A cerca de 1.000 anos-luz da Terra encontra-se uma estrutura cósmica chamada IRAS 23077+6707 (IRAS 23077), cuja aparência faz lembrar uma borboleta gigante.
Em 2016, Ciprian T. Berghea, astrónomo do Observatório Naval dos EUA, observou originalmente esta estrutura com o Panoramic Survey Telescope and Rapid Response System (Pan-STARRS). Para surpresa de muitos, a estrutura manteve-se inalterada ao longo dos anos, levando alguns a perguntar-se o que poderá ser a IRAS 2307.
Recentemente, duas equipas internacionais de astrónomos realizaram observações de seguimento com o Submillimeter Array, do Observatório Astrofísico Smithsonian (SAO), no Havai, para compreender melhor a IRAS 2307.
Numa série de artigos que descrevem os resultados, as equipas revelaram que a IRAS 23077 é, na realidade, uma estrela jovem envolvida por um enorme disco protoplanetário de detritos, o maior alguma vez observado. A descoberta oferece uma nova perspetiva sobre a formação de planetas e os ambientes em que esse processo ocorre.
O primeiro artigo, liderado por Berghea, relata a descoberta de que a IRAS 23077 é uma estrela jovem situada no centro do que parecia ser um gigantesco disco de formação planetária. No segundo artigo, liderado pela investigadora de pós-doutoramento do CfA Kristina Monsch, os cientistas confirmam a identificação deste disco protoplanetário através de dados do Pan-STARRS e do Submillimeter Array (SMA).
O primeiro trabalho foi aceite para publicação, enquanto o segundo foi publicado em 13 de maio na revista The Astrophysical Journal Letters, respetivamente.
O disco protoplanetário da IRAS 23077
Os discos protoplanetários são, essencialmente, berçários planetários compostos por gás e poeira que se acumulam em torno de estrelas recém-formadas. Com o passar do tempo, estes discos transformam-se em anéis à medida que o material se junta para formar protoplanetas em determinadas órbitas; estes acabarão por dar origem a planetas rochosos, gigantes gasosos e corpos gelados.
Para os astrónomos, estes discos permitem limitar o tamanho e a massa de estrelas jovens, uma vez que rodam segundo uma assinatura específica. Porém, obter observações rigorosas destes discos pode ser difícil, por vezes, devido à orientação que apresentam relativamente à Terra.
Enquanto alguns discos são vistos «de frente», ficando inteiramente visíveis para os observadores terrestres, outros discos de formação planetária - como o da IRAS 23077 - só podem ser observados «de perfil». Isto significa que o disco bloqueia a luz emitida pela estrela-mãe. Ainda assim, as assinaturas do gás e da poeira destes discos continuam brilhantes em comprimentos de onda milimétricos, precisamente aqueles observados pelo SMA.
Quando as equipas do Pan-STARRS e do SWA examinaram a IRAS 23077 recorrendo à potência combinada dos seus observatórios, ficaram bastante surpreendidas com o que encontraram.
Kristina Monsch, astrofísica do SAO e investigadora de pós-doutoramento do CfA, liderou a campanha com o SMA. Numa notícia recente do CfA, descreveu assim as conclusões da equipa:
«Depois de descobrirmos este possível disco de formação planetária nos dados do Pan-STARRS, quisemos observá-lo com o SMA, o que nos permitiu compreender a sua natureza física. O que encontrámos foi incrível - indícios de que este era o maior disco de formação planetária alguma vez descoberto. É extremamente rico em poeira e gás, que sabemos serem os blocos de construção dos planetas.»
«Os dados do SMA fornecem-nos a prova irrefutável de que se trata de um disco e, em conjunto com a estimativa da distância do sistema, de que está a rodar em torno de uma estrela provavelmente duas a quatro vezes mais massiva do que o nosso Sol. Os dados do SMA também permitem pesar a poeira e o gás deste berçário planetário, onde verificámos existir material suficiente para formar muitos planetas gigantes - e até distâncias mais de 300 vezes superiores à distância entre o Sol e Júpiter!»
A origem do nome «Chivito do Drácula»
Depois de observar a IRAS 23077, Berghea sugeriu a alcunha «Chivito do Drácula», em homenagem ao «Hambúrguer do Gomez», outro disco protoplanetário que também apenas é visível de perfil.
Em primeiro lugar, Berghea propôs a referência a Drácula porque cresceu na região da Transilvânia, na Roménia, perto do local onde viveu Vlad, o Empalador, a inspiração para o conto de Bram Stoker.
Ana, coautora de Berghea, cresceu no Uruguai e sugeriu «chivito», uma sanduíche semelhante a um hambúrguer e prato nacional do país dos seus antepassados. O coautor Joshua Bennett Lovell, astrofísico do SAO e bolseiro do SMA no CfA, afirmou:
«A descoberta de uma estrutura tão extensa e brilhante como a IRAS 23077 levanta algumas questões importantes. Quantos mais objetos deste tipo nos terão escapado? Justifica-se estudar mais aprofundadamente a IRAS 23077 para investigar as possíveis vias de formação de planetas nestes ambientes jovens extremos e perceber como poderão comparar-se com as populações de exoplanetas observadas em torno de estrelas distantes mais massivas do que o nosso Sol.»
O que a descoberta pode revelar sobre a formação planetária
A identificação deste disco também incentiva os astrónomos a procurar objetos semelhantes na nossa galáxia. Estas observações poderão fornecer dados valiosos sobre sistemas planetários na fase mais precoce da sua formação, o que poderá conduzir a novas perspetivas sobre a forma como surgiu o Sistema Solar.
O SMA é um conjunto de telescópios no Havai operado conjuntamente pelo Observatório Astrofísico Smithsonian (SAO), do Centro Harvard & Smithsonian de Astrofísica (CfA), e pelo Instituto de Astronomia e Astrofísica da Academia Sinica (ASIAA), em Taiwan.
Este artigo foi originalmente publicado pela Universe Today. Leia o artigo original.






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