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Mega-secas na Austrália podem durar 20 anos ou mais

Homem de camisa aos quadrados numa terra seca e rachada junto a bomba de água e moinho.
Neste artigo
  1. Os registos de precipitação não chegam
  2. Os nossos resultados
  3. Quão graves podem ser as secas australianas?
  4. As mega-secas são possíveis na Austrália

As secas podem provocar consequências dramáticas na Austrália: dizimam a agricultura, colocam em risco os recursos hídricos e devastam o ambiente. Grande parte do país é propensa a secas, e prevê-se que o risco aumente à medida que o aquecimento global prossegue.

Por isso, é essencial que a Austrália esteja preparada para secas, sobretudo para as que se prolongam por vários anos.

Para perceber até que ponto a situação pode agravar-se, é necessário recuar muito no tempo e analisar o que já aconteceu. É aí que entra a nossa nova investigação.

Analisámos simulações computacionais do clima terrestre ao longo dos últimos 1.150 anos. De forma preocupante, concluímos que, com tempo suficiente, a variabilidade natural da precipitação na Austrália pode dar origem a "mega-secas" com duração de 20 anos ou mais. Ao juntar as alterações climáticas causadas pelo ser humano, os resultados indicam que as secas futuras poderão ser muito piores do que imaginávamos.

Os registos de precipitação não chegam

Para compreender plenamente as secas futuras, precisamos de dados históricos sobre a precipitação. Contudo, na Austrália, estes registos remontam apenas a cerca de 1900. Assim, não captam toda a enorme amplitude da variabilidade natural da precipitação ao longo de muitas centenas de anos.

Em certa medida, é possível obter registos prolongados a partir de elementos ambientais, como as árvores, cujos anéis anuais de crescimento registam informações sobre alterações na precipitação. Infelizmente, estes "arquivos" naturais, em geral, recuam apenas algumas centenas de anos. Além disso, guardam informação apenas sobre o que ocorreu localmente, e não em toda a Austrália.

Os cientistas precisam, por isso, de formas alternativas de observar o passado - e foi esse o objetivo da nossa nova investigação.

Utilizámos modelos computacionais do clima da Terra entre os anos 850 e 2000, num total de 1.150 anos, para completar este retrato. Os modelos simulam as interações entre a atmosfera, os oceanos, o gelo e a superfície terrestre, proporcionando assim uma perspetiva de como o clima mudou ao longo do tempo.

Como nenhum modelo climático é perfeito por si só, recorremos a um "conjunto" de 11 modelos climáticos diferentes para explorar a variedade de secas que a Austrália sofreu.

Primeiro, analisámos as características das secas australianas provocadas por flutuações naturais da precipitação. Depois, comparámos as secas simuladas durante o século XX com as do período pré-industrial, anterior a 1850. Isto permitiu-nos verificar se as alterações climáticas provocadas pelo ser humano no último século causaram mudanças detetáveis nas secas australianas.

Dedicámos especial atenção à bacia Murray-Darling, no sudeste da Austrália. Esta região alberga o maior sistema fluvial australiano e é a maior zona agrícola do país, pelo que é importante saber quão severas podem ser ali as secas.

Os nossos resultados

Verificámos que, durante o século XX, as secas simuladas no sudoeste e no leste da Austrália - incluindo na bacia Murray-Darling - foram, em média, mais longas do que no período pré-industrial.

Esta alteração é compatível com as tendências de precipitação previstas para estas regiões no futuro devido às alterações climáticas causadas pelo ser humano. Indica que uma influência humana emergente no clima já tornou as zonas meridionais da Austrália mais propensas a secas.

Outras características das secas australianas simuladas, como a intensidade ou a recorrência, não revelaram diferenças marcadas no último século em comparação com o período pré-industrial. Por outras palavras, é provável que as alterações climáticas causadas pelo ser humano ainda não tivessem tornado as secas australianas mais secas, nem alterado a frequência com que ocorrem. Porém, esta influência poderá tornar-se evidente à medida que as alterações climáticas se agravarem.

Os impactos devastadores da última grande seca australiana, entre 2017 e 2019, conhecida como a seca "Tinderbox", constituem um alerta claro para aquilo que poderemos enfrentar no futuro. A seca foi provavelmente agravada pelas alterações climáticas causadas pelo ser humano e antecedeu os catastróficos incêndios do Verão Negro.

Quão graves podem ser as secas australianas?

Uma das conclusões mais preocupantes da nossa investigação é que, mesmo sem os efeitos das alterações climáticas, a variabilidade natural pode causar "mega-secas" na Austrália com 20 anos ou mais de duração. Trata-se de um período muito superior ao de qualquer seca vivida no país desde o início dos registos instrumentais.

Os nossos resultados mostram que as mega-secas podem ocorrer em todo o continente australiano. Isto inclui a bacia Murray-Darling, onde as secas típicas do século passado duraram entre quatro e cinco anos. O gráfico abaixo apresenta as piores secas desde o início dos registos diretos de precipitação. Uma seca de 20 anos faria estes extremos parecerem breves.

As mega-secas são possíveis na Austrália

Esta nova investigação demonstra que as mega-secas na Austrália são possíveis, mesmo sem a influência das alterações climáticas. Fazem parte natural da variabilidade da precipitação australiana a longo prazo. Esta conclusão é corroborada por evidências obtidas em testemunhos de gelo, que sugerem que uma seca de 39 anos atingiu o leste da Austrália há cerca de 800 anos.

Esta realidade é preocupante, pois as alterações climáticas também estão a aumentar a probabilidade de redução da precipitação em grande parte do sul da Austrália.

É difícil imaginar uma seca que dure várias décadas. Contudo, a nossa investigação indica que isso pode acontecer e que as secas futuras na Austrália serão piores do que qualquer experiência registada na nossa história recente.

O nosso trabalho salienta a necessidade de considerar o impensável na preparação para futuras secas. Isto tem implicações para a indústria, os governos e as comunidades à medida que se adaptam a um futuro mais quente.

Georgina Falster, investigadora de pós-doutoramento, Universidade Nacional da Austrália; Nerilie Abram, investigadora principal do Centro de Excelência ARC para Extremos Climáticos; diretora-adjunta do Centro Australiano de Excelência em Ciência Antártica; diretora-adjunta do Centro de Excelência para o Tempo no Século XXI, Universidade Nacional da Austrália; e Nicky Wright, investigadora, Universidade de Sydney

Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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Inês Margarida Carvalho

Inês Margarida Carvalho é técnica superior de intervenção social, com experiência em desenvolvimento comunitário, envelhecimento ativo e apoio a famílias. Colabora com projetos ligados ao CSPSJ, dedicando-se à promoção da inclusão, do bem-estar social e da participação da comunidade.

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