Saltar para o conteúdo

Menopausa e cérebro: o que acontece à matéria cinzenta

Mulher sentada a escrever num caderno à mesa, com chá quente, óculos e livros à sua volta.
Neste artigo
  1. Uma transformação cerebral diferente das observadas noutras fases da vida
  2. O volume global do córtex mantém-se estável
  3. O hipocampo merece atenção, mas com cautela
  4. O nevoeiro mental não é imaginário
  5. Limitações que justificam novas investigações

As alterações de memória causam frequentemente preocupação por volta dos 50 anos. Uma análise cerebral alargada lança uma luz mais tranquilizadora sobre esta fase.

A transição para o fim da menstruação pode trazer dificuldades de concentração, esquecimentos ou uma sensação de cansaço intelectual. São manifestações reais, com possível impacto no dia a dia. Ainda assim, não significam necessariamente uma deterioração acelerada do cérebro, segundo um estudo recente publicado na revista Nature Communications.

Uma transformação cerebral diferente das observadas noutras fases da vida

Há vários anos que os investigadores sabem que grandes alterações hormonais podem modificar a organização do cérebro. Tanto na adolescência como durante a gravidez, exames de imagem revelaram uma redução acentuada do volume de matéria cinzenta em determinadas áreas do córtex.

Esta redução não é entendida como uma destruição cerebral. Corresponde antes a um processo de seleção: as ligações menos utilizadas diminuem, enquanto as redes mais solicitadas se tornam mais eficientes. Os especialistas chamam-lhe poda sináptica.

Pensava-se que o período anterior e posterior ao fim definitivo da menstruação seguiria a mesma lógica. A descida gradual das hormonas sexuais, em especial dos estrogénios, sustentou essa hipótese durante muito tempo. Porém, os dados recolhidos por uma equipa internacional liderada a partir do centro médico universitário de Amesterdão apontam noutro sentido.

As análises de todo o córtex não revelam uma redução global acelerada da matéria cinzenta durante esta transição hormonal.

O volume global do córtex mantém-se estável

Os investigadores compararam exames de ressonância magnética de mulheres antes, durante e depois desta transição. Em vez de se concentrarem numa pequena região cerebral, analisaram o córtex na sua totalidade: a camada externa e pregueada do cérebro.

Esta área desempenha um papel importante em diversas funções, incluindo a interpretação de informação sensorial, a linguagem, o raciocínio, o controlo dos movimentos, a atenção e a memória. O seu volume altera-se naturalmente com a idade, tanto nas mulheres como nos homens. Contudo, o estudo não identificou uma mudança abrupta específica da transição hormonal feminina.

Isto não quer dizer que o cérebro permaneça inalterado. Os resultados sugerem uma adaptação mais subtil, sem uma perda maciça e generalizada de tecido cortical. Assim, a fase em torno dos 50 anos poderá representar um período de reorganização, e não um colapso estrutural.

O que o volume de matéria cinzenta mede realmente

A matéria cinzenta não é constituída apenas por neurónios. Inclui os seus corpos celulares, parte dos seus prolongamentos e vários tipos de células de suporte. O respetivo volume é um indicador útil, mas, por si só, não mede todas as capacidades intelectuais de uma pessoa.

O volume do cérebro pode manter-se estável mesmo quando há alterações no sono, no humor, na rapidez de processamento da informação ou na atenção. Por outro lado, uma mudança de volume numa região específica não determina automaticamente o aparecimento de uma perturbação visível no quotidiano.

  • O volume cerebral informa sobre a estrutura, mas não explica cada sensação sentida no dia a dia.
  • As hormonas podem influenciar a atividade das redes neuronais sem causar uma redução global do córtex.
  • O sono, o stress, os afrontamentos e a ansiedade podem intensificar as dificuldades cognitivas sentidas.
  • As diferenças entre pessoas continuam a ser consideráveis, consoante a saúde, a idade e o estilo de vida.

O hipocampo merece atenção, mas com cautela

Os resultados não contrariam por completo os estudos anteriores. Várias investigações identificaram alterações no hipocampo, uma pequena estrutura situada nas profundezas do cérebro, que participa, nomeadamente, na formação de novas memórias e na orientação espacial.

A distinção está na escala da análise. Uma alteração localizada no hipocampo não equivale a uma diminuição de toda a matéria cinzenta cortical. Os autores recomendam, por isso, que não se confunda uma evolução regional com um declínio geral do cérebro.

Podem ocorrer flutuações em algumas estruturas profundas sem que o córtex, no seu conjunto, perca rapidamente a sua integridade.

Estas variações locais poderão estar relacionadas com mecanismos metabólicos, com o estado do sono, com a atividade física ou com a saúde cardiovascular. Os investigadores não as consideram prova de uma deterioração inevitável. Salientam, sobretudo, a necessidade de acompanhar as participantes durante vários anos.

O nevoeiro mental não é imaginário

Muitas mulheres relatam que o pensamento se torna menos fluido nesta fase: uma palavra que não surge, uma lista de compras esquecida, maior dificuldade em acompanhar uma reunião ou a necessidade de reler uma mensagem várias vezes. Este fenómeno é frequentemente designado por «nevoeiro mental».

O estudo convida a olhar para estes sintomas de outra forma. Podem refletir um ajustamento temporário do funcionamento cerebral, sem indicar uma lesão duradoura. As oscilações hormonais podem influenciar os mensageiros químicos do cérebro, em particular os que intervêm na atenção, no humor e na regulação do sono.

Isso não significa que as queixas devam ser desvalorizadas. Se se tornarem muito perturbadoras ou forem acompanhadas de tristeza persistente, ansiedade intensa ou perda de autonomia, uma avaliação médica permite investigar outras causas possíveis, como uma perturbação da tiroide, défice de ferro ou de vitamina B12, depressão, apneia do sono ou efeitos indesejáveis de um tratamento.

Limitações que justificam novas investigações

Esta investigação tem limitações. A classificação das participantes baseou-se, entre outros aspetos, nas informações que forneceram sobre o ciclo menstrual e a situação hormonal. Os investigadores nem sempre dispunham de análises sanguíneas realizadas no dia dos exames.

Os resultados revelam uma tendência ao nível do grupo, mas não permitem prever o percurso individual de cada mulher. Serão necessários estudos de longa duração para clarificar a influência da idade, dos tratamentos hormonais, dos antecedentes clínicos e das condições de vida.

Medidas concretas para apoiar as funções cognitivas

A plasticidade cerebral é a capacidade de o cérebro ajustar as suas ligações e formas de funcionamento, e mantém-se ao longo de toda a vida. Esta fase pode, assim, ser também uma oportunidade para reforçar hábitos que favorecem a concentração e a memória.

  • Proteger o sono, procurando tratar os despertares noturnos e os afrontamentos quando se tornam demasiado frequentes.
  • Praticar atividade física regularmente, mesmo que moderada, pois favorece a saúde dos vasos sanguíneos e a oxigenação do cérebro.
  • Manter o convívio social e atividades estimulantes, como aprender, ler ou praticar atividades artísticas.
  • Avaliar a pressão arterial, o colesterol e a glicemia, fatores estreitamente associados à saúde cerebral.

A abordagem dos sintomas deve continuar a ser individualizada. Algumas mulheres beneficiarão sobretudo de medidas dirigidas ao sono ou ao stress. Outras poderão discutir com o médico as opções disponíveis para as manifestações mais incómodas. Os novos dados permitem, pelo menos, afastar uma ideia preocupante: esta transição biológica não parece causar, por si só, uma perda maciça de matéria cinzenta no córtex.

Neste momento

Inês Margarida Carvalho

Inês Margarida Carvalho é técnica superior de intervenção social, com experiência em desenvolvimento comunitário, envelhecimento ativo e apoio a famílias. Colabora com projetos ligados ao CSPSJ, dedicando-se à promoção da inclusão, do bem-estar social e da participação da comunidade.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário