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Fósseis do Canadá recuam a cronologia da vida animal em 10 milhões de anos

Homem a escavar fósseis numa rocha ao ar livre, com montanhas e caderno de campo ao lado.
Neste artigo
  1. Fósseis encontrados no Canadá
  2. Os animais mais estranhos que alguma vez existiram
  3. Um raro local de fósseis
  4. Organismos identificados no local
  5. Evidências de reprodução sexual
  6. O que realmente surpreendeu todos
  7. Recua a cronologia
  8. Onde começou a vida complexa

Durante três mil milhões de anos, quem observasse a vida na Terra não veria nada.

Não se tratava de nada no sentido de um espaço vazio - os oceanos estavam repletos de vida -, mas de nada visível, de nada que se deslocasse, de nada com um corpo. Havia apenas micróbios, por todo o lado, ocupados nas suas actividades microbianas invisíveis.

Depois, num intervalo que parece abrupto até à escala geológica, surgiram animais capazes de se mover, de se alimentar e, mais tarde, de se reproduzir sexualmente.

A forma como ocorreu esta transição - onde, quando e em que condições - continua a ser uma das grandes questões sem resposta da história da vida.

Fósseis encontrados no Canadá

Uma nova descoberta de fósseis numa cadeia montanhosa remota dos Territórios do Noroeste do Canadá acaba de aproximar os cientistas de uma resposta.

O estudo foi conduzido por investigadores do Museu Americano de História Natural e do Dartmouth College.

O local situa-se nas montanhas Mackenzie, em terras tradicionais dos Sahtú Dene e Métis, que autorizaram a equipa de investigação a aceder à área e prestaram orientação durante todo o trabalho.

Ali foram encontrados mais de 100 fósseis, incluindo seis grupos de organismos nunca antes identificados na América do Norte. Alguns são mais antigos do que qualquer exemplar do mesmo tipo anteriormente descoberto em qualquer parte do mundo.

Os animais mais estranhos que alguma vez existiram

Os organismos preservados neste local pertencem àquilo a que os cientistas chamam biota ediacarana. São criaturas de corpo mole que viviam no fundo do mar há mais de 500 milhões de anos.

É uma colecção extraordinária: discos achatados, frondes semelhantes a folhas, ovais estriados e aglomerados tubulares.

Alguns apresentam uma semelhança distante com animais actuais; outros não se parecem com nada que tenha existido antes ou depois deles.

Como estes animais viveram antes de a maioria dos organismos desenvolver partes duras, como conchas ou ossos, só poderiam conservar-se em circunstâncias excepcionais - com o sedimento, a química e o soterramento adequados.

Um raro local de fósseis

Os locais com fósseis do Ediacarano são raros. Ainda mais incomuns são aqueles que contêm mais de dez espécies distintas.

Este poderá revelar-se um dos mais importantes alguma vez encontrados, embora os investigadores mal tenham começado a explorar o seu potencial.

As camadas rochosas que guardam os fósseis estão cobertas por centenas de metros de rocha potencialmente rica em fósseis que ninguém examinou ainda.

O autor principal do estudo, Scott Evans, é curador assistente de paleontologia de invertebrados no Museu Americano de História Natural.

“Durante 3 mil milhões de anos, a vida na Terra foi dominada por micróbios. Depois, de repente, surgem estes estranhos animais marinhos, suficientemente grandes para serem vistos e capazes de comportamentos que hoje nos parecem familiares”, afirmou Evans.

Organismos identificados no local

Entre os organismos identificados pela primeira vez na América do Norte, alguns merecem particular destaque.

Dickinsonia é um dos animais ediacaranos mais reconhecíveis: achatado, oval, dividido por estrias internas e capaz de se deslocar pelo fundo marinho.

Kimberella tinha um pé musculado e alimentava-se raspando o fundo do mar, sendo amplamente considerado um parente distante dos moluscos. Mais importante ainda, poderá ser o mais antigo fóssil conhecido de um bilatério.

Isto significa que pertencia ao grupo de animais com uma frente e uma traseira distintas, uma parte superior e inferior, e simetria entre os lados esquerdo e direito. Actualmente, esse grupo representa mais de 99% de todas as espécies animais conhecidas, incluindo a nossa.

Evidências de reprodução sexual

Funisia é um organismo tubular que vivia em aglomerados e detém uma distinção especial: a mais antiga evidência de reprodução sexual no registo fóssil.

Acredita-se que os aglomerados se tenham formado por desova coordenada - organismos que libertavam simultaneamente espermatozoides e óvulos na água, tal como os corais fazem hoje.

A vida já tinha descoberto o sexo há mais de 560 milhões de anos.

E há ainda Eoandromeda, uma possível medusa-de-pente com oito braços em espiral, que parece saída de um desenho feito por uma criança a quem tivessem pedido para imaginar um alienígena.

O que realmente surpreendeu todos

Os próprios fósseis são notáveis, mas foi a sua cronologia que surpreendeu os paleontólogos.

Os cientistas dividem os fósseis ediacaranos em três grupos segundo a sua idade. A assembleia do Mar Branco - o grupo intermédio, que inclui animais como Dickinsonia e Kimberella - tinha sido anteriormente datada entre 559 e 550 milhões de anos.

Além disso, os exemplares só tinham sido encontrados na Europa, na Ásia e na Austrália - nunca na América do Norte.

Os fósseis canadianos pertencem ao grupo do Mar Branco. No entanto, parecem ter cerca de 567 milhões de anos, ou seja, entre 5 e 10 milhões de anos mais antigos do que quaisquer exemplares do Mar Branco encontrados em toda a Terra.

Recua a cronologia

Na prática, isto significa que a evidência mais antiga de movimento animal - Dickinsonia a deslocar-se pelo fundo marinho - e a evidência mais antiga de reprodução sexual - Funisia a desovar em aglomerados coordenados - passaram a ser entre 5 e 10 milhões de anos mais antigas.

O coautor do estudo Justin Strauss é professor associado de Ciências da Terra e Planetárias no Dartmouth College e explora esta região há cerca de 15 anos.

“Este novo local não só é muito diverso, como também se encontra numa parte da sucessão rochosa onde anteriormente não dispúnhamos de restos fósseis”, afirmou Strauss.

“É realmente entusiasmante. Tendo em conta o que sabemos sobre a geologia regional do noroeste do Canadá, existe um grande potencial para revermos a nossa compreensão da história da Terra no Ediacarano.”

Onde começou a vida complexa

Há ainda outra reviravolta: os fósseis foram descobertos em ambientes de águas mais profundas do que aqueles anteriormente associados aos animais da assembleia do Mar Branco.

Este pormenor é relevante porque reforça um conjunto crescente de evidências a favor de uma hipótese que, se estiver correcta, poderá inverter uma ideia há muito estabelecida sobre a evolução dos animais.

A visão convencional coloca o início da vida animal complexa em águas costeiras pouco profundas - quentes, iluminadas pelo Sol e ricas em nutrientes -, a partir das quais se teria espalhado.

Porém, estes fósseis, juntamente com outros semelhantes, indicam que as primeiras experiências de vida animal complexa poderão ter ocorrido no oceano profundo, em condições frias, estáveis e escuras, expandindo-se depois gradualmente para águas menos profundas ao longo de milhões de anos.

“Estes resultados sugerem um padrão no qual a inovação evolutiva começa em ambientes mais profundos e só mais tarde se espalha em direcção à costa”, afirmou Evans.

“Pensamos no oceano profundo como um lugar escuro e inóspito, mas é também relativamente estável, com poucas oscilações em factores como a temperatura e o oxigénio, essenciais para a maior parte da vida animal. Essa estabilidade poderá ter proporcionado oportunidades fundamentais para sustentar a vida animal inicial.”

Os fósseis serão, futuramente, alojados de forma permanente no Centro do Património do Norte Príncipe de Gales, em Yellowknife.

Crédito da imagem: Alex Boersma

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Inês Margarida Carvalho

Inês Margarida Carvalho é técnica superior de intervenção social, com experiência em desenvolvimento comunitário, envelhecimento ativo e apoio a famílias. Colabora com projetos ligados ao CSPSJ, dedicando-se à promoção da inclusão, do bem-estar social e da participação da comunidade.

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