A forma como os neandertais desapareceram enquanto os humanos sobreviveram continua a ser uma das maiores questões da história da nossa espécie. Há muito que os investigadores ponderam se os nossos parentes extintos mais próximos poderão ter sucumbido a infecções virais que ainda hoje afectam os humanos modernos.
Essa teoria, com poucas provas e proposta pela primeira vez em 2010, tornou-se um pouco mais credível após a identificação de ADN antigo de três vírus em ossos de neandertais com 50 000 anos, encontrados na gruta de Chagyrskaya, na Rússia.
Anteriormente, os cientistas tinham sugerido que as doenças infecciosas poderiam ter contribuído para o desaparecimento dos neandertais, com base em indícios presentes nos genomas de vírus e bactérias sobre quando esses agentes patogénicos infectaram os humanos pela primeira vez. A infecção teria ocorrido há tempo suficiente para que os humanos transportassem agentes patogénicos de África e os transmitissem aos neandertais na Europa.
Noutras abordagens, os investigadores recorreram a modelos matemáticos para simular a disseminação de doenças entre o Homo sapiens e os neandertais (H. neanderthalensis), bem como as diferenças na respectiva imunidade.
No entanto, tem faltado evidência mais directa de que os neandertais eram infectados por agentes patogénicos que actualmente provocam doenças comuns, mas que poderão ter sido fatais para os nossos parentes. O ADN antigo é extremamente difícil de recolher e sequenciar, pois encontra-se fragmentado após resistir a milhares de anos.
ADN viral antigo em restos de neandertais
“Para sustentar [esta] hipótese provocadora e interessante, seria necessário provar que pelo menos os genomas destes vírus podem ser encontrados em restos de neandertais”, disse Marcelo Briones, biólogo molecular e autor sénior do novo estudo, a James Woodford, da New Scientist. “Foi isso que fizemos.”
Briones, a geneticista evolutiva Renata Ferreira, da Universidade Federal de São Paulo, no Brasil, e os seus colegas analisaram ADN retirado dos esqueletos de dois neandertais masculinos.
Entre o genoma neandertal, a equipa identificou fragmentos de ADN semelhantes aos de três vírus modernos: o adenovírus, que hoje provoca constipações comuns; o herpesvírus, responsável por herpes labial; e o papilomavírus, transmitido sexualmente e causador de verrugas genitais.
Nos humanos modernos, estes vírus podem provocar infecções persistentes ou mesmo vitalícias, nas quais o vírus evita o sistema imunitário e permanece inactivo durante anos ou décadas. Por isso, é possível que também tenham persistido nos neandertais, embora ainda não se saiba se essas infecções se manifestavam como males ligeiros ou algo mais grave.
O estudo demonstra que é possível localizar e extrair vestígios de ADN viral em restos de hominíneos antigos. Antes deste trabalho, o ADN viral mais antigo conhecido era o de um herpesvírus com 31 000 anos, detectado em dentes de H. sapiens escavados na Sibéria.
Vírus e outras explicações para o desaparecimento dos neandertais
Ainda assim, a equipa salienta que as conclusões são preliminares: os fragmentos revelam apenas a “possível presença” de vestígios de ADN viral em restos de neandertais. Além disso, o estudo ainda não foi revisto por pares.
Também não se deve esquecer que foram avançadas muitas outras teorias para explicar o que eliminou os neandertais. Estes poderão ter tido dificuldade em adaptar-se a uma mudança ambiental súbita, ou os humanos poderão tê-los superado na competição por alimentos e outros recursos.
Contudo, estas explicações começaram a perder força há mais de uma década, quando os investigadores perceberam que os neandertais também eram caçadores habilidosos, dominavam o fogo e viviam em sociedade.
Entre outras hipóteses populares na paleoantropologia estão a possibilidade de as populações neandertais, já pequenas, terem simplesmente diminuído até desaparecer, ou o facto de os humanos viverem em grupos maiores, dando aos nossos antepassados uma diversidade superior de genes e ideias.
“É provável que uma combinação destes factores, juntamente com outros factores desconhecidos, tenha contribuído para o eventual desaparecimento dos neandertais”, reconhecem Ferreira e os seus colegas.
A investigação foi publicada no servidor de pré-publicações bioRxiv antes da revisão por pares.






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