Não é segredo que os adeptos mais fervorosos do desporto costumam encarar a sua modalidade favorita como algo sagrado, mas uma nova descoberta indica que os antigos maias levavam essa ideia muito mais longe.
Sob o pavimento de uma praça identificada como campo do Jogo de Bola Maia, arqueólogos encontraram plantas utilizadas em cerimónias. Estas espécies possuem propriedades medicinais e estão ligadas a práticas religiosas, incluindo uma planta com efeitos alucinogénios conhecidos, cuja utilização nunca tinha sido anteriormente observada em contextos maias.
Segundo uma equipa de arqueólogos dos Estados Unidos, Canadá e México, a descoberta terá provavelmente resultado de uma bênção ritual do campo durante a sua construção: uma oferenda cerimonial destinada a garantir boa vontade e fortuna.
"Quando construíam um edifício novo, pediam a boa vontade dos deuses para protegerem as pessoas que o habitavam", afirma David Lentz, arqueólogo da Universidade de Cincinnati e primeiro autor do estudo. "Algumas pessoas chamam-lhe um ‘ritual de atribuição de alma’, destinado a obter uma bênção dos deuses e a apaziguá-los."
O campo do Jogo de Bola Maia em Yaxnohcah
A descoberta ocorreu em Yaxnohcah, uma antiga cidade maia que prosperou aproximadamente entre 1.000 a.C. e 200 d.C., na actual região de Campeche, no México. As escavações revelaram ali uma praça de destaque, que os arqueólogos concluíram tratar-se de um campo de jogo de bola.
Os jogos de bola desempenhavam um papel extremamente importante na sociedade maia. Não eram apenas desporto, como hoje os entendemos: o Jogo de Bola Maia constituía um acto religioso, que venerava os deuses e heróis maias, reafirmava a devoção da população às suas divindades e, por vezes, incluía mesmo o sacrifício de cativos importantes depois de uma partida.
"Hoje pensamos nos campos de jogo como locais de entretenimento. Para os antigos maias, não era assim", diz Lentz. "Os campos de jogo ocupavam terrenos privilegiados no centro cerimonial. Eram uma componente fundamental da cidade."
O campo de Yaxnohcah foi identificado numa plataforma de pedra chamada complexo Helena. Esta estrutura já existia e era utilizada há algum tempo antes de o campo ser acrescentado, há cerca de 2.000 anos. Quando estas plataformas recebiam ampliações, era habitual realizar-se uma oferenda para abençoar o local e a alteração efectuada.
Plantas cerimoniais enterradas sob o pavimento
Durante o trabalho de campo no sítio, os investigadores encontraram vestígios de matéria orgânica enterrados sob quatro camadas de pedra pavimentada. Por esse motivo, o material manteve-se relativamente preservado desde a construção do campo. Não era possível determinar visualmente o conteúdo daquela matéria degradada, mas as técnicas de sequenciação de ADN antigo revelaram-se plenamente capazes de o identificar.
Ao analisarem o sedimento, os investigadores detectaram uma elevada concentração de material proveniente de plantas importantes para os maias.
Entre cerca de 15 espécies vegetais, a equipa identificou Ipomoea corymbosa (xtabentun na língua maia), uma trepadeira florífera semelhante à glória-da-manhã, com propriedades alucinogénias. Foram também encontrados pimentos-malagueta, ou Capsicum sp. (ic em maia), usados para fins medicinais e culinários; Hampea trilobata (jool), uma árvore cujas folhas serviam para embrulhar fardos de alimentos e cuja casca era usada na produção de cordel para cestos; e Oxandra lanceolata (chilcahuite), outra planta medicinal.
"Penso que o facto de estas quatro plantas, cuja importância cultural para os maias é conhecida, terem sido encontradas numa amostra concentrada indica que se tratava de uma recolha intencional e deliberada sob esta plataforma", explica Eric Tepe, botânico da Universidade de Cincinnati.
A concentração destas plantas sob a plataforma sugere que foram depositadas juntas num embrulho. A presença de ADN de jool poderá significar que as restantes plantas estavam envoltas nas suas folhas ou num cesto tecido com a sua casca.
Uma oferenda para proteger e abençoar o campo
Não se sabe exactamente em que consistiu o ritual. É possível que estivesse relacionado com a cura ou com a transformação de um espaço doméstico num espaço cerimonial. O que parece evidente é que ocorreu um ritual directamente ligado ao campo de jogo de bola, com uma oferenda de plantas de profundo significado para os maias.
"Como vimos, sabe-se que os maias colocavam embrulhos de cura sob os pavimentos como medida de protecção contra causas externas de doença", escrevem os investigadores no estudo.
"Contudo, uma possibilidade ainda mais forte era a de isto fazer parte de um ritual de atribuição de alma ou de fixação da terra, concebido para propiciar os deuses de uma forma que garantisse as suas bênçãos nas actividades subsequentes associadas ao espaço cerimonial do campo de jogo de bola recentemente construído."
A investigação da equipa foi publicada na PLOS ONE.






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