «nova» estrela.
Actualmente, a Coroa Boreal atinge a sua melhor posição de observação, conhecida como passagem pelo meridiano, entre as 20h30 e as 21h00, hora local, em toda a Austrália e Aotearoa Nova Zelândia. Quanto mais a norte estiver, mais alta a constelação aparecerá no céu.
Prevê-se que a nova tenha uma luminosidade razoável, de magnitude 2,5: aproximadamente igual à de Imai (Delta Crucis), a quarta estrela mais brilhante do Cruzeiro do Sul. Assim, será fácil de observar mesmo numa cidade, desde que se saiba para onde olhar.
Não haverá muito tempo para ver a T CrB
Depois de ocorrer a explosão, haverá pouco tempo para a observar. O brilho máximo durará apenas algumas horas; no espaço de uma semana, a T CrB terá desvanecido e serão necessários binóculos para a ver.
É quase certo que será um astrónomo amador a alertar a comunidade profissional para o momento em que a T CrB entrar em erupção.
Estas pessoas dedicadas e conhecedoras observam regularmente estrelas a partir dos seus quintais, movidas pela possibilidade do «e se», e preenchem assim uma lacuna importante nas observações do céu nocturno.
A Associação Americana de Observadores de Estrelas Variáveis (AAVSO) reúne mais de 270.000 observações submetidas apenas sobre a T CrB. Astrónomos amadores, nesta região e por todo o mundo, colaboram para vigiar continuamente a T CrB à procura dos primeiros sinais de erupção.
Espera-se que a nova entre em erupção, como previsto, algures antes de Outubro, pois depois disso a Coroa Boreal deixa de estar visível no céu nocturno do Hemisfério Sul.
Tanya Hill, conservadora sénior de Astronomia nos Museums Victoria e investigadora honorária da Universidade de Melbourne, no Instituto de Investigação Museums Victoria, e Amanda Karakas, professora associada da Escola de Física e Astronomia da Universidade Monash
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.






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