Imagine que tem 50 anos e vê a sua idade biológica descer para 45. Segundo o teste, estaria cinco anos mais jovem.
Agora, imagine que esse resultado vinha acompanhado de músculos mais fortes, maior facilidade de movimentos e uma memória mais apurada. Seria uma prenda de aniversário e tanto.
Estabelecer uma ligação entre esses dois aspetos - um resultado mais jovem no teste e um corpo que funciona melhor - é um desafio que os investigadores do envelhecimento procuram resolver. À medida que os tratamentos dirigidos ao envelhecimento avançam para estudos em humanos, definir o que conta como sucesso torna-se uma questão cada vez mais prática.
Num comentário publicado na Cell Metabolism, investigadores entre os quais Jesse Poganik e Vadim Gladyshev, da Faculdade de Medicina de Harvard, analisam como reconhecer uma reversão convincente da idade biológica.
A proposta combina medições das alterações no interior do organismo com avaliações das suas capacidades. Os investigadores também querem saber se as melhorias se mantêm depois do tratamento.
O que mede um teste de idade biológica?
Para quem espera festejar um resultado mais jovem, coloca-se uma pergunta intrigante: o que mediu exatamente o teste?
A data de nascimento determina a idade cronológica. Já os testes que estimam a idade biológica analisam características do organismo que se alteram à medida que as pessoas envelhecem.
Poganik explicou à ScienceAlert que, quando se usa uma medida molecular bem validada, uma descida na pontuação significa que as características avaliadas se aproximaram de padrões associados a pessoas mais jovens.
«Pode ser correto dizer que “a idade biológica avaliada por este biomarcador foi revertida o equivalente a cinco anos”», disse à ScienceAlert.
Uma avaliação mais abrangente tornaria essa conclusão mais convincente. Mas afirmar que o próprio envelhecimento foi revertido é ir mais longe.
«O envelhecimento, enquanto processo, é unidirecional e não pode ser totalmente revertido, tal como o tempo», afirmou Poganik.
A diferença é simples: percorrer uma estrada mais devagar não significa que se tenha regressado pelo caminho. Envelhecer mais lentamente e tornar-se mais jovem são resultados distintos.
Há também uma diferença entre estudar grupos e interpretar o relatório de uma pessoa. Estas ferramentas são desenvolvidas e validadas em populações; a sua utilidade para cada indivíduo ainda está a ser estabelecida.
«Assim, embora sejam excelentes ferramentas de investigação, ainda temos algum caminho a percorrer antes de podermos ter confiança na sua utilidade quando aplicadas a indivíduos», disse.
Mesmo num ensaio controlado, os resultados podem variar consoante a medida de envelhecimento escolhida pelos investigadores.
No estudo CALERIE, os adultos foram distribuídos aleatoriamente por dois grupos: um reduziu a ingestão de calorias e o outro continuou a alimentar-se como habitualmente durante dois anos. Uma análise de amostras de sangue, realizada em 2023, detetou uma pequena desaceleração do ritmo estimado de envelhecimento através de uma ferramenta chamada DunedinPACE.
Duas outras medidas, PhenoAge e GrimAge, não detetaram qualquer alteração significativa na idade biológica estimada relacionada com o tratamento.
Ainda assim, Poganik considera estes ensaios de grande dimensão entusiasmantes. Ao medir os resultados de saúde juntamente com os marcadores de envelhecimento, os investigadores podem explorar o que significa, na prática, uma alteração na pontuação.
Medições moleculares e capacidade funcional
A questão regressa, assim, aos músculos, à memória e às capacidades do dia a dia.
Pense-se numa pessoa cujas medições moleculares apontam para uma idade biológica mais avançada, mas que mantém intactas a força de preensão, a audição e a mobilidade. Os investigadores que dão prioridade à capacidade funcional questionariam se essa pessoa deve ser considerada biologicamente mais velha.
Quem privilegia as medições moleculares vê outra oportunidade: detetar alterações antes de essas capacidades diminuírem, quando poderá haver mais tempo para intervir.
Ambas as abordagens têm limitações. O treino pode melhorar uma capacidade física específica sem alterar necessariamente os processos de envelhecimento subjacentes. Por seu lado, os testes moleculares não refletem de forma consistente as alterações que os investigadores poderiam esperar do exercício.
Por agora, os autores defendem que se avaliem ambas.
Como confirmar a reversão da idade biológica
O comentário aponta a XPRIZE Healthspan como um exemplo concreto de avaliação do rejuvenescimento através das funções muscular, cognitiva e imunitária. Poganik inclui também esta competição entre as iniciativas cujos resultados futuros o entusiasmam.
Para ser convincente, um resultado terá igualmente de resistir a testes repetidos. Poganik apresenta três verificações práticas.
«Foi usada a mesma medição antes e depois da intervenção? A alteração manteve-se depois de terminada a intervenção? E foi reproduzida com uma abordagem ortogonal?»
Estas verificações podem ajudar a distinguir uma alteração duradoura de flutuações enganadoras. Uma primeira medição invulgarmente elevada, por exemplo, pode ser seguida de um resultado mais próximo do nível habitual da pessoa sem que tenha ocorrido qualquer rejuvenescimento.
O artigo identifica este efeito estatístico, denominado regressão à média, como uma das explicações que os investigadores devem excluir.
A esperança é que diferentes medições comecem a mostrar um quadro coerente: padrões moleculares mais jovens acompanhados de melhorias duradouras no funcionamento do organismo.
Imagine, então, novamente o relatório de idade biológica com o número «45». Ao lado desse resultado, imagine provas de que consegue mover-se com mais facilidade, pensar com maior clareza e manter esses ganhos.
Isso dar-lhe-ia muito mais do que um número para celebrar.
O comentário foi publicado na Cell Metabolism.
Este artigo foi sujeito a verificação factual e editado por Michael Irving. Embora nos orgulhemos do nosso processo, somos apenas humanos. Se detetar algum erro, avise-nos.






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