O tamanho do cérebro humano poderá estar a aumentar gradualmente ao longo do tempo, algo que pode diminuir o risco de demência nas gerações mais jovens, segundo uma nova investigação.
O estudo recorreu a imagens cerebrais de mais de 3.000 norte-americanos, com idades entre os 55 e os 65 anos, e concluiu que as pessoas nascidas na década de 1970 apresentavam um volume cerebral total 6,6 por cento superior ao das nascidas na década de 1930.
Os membros da Geração X tinham também um volume de substância branca quase 8 por cento maior e uma área de superfície de substância cinzenta quase 15 por cento superior à dos membros da Geração Silenciosa.
Uma região específica do cérebro, o hipocampo, essencial para a memória e a aprendizagem, registou um aumento de 5,7 por cento no volume entre as sucessivas gerações analisadas.
Este resultado manteve-se mesmo depois de terem sido tidos em conta outros factores, como a altura, a idade e o sexo.
"A década em que uma pessoa nasce parece influenciar o tamanho do cérebro e, potencialmente, a saúde cerebral a longo prazo", explica o neurologista Charles DeCarli, da Universidade da Califórnia em Davis, que liderou a investigação.
"A genética tem um papel importante na determinação do tamanho do cérebro, mas os nossos resultados indicam que influências externas - como factores de saúde, sociais, culturais e educativos - também podem desempenhar um papel."
Cérebro humano, demência e reserva cerebral
Actualmente, a demência afecta dezenas de milhões de pessoas em todo o mundo e, à medida que a população mundial envelhece e cresce, prevê-se que os diagnósticos da doença tripliquem nas próximas três décadas.
Ainda assim, há um dado encorajador: nos últimos três decénios, a incidência de demência nos Estados Unidos e na Europa diminuiu cerca de 13 por cento em cada década.
O risco absoluto de demência parece estar a baixar nas gerações mais jovens, possivelmente devido a estilos de vida e condições de crescimento mais saudáveis.
A demência caracteriza-se pelo adelgaçamento da substância cinzenta cerebral, designada córtex, que intervém na memória, na aprendizagem e no raciocínio, entre muitos outros processos cognitivos.
Uma vez que o cérebro afectado pela doença encolhe progressivamente com o passar do tempo, é lógico que dispor de maior volume à partida possa ajudar a proteger contra as perdas associadas à idade.
Com efeito, estudos mostraram que o desempenho cognitivo é melhor em doentes com Alzheimer que têm cabeças maiores, apoiando a denominada "hipótese da reserva cerebral".
Volumes cerebrais ao longo das gerações
Para verificar se o tamanho do cérebro poderia explicar a menor incidência de demência nas gerações mais jovens, DeCarli e os seus colegas utilizaram dados do Estudo do Coração de Framingham, que acompanhou a saúde de norte-americanos nascidos entre 1930 e 1980.
Quando os participantes tinham entre 55 e 65 anos - entre 1999 e 2019 - realizaram exames de ressonância magnética ao cérebro. Esses dados só foram disponibilizados em outubro de 2023.
Com base nos resultados, DeCarli e os colegas demonstram que as gerações mais jovens possuem volumes cerebrais superiores, tanto no total como em regiões específicas.
A equipa não se limitou a comparar as pessoas nascidas nas décadas de 1930 e de 1970. Repetiu igualmente a análise com 1.145 adultos de idade semelhante, nascidos nas décadas de 1940 e de 1950.
Mais uma vez, os resultados revelaram um aumento regular e consistente do volume cerebral de década para década - um efeito que os investigadores consideram pequeno para cada indivíduo, mas "provavelmente substancial à escala populacional."
"Estruturas cerebrais maiores, como as observadas no nosso estudo, podem reflectir um melhor desenvolvimento cerebral e uma melhor saúde cerebral", coloca DeCarli como hipótese.
"Uma estrutura cerebral maior representa uma reserva cerebral superior e pode atenuar os efeitos tardios de doenças cerebrais relacionadas com a idade, como o Alzheimer e demências associadas."
No entanto, os neurocientistas nem sempre concordam que o volume cerebral seja um indicador adequado da reserva cerebral. Alguns estudos não conseguiram demonstrar qualquer associação entre o desempenho da memória e o volume cerebral ao longo do tempo.
Afinal, quando se trata do funcionamento do cérebro, o tamanho não é tudo. Não torna necessariamente uma pessoa mais inteligente, mas poderá constituir uma reserva útil perante a deterioração associada ao envelhecimento.
Por exemplo, a prática regular de exercício está associada a maior volume cerebral nas regiões ligadas à memória e à aprendizagem. Em contrapartida, uma alimentação inadequada, o consumo de álcool e o isolamento social parecem produzir o efeito oposto.
Um estudo recente sobre a pobreza concluiu que a substância branca pode degradar-se devido à redução da densidade das ligações entre neurónios e à perda do revestimento protector que permite aos neurónios transmitir mensagens rapidamente. Rendimentos mais elevados parecem proteger contra este efeito.
"O aumento da conectividade poderá explicar a nossa descoberta de um maior volume de substância branca… e enquadra-se bem na hipótese do andaime da reserva cognitiva", escrevem DeCarli e os seus colegas.
"A estrutura cerebral maior, que pode reflectir um melhor desenvolvimento cerebral e uma melhor saúde cerebral, constitui pelo menos 1 manifestação de uma reserva cerebral melhorada que poderá atenuar o efeito das doenças tardias na incidência de demência."
O estudo foi publicado na JAMA Neurology.






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