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David Hole encontrou um meteorito raro de Maryborough ao procurar ouro

Homem agachado no deserto a examinar uma rocha retirada de um buraco no solo árido.
Neste artigo
  1. Uma descoberta que resistiu a todas as ferramentas
  2. Pequenas esferas minerais nascidas nos primórdios do sistema solar
  3. Porque interessa esta pedra mais aos cientistas do que aos prospectores de ouro
  4. O que fazer perante uma rocha invulgar

No estado australiano de Vitória, um prospector guardou durante vários anos uma rocha que acreditava estar cheia de ouro.

O bloco era avermelhado, extremamente denso e quase impossível de cortar. David Hole tinha-o encontrado com o seu detector de metais no Parque Regional de Maryborough, uma zona marcada pela corrida ao ouro do século XIX. Na altura, imaginou que uma grande pepita estaria escondida sob aquela camada mineral. Mas as análises realizadas no Museu de Melbourne revelaram uma realidade muito diferente.

Uma descoberta que resistiu a todas as ferramentas

David Hole encontrou a rocha em 2015, enquanto procurava ouro no interior de Vitória. O detector deu sinal e o objecto, muito pesado para o seu tamanho, depressa alimentou as suas esperanças. Naquela região, o ouro tinha atraído durante muito tempo prospectores e coleccionadores, pelo que a hipótese de se tratar de uma pepita não era descabida.

Já em casa, o australiano tentou desvendar o mistério. Recorreu a uma serra, um berbequim, uma rebarbadora, ácido e até uma marreta, mas nada resultou. A superfície resistiu e o bloco manteve o seu segredo durante vários anos, até o proprietário decidir entregá-lo a especialistas.

Aquilo que David Hole julgava ser uma pepita encerrada na pedra era, afinal, um meteorito de 17 quilos, com cerca de 39 centímetros de comprimento.

No Museu de Melbourne, os geólogos Dermot Henry e Bill Birch examinaram a peça. Os dois recebem regularmente objectos apresentados como meteoritos, mas a maioria acaba por ser escória industrial, rocha rica em ferro ou simples pedras terrestres. Os exemplares autênticos continuam a ser muito raros.

A densidade do bloco e as marcas visíveis na superfície chamaram rapidamente a atenção dos geólogos. Decidiram, por isso, retirar uma fatia fina com uma serra de diamante. Foi no interior que a rocha revelou a sua verdadeira identidade.

Pequenas esferas minerais nascidas nos primórdios do sistema solar

O corte expôs pequenas esferas minerais chamadas côndrulos. Estas minúsculas partículas são uma pista importante: formaram-se no disco de gás e poeiras que rodeava o jovem Sol, há cerca de 4,6 mil milhões de anos.

O meteorito de Maryborough pertence à família dos condritos ordinários, mais precisamente ao grupo H5. A letra H indica o seu elevado teor de ferro, enquanto o número 5 descreve o grau de transformação térmica sofrido pelos minerais no corpo de origem, provavelmente um asteróide.

  • O meteorito contém, entre outros elementos, ferro e níquel.
  • As análises identificaram minerais metálicos, como a kamacite e a taenite.
  • A sua estrutura revela um material muito antigo, proveniente das primeiras aglomerações planetárias.
  • Segundo as medições efectuadas no objecto, terá chegado à Terra há menos de 1 000 anos.

A descrição do fragmento como «mais antigo do que o sistema solar» exige uma clarificação científica. Este meteorito não parece ter-se formado antes do próprio Sol. Data dos primeiros momentos do sistema solar, numa época anterior ao nascimento da Terra e dos restantes planetas. Alguns meteoritos podem conter grãos de poeira de estrelas mais antigos do que o Sol, mas isso não significa que todo o bloco de Maryborough seja anterior à nossa estrela.

Uma chegada à Terra ainda sem data precisa

Os investigadores calculam que a rocha tenha caído no nosso planeta nos últimos séculos ou no decurso do último milénio. Não foi identificada qualquer cratera perto de Maryborough, nem existe um relato que permita associar com certeza a sua queda a um bólide observado no céu.

Os arquivos locais referem fenómenos luminosos entre o final do século XIX e meados do século XX, mas são demasiado imprecisos para estabelecer uma data. O meteorito poderá ter permanecido escondido durante muito tempo nos solos argilosos e nas paisagens arborizadas da região, antes de ser assinalado pelo detector de David Hole.

Porque interessa esta pedra mais aos cientistas do que aos prospectores de ouro

O valor de um meteorito vai além do seu peso e dos metais que contém: é também um arquivo natural. As rochas terrestres foram alteradas pela erosão, pelos vulcões, pelos movimentos das placas e pela água. Um condrito, por seu lado, conserva elementos provenientes de um ambiente muito antigo.

No estado de Vitória, o meteorito de Maryborough é apenas o décimo sétimo oficialmente registado, ao passo que as descobertas de ouro se contam aos milhares.

Os especialistas procuram nestas amostras informações sobre a formação dos planetas, a circulação dos metais e as colisões que perturbaram a cintura de asteróides situada entre Marte e Júpiter. O meteorito de Maryborough terá sido arrancado ao seu corpo de origem por um choque violento e projectado numa trajectória que acabou por cruzar a da Terra.

Descobertas deste género podem ainda ajudar a compreender a circulação de compostos químicos no jovem sistema solar. Alguns meteoritos contêm moléculas orgânicas ou aminoácidos. Embora não constituam uma prova directa do aparecimento da vida, mostram que alguns dos seus componentes químicos já existiam no espaço.

O que fazer perante uma rocha invulgar

Um objecto pesado, atraído por um íman e coberto por uma crosta escura pode despertar curiosidade. Contudo, estes sinais não bastam para identificar um meteorito: as escórias industriais apresentam muitas vezes um aspecto semelhante. É preferível não partir, polir ou tratar a rocha com produtos químicos.

  • Fotografar o objecto de vários ângulos.
  • Registar com precisão o local e as circunstâncias da descoberta.
  • Guardar a rocha num local seco, sem tentar limpá-la de forma agressiva.
  • Contactar um museu de história natural, uma universidade ou um serviço geológico competente.

No caso de David Hole, a insistência em abrir o bloco poderia ter danificado uma peça científica rara. A decisão final de consultar geólogos permitiu identificar um testemunho das origens planetárias. A rocha que esperava vender como ouro é agora muito mais útil nas colecções científicas, onde cada amostra retirada poderá ainda fornecer informações sobre a nossa vizinhança cósmica.

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Inês Margarida Carvalho

Inês Margarida Carvalho é técnica superior de intervenção social, com experiência em desenvolvimento comunitário, envelhecimento ativo e apoio a famílias. Colabora com projetos ligados ao CSPSJ, dedicando-se à promoção da inclusão, do bem-estar social e da participação da comunidade.

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