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A natureza pode ajudar a reduzir a solidão

Jovem sentado no banco de parque encostado a uma árvore, relaxando ao sol, com livro e ténis ao lado.
Neste artigo
  1. A solidão tem duas formas
  2. A natureza cria uma ligação mais profunda
  3. Atividades na natureza reduzem a solidão
  4. Prestar atenção à natureza
  5. O poder da solitude
  6. A natureza oferece novas soluções
  7. As cidades devem integrar a natureza
  8. Uma nova perspetiva sobre a solidão

A solidão nem sempre significa estar sozinho. Muitas vezes, nasce da sensação de desconexão. Este sentimento tem aumentado nos últimos anos, suscitando preocupação entre investigadores e especialistas em saúde pública.

Um novo estudo realizado na Noruega colocou uma questão simples: será que a natureza pode ajudar as pessoas a sentirem-se menos sós? Os investigadores analisaram dados de inquéritos de mais de 2.500 pessoas que vivem perto do lago Mjøsa.

Os resultados indicam que as atividades quotidianas na natureza podem influenciar o bem-estar emocional.

«A conclusão é que as atividades ao ar livre em ambientes naturais têm, em grande medida, um efeito protetor contra a solidão», afirmou Sindre Johan Cottis Hoff, investigador de doutoramento da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia.

A solidão tem duas formas

A solidão não se resume ao isolamento físico. Uma pessoa pode estar rodeada de outras e, ainda assim, sentir-se desligada.

Os investigadores distinguem habitualmente dois tipos. A solidão social resulta da falta de uma rede mais ampla ou de uma comunidade. Já a solidão emocional está associada à ausência de laços próximos e significativos.

Esta diferença é importante, porque nem todas as soluções funcionam da mesma forma. Eventos sociais ou atividades de grupo podem ajudar algumas pessoas, mas nem sempre resolvem lacunas emocionais mais profundas.

De facto, investigações anteriores mostram que aumentar simplesmente a interação social não reduz a solidão de forma fiável.

É aqui que entram os ambientes naturais. Parques, lagos e florestas são frequentemente associados a uma melhor saúde mental. Mas porquê? A resposta pode não estar nas pessoas que encontramos nesses locais, mas na forma como nos relacionamos com o próprio lugar.

A natureza cria uma ligação mais profunda

O estudo salienta duas ideias fundamentais. A primeira é a ligação à natureza, ou seja, a sensação de fazer parte do mundo natural. Não se trata apenas de visitar espaços naturais, mas de sentir uma ligação a eles.

A segunda é o apego ao lugar. Este conceito traduz os vínculos emocionais com um local específico. Um lago, um trilho ou até um parque habitual podem ganhar significado ao longo do tempo.

Ambas as formas de ligação parecem reduzir a solidão, embora atuem de modos distintos. A ligação à natureza está relacionada tanto com a solidão emocional como com a solidão social.

O apego ao lugar relaciona-se sobretudo com a solidão social, em especial quando esse espaço também funciona como um ponto de encontro da comunidade.

Atividades na natureza reduzem a solidão

«Reforçar o sentimento de pertença, não apenas a outras pessoas, mas também aos ambientes naturais e ao meio envolvente, parece ter um efeito protetor contra a solidão», disse Hoff.

Isto sugere que o sentimento de pertença não tem de resultar apenas da convivência com outras pessoas. Também pode nascer do mundo que nos rodeia.

Os investigadores analisaram atividades comuns junto ao lago Mjøsa, como caminhar, andar de barco, pescar e simplesmente passar tempo à beira da água. Estas atividades estavam associadas a níveis mais baixos de solidão, mas não de forma direta.

Em vez disso, o efeito ocorria através da ligação à natureza e do apego ao lugar. Em termos simples, as pessoas sentiam menos solidão quando essas atividades as ajudavam a sentirem-se ligadas à natureza ou ao local.

Prestar atenção à natureza

Curiosamente, as atividades não tiveram todas o mesmo impacto. Atividades calmas e contemplativas, como caminhar ou apreciar a vista, revelaram associações mais fortes com a ligação à natureza.

Já as atividades mais orientadas para um objetivo, como fazer exercício, apresentaram ligações mais fracas.

Este padrão sugere que a forma como interagimos com a natureza é mais importante do que a frequência com que a visitamos. Prestar atenção, reparar nos pormenores e valorizar o que nos rodeia parecem tornar a experiência mais profunda.

«Quando se vê como parte da natureza, cria um sentimento de pertença a uma comunidade», explicou Hoff.

«Muitas pessoas defenderam anteriormente que a solidão está relacionada apenas com o contacto humano e as comunidades humanas, mas nos últimos anos vários estudos mostraram que o apego aos lugares e aos ambientes naturais também tem um efeito marcante.»

O poder da solitude

Uma das conclusões mais marcantes contraria uma ideia comum. As atividades realizadas a sós mostraram benefícios mais fortes na redução da solidão.

À primeira vista, isto pode parecer contraditório. Contudo, solitude não é o mesmo que solidão. Quando passam tempo sozinhas na natureza, as pessoas tendem a refletir de forma mais profunda.

Essa reflexão pode reforçar o seu sentimento de ligação ao ambiente.

Por sua vez, essa ligação pode diminuir as sensações de isolamento. Por outras palavras, estar sozinho no contexto certo pode ajudar as pessoas a sentirem-se menos sós no geral.

Ainda assim, o equilíbrio continua a ser importante. O isolamento excessivo pode continuar a ser prejudicial. O benefício resulta da solitude escolhida, não da separação imposta.

A natureza oferece novas soluções

Estas conclusões mudam a forma como pensamos sobre a solidão. O foco habitual tem sido aumentar o contacto social. Embora isso continue a ser importante, pode não ser suficiente.

As experiências baseadas na natureza oferecem uma via alternativa. Podem ajudar as pessoas a sentirem-se parte de algo maior, mesmo sem interação direta com outras pessoas.

«A solidão e a sensação de não pertença são grandes desafios de saúde pública. Se os ambientes naturais forem destruídos ou se se tornarem menos acessíveis, isso poderá ter custos para a sociedade», afirmou Hoff.

As cidades devem integrar a natureza

Isto tem implicações práticas. O planeamento urbano pode incluir espaços verdes que convidem à reflexão tranquila. Os programas de saúde pública podem incentivar uma interação consciente com a natureza, e não apenas a prática de atividades ao ar livre.

Práticas simples, como reparar nos sons, observar padrões ou apreciar a paisagem, podem fazer a diferença.

«A maioria das pessoas consegue assumir a responsabilidade pelo seu próprio bem-estar, pensando “isto provavelmente faz-me bem”. Mas algumas podem precisar de alguma ajuda para se ajudarem a si próprias», acrescentou Hoff.

«Além disso, as autoridades municipais devem ter em conta, no seu planeamento, a necessidade de garantir que os residentes têm acesso a áreas naturais.»

Uma nova perspetiva sobre a solidão

A solidão é frequentemente tratada como um problema social. Esta investigação mostra que também é uma questão ambiental. O bem-estar humano depende não só das relações com os outros, mas também das relações com os lugares e os ecossistemas.

Uma caminhada junto a um lago, um momento de silêncio sob as árvores ou algum tempo a observar o movimento da água podem criar um sentimento de pertença que as palavras não conseguem captar por completo.

«Na Noruega, a natureza nunca está longe, mesmo no centro de uma cidade, embora seja frequente ouvir algum tipo de ruído urbano quando se visitam estas áreas naturais. Em muitos outros países, o acesso à natureza é muito mais limitado», observou Hoff.

A natureza não substitui a ligação humana. Mas acrescenta-lhe outra dimensão. E, num mundo em que a solidão está a aumentar, essa dimensão extra pode ser mais importante do que antes pensávamos.

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Inês Margarida Carvalho

Inês Margarida Carvalho é técnica superior de intervenção social, com experiência em desenvolvimento comunitário, envelhecimento ativo e apoio a famílias. Colabora com projetos ligados ao CSPSJ, dedicando-se à promoção da inclusão, do bem-estar social e da participação da comunidade.

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