Os híraxes-das-rochas, mais frequentemente conhecidos na África Austral por «dassies», são animais peludos e corpulentos, de patas curtas e sem cauda visível. Passam grande parte do tempo a apanhar sol em afloramentos rochosos.
Por vezes, também arrastam o traseiro pelo chão.
Os donos de cães sabem que este comportamento pode indiciar infeções parasitárias. Nos híraxes, a razão parece ser menos evidente, mas esta ação deixa marcas características em zonas arenosas.
São precisamente vestígios e pegadas - antigos e fossilizados - que estudamos no Centro Africano de Paleociência Costeira, através do projeto de icnologia da costa sul do Cabo.
Nas últimas décadas, identificámos quase 400 jazidas de pegadas de vertebrados nesta costa, algumas com até 400.000 anos, preservadas em dunas cimentadas denominadas eolianitos, do Pleistocénico. Esta época decorreu entre há cerca de 2,58 milhões de anos e há aproximadamente 11.700 anos.
Estamos a construir uma imagem do ambiente desse período e das formas como os animais e as plantas então existentes viviam.
Entre as descobertas mais recentes encontram-se dois vestígios fossilizados que parecem ter sido deixados por híraxes-das-rochas há muito tempo. Um é uma jazida de pegadas; o outro consiste numa impressão de arrastamento do traseiro que poderá conter um excremento fossilizado.
A provável jazida de pegadas foi-nos indicada por um dedicado rastreador, Mike Fabricius, num local próximo de Walker Bay, na costa sul do Cabo. Tem cerca de 76.000 anos. A provável impressão de arrastamento do traseiro foi descoberta a leste de Still Bay, na mesma costa, e terá, muito provavelmente, cerca de 126.000 anos.
A impressão de arrastamento do traseiro é o primeiro fóssil deste tipo descrito em qualquer parte do mundo. Além disso, estas são as únicas possíveis pegadas fossilizadas de hírax alguma vez identificadas. No campo da paleontologia, algo tão invulgar é importante, e sentimo-nos privilegiados por podermos interpretá-lo.
Como interpretar a marca de arrastamento
A datação dos nossos locais foi realizada através de uma técnica chamada luminescência opticamente estimulada, que determina a última vez que materiais como a areia estiveram expostos à luz.
A impressão de arrastamento do traseiro mede 95 cm de comprimento e 13 cm de largura. Contém cinco estrias paralelas.
As margens exteriores estão ligeiramente elevadas e, no seu interior, existe uma estrutura saliente com 2 cm de altura, medindo 10 cm por 9 cm. É evidente que algo foi arrastado sobre a superfície quando esta era constituída por areia solta.
Considerámos explicações possíveis que não envolvessem o traseiro de um hírax. Entre elas, estavam um leopardo ou um humano ancestral a arrastar uma presa, ou talvez um elefante a arrastar a tromba.
Contudo, em primeiro lugar, seria de esperar que estas hipóteses deixassem pegadas. Em segundo, nenhuma delas explicaria a estrutura elevada.
Se, porém, se tratasse de um hírax, a interpretação faria sentido: o vestígio do traseiro teria sido produzido depois das pegadas e apagá-las-ia. A estrutura elevada poderia ser um coprólito, isto é, uma massa fundida e fossilizada de excrementos de hírax.
Depósitos de excrementos e urina de híraxes-das-rochas
Os híraxes-das-rochas deixam muito mais do que pegadas e marcas de arrastamento do traseiro. Como preferem zonas rochosas, as suas pegadas raramente são encontradas, mas estes animais polem as superfícies das rochas até lhes darem um acabamento brilhante.
Isto assemelha-se ao que fazem os búfalos nas pradarias da América do Norte, criando «pedras de fricção de búfalos».
Os híraxes também deixam depósitos de urina e excrementos. A ureia e os eletrólitos encontram-se concentrados na urina, e estes animais excretam grandes quantidades de carbonato de cálcio. O material cimenta-se e forma extensos depósitos esbranquiçados nas superfícies rochosas.
Devido aos seus hábitos comunitários, os híraxes urinam frequentemente nos mesmos locais preferidos ao longo de várias gerações.
A urina e os excrementos misturam-se muitas vezes, formando uma substância conhecida como hiraceu - uma massa semelhante a rocha que pode acumular-se em depósitos extensos, escuros e pegajosos. O hiraceu tem sido utilizado na medicina tradicional para tratar vários problemas de saúde, incluindo a epilepsia, e para fins ginecológicos.
O hiraceu pode ter dezenas de milhares de anos e deve ser considerado um recurso ameaçado e não renovável. Estes montículos, sensíveis às alterações ambientais e contendo pólen fóssil e outras evidências de vida antiga, constituem valiosos arquivos naturais para interpretar climas, vegetação e ecologia do passado.
Considerar o hiraceu como um icnofóssil - algo que, aparentemente, ainda não tinha sido feito - pode contribuir para proteger este recurso subvalorizado.
Urólitos, coprólitos e arquivos naturais do Pleistocénico
Embora a urina fossilizada seja pouco comum à escala mundial, existe uma palavra para a designar: «urólito», para a distinguir de «coprólito» (excremento fossilizado). Ao que tudo indica, os híraxes representam a maior parte dos urólitos do mundo.
Em conferências de paleontologia, é possível ver estudantes com T-shirts que proclamam sem pudor: «os coprólitos acontecem». Na África Austral, talvez a expressão mais apropriada fosse «os urólitos acontecem».
Ao reconhecermos a importância das impressões de arrastamento do traseiro, dos urólitos, dos coprólitos e do hiraceu, e ao aprendermos mais sobre o ambiente dos híraxes-das-rochas e de outros animais no Pleistocénico, nunca mais veremos estas criaturas cativantes da mesma forma.
Mathilde Stuart contribuiu para esta investigação.
Charles Helm, investigador associado, Centro Africano de Paleociência Costeira, Universidade Nelson Mandela, e Lynne Quick, investigadora sénior, Universidade Nelson Mandela
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.






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