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Hermione: robô militar francês a hidrogénio em testes com o Exército francês

Soldado em uniforme militar camuflado com caixas e robô terrestre em campo aberto durante treino.
Neste artigo
  1. Uma revolução silenciosa num campo de treino na Bretanha
  2. Uma «mula robótica» modular para unidades na linha da frente
  3. Características técnicas pensadas para campos de batalha reais
  4. Uma geração de robôs de combate fabricada na Europa
  5. A caminho de unidades de combate orientadas por inteligência artificial
  6. Hidrogénio, riscos e potencial no campo de batalha do futuro

Longe das manchetes, o Exército francês começou a testar no terreno um robô terrestre a hidrogénio, concebido para se deslocar durante quase um dia inteiro sem reabastecer, transportar cargas pesadas e integrar futuras unidades de combate comandadas por inteligência artificial.

Uma revolução silenciosa num campo de treino na Bretanha

O protótipo, batizado «Hermione», está em ensaios na academia militar de Saint-Cyr Coëtquidan, na Bretanha, desde meados de janeiro de 2026. Os testes integram um esforço mais vasto, o programa Pendragon, que pretende criar até 2027 a primeira unidade de combate do Exército francês coordenada por inteligência artificial.

O Hermione foi concebido como um drone terrestre elétrico a hidrogénio, capaz de operar durante até 20 horas quase em silêncio, em terrenos acidentados e com várias centenas de quilos de equipamento a bordo.

O projeto resulta de uma parceria entre a empresa francesa H2X-Défense e a polaca P.H.U. Lechmar. Para França, esta combinação industrial europeia tem interesse estratégico: mantém a tecnologia sensível dentro do continente e dá às pequenas empresas de defesa a oportunidade de demonstrar que conseguem produzir sistemas robustos e prontos a utilizar, e não apenas desenhos conceptuais.

Uma «mula robótica» modular para unidades na linha da frente

O Hermione é, acima de tudo, uma máquina de trabalho. A sua plataforma modular permite adaptá-lo a diferentes missões, mantendo o mesmo chassis e sistema de propulsão.

Na prática, o Exército identifica pelo menos três funções principais:

  • Transporte logístico: levar munições, água, combustível, peças sobresselentes ou material médico a pequenas unidades dispersas por uma área extensa.
  • Plataforma de reconhecimento: transportar sensores, câmaras e equipamento de comunicação para explorar o terreno à frente das patrulhas de infantaria.
  • Apoio armado: receber uma estação de armas operada à distância para proteger bases ou escoltar colunas de veículos.

O modelo de base suporta cerca de 300 kg de carga útil. Segundo os parceiros do projeto, versões mais pesadas poderão atingir 600 kg e, numa configuração dedicada ao transporte de carga, chegar potencialmente a duas toneladas. Esse aumento permitiria à mesma família de robôs servir tanto a infantaria ligeira como formações mecanizadas mais pesadas.

Ao apostar numa plataforma central única, equipada com conjuntos para diferentes missões, o Exército francês espera reduzir os custos de manutenção e simplificar a formação das equipas.

Características técnicas pensadas para campos de batalha reais

Ao contrário de muitos conceitos elegantes de «guerra do futuro», o Hermione tem dimensões e equipamentos adequados a caminhos enlameados, e não a feiras tecnológicas. Mede aproximadamente 3,3 metros de comprimento, 1,85 metros de largura e 1,4 metros de altura. Desloca-se sobre quatro rodas motrizes, cada uma acionada por um motor elétrico de 8 kW. Esta arquitetura de tração integral fornece o binário necessário para enfrentar declives acentuados e solos pouco firmes.

A velocidade máxima ronda os 39 km/h, suficiente para acompanhar militares a pé, seguir veículos blindados a baixa velocidade ou patrulhar perímetros. Sem carga, o robô pesa cerca de 700 kg e tem 30 cm de distância ao solo, o que o ajuda a ultrapassar pedras, trincheiras e destroços sem ficar preso.

Hidrogénio e baterias para missões longas e silenciosas

A característica mais marcante está no interior: um sistema energético híbrido que combina uma pilha de combustível a hidrogénio com um conjunto de baterias de iões de lítio de 25 kWh. A pilha produz eletricidade a partir de hidrogénio comprimido, enquanto a bateria atenua os picos de consumo e armazena energia para esforços breves.

Esta configuração permite ao Hermione funcionar continuamente durante até 20 horas, consoante a carga e o terreno, com assinaturas acústica e térmica muito reduzidas. O reabastecimento demora cerca de três minutos e é feito através da substituição ou do enchimento das garrafas de hidrogénio, uma operação possível no terreno.

Característica principal Capacidade do Hermione
Autonomia Até 20 horas de funcionamento
Tempo de reabastecimento Cerca de 3 minutos para os depósitos de hidrogénio
Carga útil do modelo de base ~300 kg, com versões mais pesadas previstas
Velocidade máxima ~39 km/h
Tração 4×4, com motor elétrico de 8 kW por roda

Um veículo silencioso e com grande autonomia pode acompanhar a infantaria, reabastecer unidades dispersas durante a noite ou vigiar uma área durante horas, com menos paragens do que um equivalente a gasóleo.

Criar um ecossistema de hidrogénio no campo de batalha

O Hermione não está a ser testado isoladamente. Nos ensaios, o robô é acompanhado por um gerador móvel de hidrogénio desenvolvido pela H2X-Défense, conhecido como G-15/050. O equipamento pode fornecer entre 20 e 40 kW de potência, o suficiente para carregar baterias, encher depósitos de hidrogénio e alimentar outros sistemas eletrónicos.

Em teoria, um único camião com gerador poderia sustentar durante dias um pequeno conjunto de robôs, drones aéreos e sensores terrestres, sem um fluxo constante de colunas de abastecimento de combustível. Este tipo de «microrrede» interessa aos exércitos preocupados com a exposição das suas linhas logísticas na Ucrânia e noutros conflitos recentes.

Uma geração de robôs de combate fabricada na Europa

O Hermione não é um projeto criado de raiz. Assenta diretamente numa iniciativa francesa anterior, denominada Weasel, lançada em 2022 no âmbito do programa de inovação Battle-Lab Terre. O Weasel já tinha experimentado a propulsão a hidrogénio combinada com baterias de lítio fornecidas pela empresa francesa TYVA Energie.

Essa primeira geração trouxe ensinamentos essenciais sobre a segurança do armazenamento, as rotinas de manutenção e a condução de sistemas a hidrogénio em condições reais. Os engenheiros incorporaram depois essas lições no Hermione, concebido para oferecer maior autonomia, melhor modularidade e uma integração mais estreita com sistemas digitais de comando e controlo.

Para os responsáveis europeus pelo planeamento da defesa, o Hermione mostra que as empresas locais conseguem produzir veículos terrestres não tripulados de qualidade sem depender de projetos norte-americanos ou israelitas.

A caminho de unidades de combate orientadas por inteligência artificial

O programa Pendragon não se limita aos veículos. A ideia central é criar unidades mistas nas quais pessoas, robôs e agentes de software partilhem tarefas. Nessa visão, o Hermione funcionaria como um elemento central de uma rede mais ampla de ferramentas de decisão, sensores e armas orientados por inteligência artificial.

A curto prazo, prevê-se que o robô continue sob supervisão humana, com um operador nas proximidades ou num posto de controlo remoto. A longo prazo, o Exército francês pretende que a plataforma execute mais funções de forma autónoma: planear percursos, evitar obstáculos, detetar ameaças básicas e até tomar decisões logísticas simples, como escolher qual a equipa a reabastecer primeiro.

O que muda no terreno

Se o conceito funcionar, uma companhia de infantaria típica poderá, em 2027, partir para uma missão com vários robôs Hermione atribuídos desde o primeiro dia. Durante a operação, estes poderão:

  • Acompanhar patrulhas a curta distância, transportando munições de reserva e equipamento médico.
  • Permanecer na retaguarda como centros móveis de alimentação para rádios, bloqueadores de sinal e câmaras de vigilância.
  • Assumir algumas das tarefas mais perigosas, como atravessar terreno aberto para entregar abastecimentos sob fogo.
  • Transmitir vídeo e dados dos sensores a um sistema de inteligência artificial que sugere percursos, assinala movimentos suspeitos e acompanha as posições das forças aliadas.

Os comandantes esperam que este apoio reduza o esforço físico das tropas, permita aos soldados concentrar-se na tomada de decisões em vez do transporte de equipamento e diminua o risco de baixas em funções expostas, como a condução de veículos em coluna.

Hidrogénio, riscos e potencial no campo de batalha do futuro

O hidrogénio tem a sua própria terminologia. Uma «pilha de combustível» é, essencialmente, um dispositivo que transforma hidrogénio e oxigénio em eletricidade e água, sem combustão. Ao contrário de um gerador convencional, não existe um motor ruidoso nem um tubo de escape quente, o que torna os veículos com pilha de combustível mais difíceis de detetar com microfones ou sensores de infravermelhos.

Ainda assim, os depósitos de hidrogénio comprimido exigem um manuseamento cuidadoso. Os responsáveis pelo planeamento militar têm de considerar a segurança contra incêndios, os danos provocados por estilhaços e a formação necessária para que as unidades na linha da frente trabalhem com gás sob pressão. As condições meteorológicas, as temperaturas extremas e os destroços no campo de batalha podem afetar os sistemas de armazenamento. Por isso, testar o Hermione em condições variadas é tão importante como os resultados de desempenho obtidos em laboratório.

Outra questão prende-se com a vulnerabilidade: um robô que transporta energia e equipamento torna-se um alvo apetecível. Os adversários poderão procurar bloquear as suas comunicações ou atingir os camiões geradores para desativar células robóticas inteiras. A cibersegurança, as ligações encriptadas e os modos de funcionamento alternativos em caso de falha das redes poderão ser tão decisivos como a potência do motor ou a espessura da blindagem.

Se os robôs a hidrogénio como o Hermione vierem a ser utilizados mais amplamente, a sua aplicação não se limitará ao combate. Plataformas semelhantes poderão apoiar equipas de resposta a catástrofes, levando energia e material médico a zonas inundadas ou contaminadas, ou ajudar patrulhas fronteiriças em regiões remotas onde os fornecimentos de combustível são raros. A mesma autonomia e o mesmo silêncio que atraem os militares podem ajudar os socorristas a manter operações prolongadas com menos interrupções.

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Inês Margarida Carvalho

Inês Margarida Carvalho é técnica superior de intervenção social, com experiência em desenvolvimento comunitário, envelhecimento ativo e apoio a famílias. Colabora com projetos ligados ao CSPSJ, dedicando-se à promoção da inclusão, do bem-estar social e da participação da comunidade.

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