A adolescência pode ser um inferno; disso não há dúvida. O peso de expectativas cada vez maiores, as marés de hormonas e um cérebro que parece desfazer-se e refazer-se como uma lagarta num casulo neurológico. Não surpreende que os anos da adolescência sejam difíceis.
Para as jovens mulheres, estes anos de formação parecem ser ainda mais exigentes do ponto de vista emocional do que para muitos jovens homens. Estudos revelam um aumento da ansiedade generalizada e social que não tem correspondência nos rapazes adolescentes.
Um dos factores que poderá contribuir para isso é um «sistema de travagem demasiado activo», que interfere com o raciocínio que, em circunstâncias normais, ajudaria a lidar racionalmente com situações stressantes.
Ansiedade na adolescência e a química cerebral
Uma análise recente, realizada pela psicóloga Nicola Johnstone e pela neurocientista cognitiva Kathrin Cohen Kadosh, da Universidade de Surrey, no Reino Unido, associou a subida e descida de dois metabolitos importantes no cérebro feminino à idade.
O estudo sustenta a chamada hipótese da sobre-inibição neural da ansiedade, segundo a qual estas perturbações podem surgir devido a um desequilíbrio entre a excitação e o bloqueio dos circuitos cerebrais que regulam as respostas emocionais.
Grande parte da neurologia assenta na competição entre substâncias químicas que activam as células nervosas e moléculas que lhes bloqueiam as vias.
O glutamato e o ácido gama-aminobutírico (GABA) são dois exemplos de neuroquímicos que disputam vários interruptores em certas zonas da cabeça: o glutamato quer mantê-los ligados, enquanto o GABA insiste que sejam desligados.
Saber de que forma cada um afecta um comportamento não é tão simples como identificar qual inibe e qual excita. Nalguns casos, desligar um circuito limita-se a permitir que outro se destaque mais.
Por exemplo, durante muito tempo considerou-se que níveis mais elevados de GABA em regiões-chave do cérebro ajudavam a controlar a ansiedade. Contudo, investigações recentes põem essa ideia em causa, sugerindo que demasiado GABA em áreas anatómicas dedicadas a funções de ordem superior, como o planeamento e a tomada de decisões, pode regular em excesso e, em vez disso, levar ao aparecimento de ansiedade.
GABA e glutamato no cérebro das jovens mulheres
Tendo este contraste em conta, Johnstone e Kadosh recrutaram 49 raparigas adolescentes e pré-adolescentes, com idades entre os 10 e os 12 anos, e 32 mulheres jovens, entre os 18 e os 25 anos. Antes de analisarem o funcionamento cerebral através de um aparelho de ressonância magnética, avaliaram o historial de perturbações do humor de cada participante.
A partir das imagens cerebrais, conseguiram estimar as variações do GABA e do glutamato em zonas associadas ao raciocínio e ao processamento emocional, relacionando essas diferenças com medidas de ansiedade nos vários grupos etários.
Embora o estudo não se tenha debruçado sobre alterações na actividade ou no funcionamento provocadas pela subida e descida dos níveis de GABA relativamente ao glutamato, os investigadores defendem que as suas medições - enquadradas por estudos anteriores - sustentam a ideia de que a ansiedade emerge quando a neuroquímica atenua os esforços para pensar num problema, sobretudo entre as voluntárias mais velhas.
«A nossa investigação indica que o equilíbrio entre o GABA e o glutamato no córtex pré-frontal dorsolateral funciona como um indicador vital dos níveis de ansiedade», afirma Johnstone.
«Enquanto o glutamato impulsiona a actividade cerebral, o GABA actua como um travão. Os nossos resultados sugerem que a ansiedade, frequentemente caracterizada por um pensamento racional comprometido, está intimamente ligada a este sistema de travagem demasiado activo no cérebro.»
Diferenças entre sexos e possíveis tratamentos
Isto não significa, naturalmente, que a ansiedade dependa do sexo. Considerados em conjunto com outros estudos sobre cérebros masculinos liderados por Cohen Kadosh, os resultados indicam que os circuitos do stress diferem, em geral, entre cérebros de sexos distintos, sendo a neurologia masculina capaz de lidar com as cargas adicionais de GABA que atingem o córtex pré-frontal.
«Compreender como substâncias químicas cerebrais fundamentais, o GABA e o glutamato, flutuam durante fases importantes de crescimento, como a adolescência, é essencial para identificar e travar precocemente as perturbações de ansiedade», afirma Cohen Kadosh.
«Este estudo evidencia a possibilidade de centrar novas terapêuticas nestas substâncias químicas cerebrais, em particular nas jovens mulheres.»
Esta investigação foi publicada na revista Developmental Cognitive Neuroscience.






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