No passado, era difícil até para os cientistas - quanto mais para o público - obter uma visão completa do funcionamento interno de cada animal. Contudo, os rápidos progressos da tecnologia de digitalização 3D permitem agora que até alunos em idade escolar «dissequem» digitalmente estes preciosos espécimes.
Esse é o propósito da openVertebrate (oVert), um projecto que reúne 18 instituições e que, nos últimos cinco anos, criou reconstruções 3D de exemplares de museu, agora disponibilizadas gratuitamente na Internet.
Os animais expostos atrás de vidro nos museus são apenas uma pequena parte das colecções, que guardam milhares de espécimes recolhidos e cuidadosamente preservados ao longo de décadas.
Ainda assim, as limitações físicas no acesso a estes exemplares sempre dificultaram a colaboração científica e o ensino.
«Se for preciso alguém apanhar um avião e viajar até si para colaborar, isso torna-se proibitivo de muitas formas», afirma David Blackburn, curador de herpetologia do Florida Museum of Natural History e responsável pelo projecto oVert. «Agora, temos cientistas, professores, estudantes e artistas de todo o mundo a utilizarem estes dados à distância.»
Digitalização 3D amplia o acesso às colecções
Um par de tartarugas da California Academy of Sciences está entre os muitos vertebrados que passaram a integrar a colecção digital.
«Possuem a maior colecção mundial de tartarugas das Galápagos. Não são objectos que se coloquem em caixas e se emprestem», explica Blackburn.
A digitalização dos exemplares já proporcionou novas perspectivas aos cientistas, inclusivamente sobre temas que estudam há anos.
Enquanto digitalizava ratos espinhosos para o projecto, Edward Stanley, director de imagem digital do Florida Museum of Natural History, reparou que as caudas destes animais estavam cobertas por placas ósseas internas, denominadas osteodermos, que se pensava existirem apenas nos tatus.
«Quando se está a digitalizar, surgem todo o tipo de coisas», diz Stanley.
As digitalizações permitem observar o interior dos espécimes de uma forma que antes só era possível por meio de dissecções destrutivas e recolha de tecidos. Assim, revelam os esqueletos e, em alguns casos, os tecidos moles ocultos no interior de cada exemplar.
«Os museus estão permanentemente envolvidos num exercício de equilíbrio», afirma Blackburn. «Queremos proteger os espécimes, mas também queremos que as pessoas os utilizem. A oVert permite reduzir o desgaste das amostras, ao mesmo tempo que aumenta o acesso, e representa o próximo passo lógico na missão das colecções de museus.»
Descobertas feitas com os modelos oVert
Estes modelos já revelaram a causa da morte de uma cobra-coroada de rim rock (Tantilla oolitica), que o Spinosaurus teria sido um péssimo nadador e que as rãs perderam dentes pelo menos 22 vezes ao longo da sua história evolutiva, por vezes voltando a desenvolvê-los mais tarde.
Modelos 3D para a sala de aula
Desde o início, o projecto considerou os alunos em idade escolar como potenciais utilizadores finais destes modelos, tendo já formado alguns professores para a sua utilização em contexto de sala de aula.
«Foi uma mudança decisiva para a minha unidade sobre evolução», conta Jennifer Broo, professora do ensino secundário em Cincinnati.
«Dou aulas a alunos do penúltimo e último ano, e gosto imenso deles, mas podem ser um público exigente. Percebem quando as coisas não são autênticas, o que reduz o seu envolvimento. Com os modelos oVert, é possível ensinar conceitos a um nível adequado sem comprometer a autenticidade da ciência.»
Com mais de 13 000 espécimes digitalizados, por onde começar? A navegação ainda é um pouco difícil, mas vale a pena explorar estes diagramas de anatomia 3D codificados por cores, criados no laboratório de Blackburn na University of Florida.
Outra possibilidade é assistir a uma impressionante animação de um peixe-anjo das cavernas, produzida pelo Florida Museum.
Melhor ainda: experimente uma roda interactiva que mostra as diversas estruturas dos ossos das asas das aves.
É possível visitar o Sketchfab a qualquer momento para consultar uma selecção acessível de modelos 3D interactivos. O repositório completo das digitalizações 3D está disponível no MorphoSource.
Um artigo que sintetiza o projecto foi publicado na BioScience.






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