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Depressão: o papel dos genes e dos fatores de stress

Jovem sentado à mesa com livro e caderno, segurando chá quente, pensativo junto à janela na cozinha.
Neste artigo
  1. Depressão reativa e depressão endógena
  2. O que investigámos e descobrimos
  3. Qual é o papel dos genes?
  4. O que significa o estudo para a depressão?

As experiências centrais da depressão - alterações na energia, na atividade, no pensamento e no humor - são descritas há mais de 10.000 anos. A palavra «depressão» é usada há cerca de 350 anos.

Apesar desta longa história, talvez seja surpreendente saber que os especialistas não estão de acordo quanto ao que é a depressão, à forma de a definir ou às suas causas.

Muitos especialistas concordam, porém, que a depressão não é uma só doença. Trata-se de uma vasta família de doenças, com causas e mecanismos diferentes, o que dificulta a escolha do melhor tratamento para cada pessoa.

Depressão reativa e depressão endógena

Uma estratégia consiste em procurar subtipos de depressão e avaliar se respondem melhor a diferentes tratamentos. Um exemplo é a distinção entre depressão «reativa» e depressão «endógena».

A depressão reativa, também entendida como depressão social ou psicológica, é apresentada como sendo desencadeada pela exposição a acontecimentos de vida causadores de stress. Uma agressão ou a perda de uma pessoa querida são exemplos de acontecimentos que podem provocar esta reação compreensível a um fator externo.

Já a depressão endógena, também entendida como depressão biológica ou genética, é atribuída a uma causa interna, como os genes ou a química cerebral.

Esta divisão em subtipos é aceite por muitos profissionais que trabalham na prática clínica em saúde mental. Talvez já tenha lido sobre ela na internet.

No entanto, consideramos que esta abordagem é demasiado simplista.

Embora os acontecimentos de vida causadores de stress e os genes possam, por si só, contribuir para a depressão, também interagem entre si, aumentando o risco de uma pessoa desenvolver a doença. Há ainda indícios de que a exposição a fatores de stress tem uma componente genética. Alguns genes influenciam aspetos como a personalidade, enquanto outros afetam a forma como interagimos com os ambientes que nos rodeiam.

O que investigámos e descobrimos

A nossa equipa procurou analisar o papel dos genes e dos fatores de stress para determinar se a classificação da depressão como reativa ou endógena era válida.

No Estudo Australiano sobre a Genética da Depressão, pessoas com depressão responderam a inquéritos sobre a sua exposição a acontecimentos de vida causadores de stress. Analisámos o ADN de amostras de saliva para calcular o risco genético de perturbações mentais.

A pergunta que colocámos era simples: será que o risco genético de depressão, perturbação bipolar, esquizofrenia, perturbação de hiperatividade e défice de atenção (PHDA), ansiedade e neuroticismo - um traço de personalidade - influencia a exposição a acontecimentos de vida causadores de stress que as pessoas relatam?

Talvez se pergunte por que razão calculámos o risco genético de perturbações mentais em pessoas que já tinham depressão. Todas as pessoas possuem variantes genéticas associadas a perturbações mentais, embora umas tenham mais do que outras. Mesmo quem já tem depressão pode apresentar um risco genético baixo para esta doença. Nesses casos, a depressão poderá ter-se desenvolvido a partir de uma combinação diferente de causas.

Analisámos o risco genético de outras perturbações, além da depressão, por duas razões. Em primeiro lugar, há uma sobreposição entre as variantes genéticas associadas à depressão e as que estão ligadas a outras perturbações mentais. Em segundo lugar, duas pessoas com depressão podem ter variantes genéticas completamente diferentes. Por isso, quisemos alargar a pesquisa a um espectro mais amplo de variantes genéticas associadas a perturbações mentais.

Se os subtipos de depressão reativa e endógena fossem válidos, seria de esperar que as pessoas cuja depressão tivesse uma componente genética menor - o grupo reativo - relatassem mais acontecimentos de vida causadores de stress. Seria também de esperar que aquelas com uma componente genética maior - o grupo endógeno - relatassem menos acontecimentos desse tipo.

Mas, depois de estudarmos mais de 14.000 pessoas com depressão, verificámos o contrário.

As pessoas com maior risco genético de depressão, ansiedade, PHDA ou esquizofrenia relataram ter estado expostas a mais fatores de stress.

Agressões com arma, agressões sexuais, acidentes, problemas legais e financeiros, bem como maus-tratos e negligência na infância, foram mais comuns entre pessoas com maior risco genético de depressão, ansiedade, PHDA ou esquizofrenia.

A idade, o sexo e as relações familiares das pessoas não influenciaram fortemente estas associações. Não analisámos outros fatores que as poderiam influenciar, como a situação socioeconómica. Além disso, dependemos da memória das pessoas sobre acontecimentos passados, que pode não ser exata.

Qual é o papel dos genes?

O risco genético de perturbações mentais altera a sensibilidade das pessoas ao ambiente.

Imagine duas pessoas: uma com risco genético elevado de depressão e outra com risco baixo. Ambas perdem o emprego. A pessoa geneticamente vulnerável sente a perda como uma ameaça ao seu valor pessoal e à sua posição social. Sente vergonha e desespero e não consegue procurar outro emprego, com receio de também o perder. Para a outra pessoa, a perda parece estar menos relacionada consigo e mais com a empresa. As duas interiorizam o acontecimento de modo diferente e recordam-no de forma diferente.

O risco genético de perturbações mentais também pode aumentar a probabilidade de as pessoas se encontrarem em ambientes onde acontecem coisas más. Por exemplo, um risco genético mais elevado de depressão pode afetar a autoestima, tornando mais provável que uma pessoa entre em relações disfuncionais que acabam por correr mal.

O que significa o estudo para a depressão?

Em primeiro lugar, o estudo confirma que os genes e os ambientes não são independentes. Os genes influenciam os ambientes em que acabamos por nos encontrar e o que acontece depois. Influenciam também a forma como reagimos a esses acontecimentos.

Em segundo lugar, o nosso estudo não apoia a distinção entre depressão reativa e endógena. A interação entre genes e ambientes é complexa, e a maioria dos casos de depressão resulta de uma combinação de genética, biologia e fatores de stress.

Em terceiro lugar, as pessoas com depressão cuja doença parece ter uma componente genética mais forte relatam que as suas vidas são marcadas por fatores de stress mais graves.

Assim, na prática clínica, as pessoas com maior vulnerabilidade genética poderão beneficiar da aprendizagem de técnicas específicas para gerir o stress. Isso poderá ajudar algumas a reduzir, desde logo, a probabilidade de desenvolverem depressão. Poderá também ajudar algumas pessoas com depressão a reduzir a sua exposição continuada a fatores de stress.


Se este artigo lhe trouxe preocupações, ou se está preocupado com alguém que conhece, contacte a Lifeline através do número 13 11 14.

Jacob Crouse, investigador em saúde mental dos jovens, Centro do Cérebro e da Mente, Universidade de Sydney, e Ian Hickie, codiretor da área de Saúde e Políticas, Centro do Cérebro e da Mente, Universidade de Sydney.

Este artigo foi republicado a partir de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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Inês Margarida Carvalho

Inês Margarida Carvalho é técnica superior de intervenção social, com experiência em desenvolvimento comunitário, envelhecimento ativo e apoio a famílias. Colabora com projetos ligados ao CSPSJ, dedicando-se à promoção da inclusão, do bem-estar social e da participação da comunidade.

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