Não há bons motivos para acreditar que extraterrestres tenham alguma vez contactado a Terra. Existem, é certo, teorias da conspiração e relatos bastante estranhos de danos em gado, mas nada de credível.
O físico Enrico Fermi considerou isto estranho. A sua formulação deste enigma, apresentada na década de 1950 e hoje conhecida como «Paradoxo de Fermi», continua a ser central na procura de vida extraterrestre (SETI) e no envio de mensagens para o espaço através de sinais (METI).
A Terra tem cerca de 4,5 mil milhões de anos e a vida existe há, pelo menos, 3,5 mil milhões de anos. O paradoxo sustenta que, dada a dimensão do universo, é provável que tenham surgido condições favoráveis à vida muitas e muitas vezes.
Então, onde está toda a gente? Temos bons motivos para crer que deve existir vida algures, mas ninguém veio visitar-nos.
Esta é uma questão com que a personagem Ye Wenjie se debate no primeiro episódio de O Problema dos 3 Corpos, da Netflix. Enquanto trabalha num observatório de rádio, acaba por receber uma mensagem de um membro de uma civilização alienígena, que lhe diz ser pacifista e pede-lhe que não responda, sob pena de a Terra ser atacada.
A série acabará por apresentar uma solução detalhada e elegante para o Paradoxo de Fermi, mas será preciso esperar pela segunda temporada.
Em alternativa, pode ler o segundo livro da série de Cixin Liu, A Floresta Negra. Sem revelar pormenores da história, a explicação exposta nos livros é esta: «O universo é uma floresta escura. Cada civilização é um caçador armado que se move entre as árvores como um fantasma, afastando suavemente os ramos que lhe bloqueiam o caminho e tentando caminhar sem fazer ruído.»
No fundo, todos se escondem de todos. As diferenças no ritmo do progresso tecnológico tornam impossível manter um equilíbrio de poder duradouro, colocando as civilizações que avançam mais depressa em posição de aniquilar quaisquer outras.
Neste ambiente de ameaça constante, sobrevivem durante mais tempo aqueles que melhor jogam o jogo da sobrevivência. Entrámos num jogo que já decorria antes de chegarmos, e a estratégia que todos aprenderam é esconder-se. Ninguém que conheça o jogo será suficientemente imprudente para contactar alguém - ou para responder a uma mensagem.
Liu retratou aquilo a que chama «o pior de todos os universos possíveis», prolongando uma tendência da ficção científica chinesa. Não afirma que o nosso universo seja realmente uma floresta escura, onde uma estratégia de sobrevivência baseada no silêncio e na predação prevalece em todo o lado; sugere antes que um universo assim é possível e interessante.
A teoria da floresta escura de Liu é também suficientemente plausível para ter reforçado uma tendência no debate científico ocidental: o afastamento das preocupações com a incompreensão mútua e a aproximação aos receios de uma ameaça directa.
A sua potencial influência vê-se no protocolo sobre o que fazer num primeiro contacto, proposto em 2020 pelos destacados astrobiólogos Kelly Smith e John Traphagan. «Primeiro, não façam nada», concluem, pois agir pode conduzir a um desastre.
O protocolo de primeiro contacto e a floresta escura
No caso de contacto alienígena, defendem, a Terra deveria ser alertada através de mecanismos de sinalização previamente estabelecidos, em vez de qualquer solução improvisada. Além disso, deveríamos evitar fazer algo que pudesse revelar informação sobre quem somos.
Um comportamento defensivo demonstraria que estamos familiarizados com o conflito, pelo que não seria uma boa ideia. Responder a mensagens revelaria a localização da Terra - o que também seria uma má ideia.
Mais uma vez, a ideia de Smith e Traphagan não é que a teoria da floresta escura esteja correcta. É perfeitamente possível que existam extraterrestres benevolentes. A questão é apenas que um primeiro contacto implicaria um risco elevado à escala da civilização.
Isto difere das premissas de grande parte da literatura espacial russa da era soviética, que sugeria que civilizações avançadas teriam necessariamente ultrapassado o conflito e, por isso, partilhariam uma atitude de camaradagem. Esta perspectiva já não parece ser considerada um guia plausível para os protocolos de contacto.
Interpretar Darwin de forma errada
O aspecto interessante é que a teoria da floresta escura está quase certamente errada. Ou, pelo menos, está errada no nosso universo. Ela constrói um cenário em que existe um processo darwiniano de selecção natural, isto é, uma competição pela sobrevivência.
A explicação de Charles Darwin para a competição pela sobrevivência assenta em evidências. Em contraste, não dispomos de qualquer prova sobre o comportamento alienígena, nem sobre a competição dentro de outras civilizações ou entre elas. Isto resulta em especulação entretida, e não em boa ciência, mesmo aceitando a hipótese de a selecção natural poder actuar ao nível dos grupos, ou seja, das civilizações.
Mesmo que se partisse do princípio de que o universo funciona segundo a evolução darwiniana, o argumento é discutível. Nenhuma floresta real se assemelha à floresta escura. As florestas são lugares ruidosos, onde ocorre coevolução.
As criaturas evoluem em conjunto, numa interdependência mútua, e não isoladamente. Os parasitas dependem dos hospedeiros, as flores dependem das aves para a polinização. Numa floresta, todas as criaturas dependem dos insectos. A ligação mútua pode conduzir a encontros desagradáveis, brutais e curtos, mas assume igualmente outras formas. É assim que funcionam as florestas do nosso mundo.
Curiosamente, Liu reconhece esta interdependência como contraponto à teoria da floresta escura. Ao espectador e ao leitor é repetidamente dito que «na natureza, nada existe isoladamente» - uma citação de Primavera Silenciosa (1962), de Rachel Carson. Trata-se de uma obra que nos diz que os insectos podem ser nossos amigos, e não inimigos.
Na história de Liu, esta ideia serve para explicar por que motivo alguns humanos passam imediatamente para o lado dos alienígenas e por que razão o impulso de estabelecer contacto é tão forte, apesar de todos os riscos. Ye Wenjie acaba por responder ao aviso alienígena.
As referências a Carson não recuperam a antiga ideia russa de que os alienígenas serão avançados e, logo, camaradas. Ainda assim, ajudam a desenhar um quadro mais diversificado e realista do que o proposto pela teoria da floresta escura.
Por esta razão, a solução da floresta escura para o Paradoxo de Fermi não é convincente. O facto de não ouvirmos ninguém pode indicar, com igual probabilidade, que estão demasiado longe, que estamos a escutar das formas erradas ou que não existe floresta alguma nem mais nada para ouvir.
Tony Milligan, investigador em Filosofia da Ética, projecto Visionários Cosmológicos, King's College London
Este artigo é republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.






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