O neurocirurgião Sergio Canavero anunciou, em 2015, que em breve poderia ter capacidade para realizar o primeiro transplante de cabeça humano do mundo. Isto implicaria retirar a cabeça de uma pessoa e enxertá-la no pescoço e nos ombros de outra. Até agora, porém, o procedimento só foi realizado em cadáveres, nunca em seres humanos vivos.
Mas e se quiser manter o rosto que já tem? Ou se estiver cansado do corpo que habita? Poderá algum dia ser possível trocar cérebros entre corpos?
Emma Stone recebeu recentemente o seu segundo Óscar pela interpretação na brilhantemente surreal comédia Pobres Criaturas. No filme, Bella Baxter, a personagem de Stone, recebe um transplante cerebral do seu filho ainda por nascer, que sobreviveu, depois de ela se matar. A operação é realizada pelo cientista experimental Dr. Godwin Baxter, interpretado por Willem Dafoe.
Quem viu o filme terá assistido ao Dr. Baxter retirar o cérebro pela parte posterior do crânio, descascando-o com a facilidade de quem tira uma ervilha da vagem.
Por razões que explicarei adiante, a cena não é anatomicamente correta. Ainda assim, suscita uma pergunta: até que ponto seria viável realizar um transplante cerebral? Quais seriam as exigências práticas daquela que poderá ser a operação mais desafiante alguma vez imaginada?
Primeiro desafio: entrar e retirar
O cérebro vivo tem a consistência de um pudim pouco firme e está protegido de danos pelo crânio. Embora seja uma estrutura dura de abrir, o osso seria provavelmente o obstáculo mais simples de ultrapassar. As técnicas neurocirúrgicas modernas recorrem a serras de craniotomia para remover uma porção do crânio e alcançar o cérebro que se encontra por baixo.
Importa referir que nem todas as intervenções neurocirúrgicas chegam ao cérebro por esta via. A hipófise, uma glândula do tamanho de uma ervilha, situa-se na base do cérebro, logo atrás de um dos seios localizados na parte posterior da cavidade nasal. Por isso, nas cirurgias à hipófise, faz mais sentido utilizar o nariz.
Embora o nariz não tenha dimensão suficiente para introduzir um cérebro novo, pode certamente servir de passagem para retirar um - ainda que aos pedaços. Durante o processo de mumificação, os antigos egípcios, que consideravam o cérebro pouco importante, removiam fragmentos através das fossas nasais.
Depois do crânio, encontra-se o revestimento do cérebro: três membranas protetoras chamadas meninges. A primeira, a dura-máter, é resistente. A segunda, a aracnoideia, adequadamente designada, assemelha-se a uma teia de aranha; a terceira, a pia-máter, é delicada e tão fina que quase não se vê. São estas estruturas que inflamam na meningite.
Estas membranas dão estabilidade e impedem que o cérebro se mova livremente. Também dividem o interior do crânio em compartimentos. O primeiro cria uma camada protetora de líquido à volta da superfície cerebral - imagine pepinos em conserva a flutuar num frasco de vinagre. Chamado líquido cefalorraquidiano, ou LCR, é produzido a partir de sangue filtrado e não tem cor.
As meninges formam ainda canais entre o cérebro e o crânio. É por estas vias que tanto o sangue como o LCR provenientes da cabeça regressam ao coração.
Depois de abrir o crânio e as meninges, existiria uma abertura suficientemente ampla para retirar o cérebro. Esta seria a parte mais simples da operação.
Segundo desafio: ligar os circuitos do transplante cerebral
Chega então o momento de introduzir o novo cérebro. É aqui que tudo se complica.
O cérebro recebe informação sensorial de todo o corpo e envia instruções em sentido inverso, levando os músculos a contraírem-se, o coração a bater e as glândulas a segregarem hormonas. Para remover um cérebro, seria necessário cortar os 12 pares de nervos cranianos que dele partem diretamente, bem como a medula espinal. Toda a informação entra e sai do cérebro por estas estruturas. Percebe a dificuldade?
Os nervos não voltam simplesmente a unir-se. Assim que são cortados, começam geralmente a deteriorar-se e a morrer, embora alguns resistam melhor às lesões do que outros. Grupos de investigação de todo o mundo estudam formas de promover o novo crescimento de células nervosas após danos, para evitar sintomas neurológicos. As hipóteses são muitas, incluindo o uso de substâncias químicas ou o enxerto de células que estimulem a recuperação neuronal.
Alguns investigadores sugeriram também a utilização de uma cola biológica especial para unir novamente as duas extremidades cortadas de um nervo seccionado ou da medula espinal.
A remoção do cérebro original exigiria igualmente cortar as artérias que o irrigam. Isso interromperia também o fornecimento essencial de oxigénio e nutrientes, que teria de ser restabelecido.
Terceiro desafio: as consequências
A etapa final, e a mais incerta, seria o período posterior à cirurgia. As possibilidades de especulação são intermináveis. A pessoa recuperaria a consciência? Conseguiria pensar? Mexer-se? Respirar? Como reagiria o corpo ao novo cérebro?
A maioria das cirurgias de transplante exige que os dadores sejam compatíveis com os recetores, pois a reação normal do organismo perante tecidos desconhecidos é rejeitá-los. O sistema imunitário envia uma cavalaria de glóbulos brancos e anticorpos para atacar e destruir, convencido de que esta nova presença representa perigo. Em circunstâncias normais, os cérebros estão protegidos deste ataque por outra barreira, a barreira hematoencefálica. Se não fosse devidamente reconstruída durante a operação, o cérebro do dador poderia ficar vulnerável a um ataque.
É igualmente importante considerar a reação do cérebro à sua nova casa. Em Pobres Criaturas, dizia-se que o cérebro e o corpo de Bella Baxter «não estavam totalmente sincronizados». Mas os cérebros conseguem aprender e desenvolver-se. Assim, tal como os bebés adquirem um vasto conjunto de pensamentos, comportamentos, competências e capacidades durante o desenvolvimento infantil, um cérebro transplantado poderia fazer o mesmo.
Por agora, o transplante cerebral continua a pertencer ao domínio da ficção científica e do cinema premiado pela Academia. À luz da anatomia e da fisiologia básicas, parece improvável desenvolver um procedimento tão complexo. Mas será que mais tempo, instrumentos, tecnologias, conhecimentos especializados e, claro, dinheiro poderão algum dia torná-lo viável? Se Pobres Criaturas oferece um vislumbre da ética da troca de cérebros, essa é uma ideia assustadora.
Dan Baumgardt, professor sénior da Escola de Fisiologia, Farmacologia e Neurociências da Universidade de Bristol
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.






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