A euforia em torno do eclipse tomou conta da América do Norte na segunda-feira, quando um impressionante fenómeno celeste prendeu a atenção de dezenas de milhões de pessoas, numa rara combinação de interesse científico, oportunidade comercial e celebração em plena luz do dia.
A sombra da Lua mergulhou a costa mexicana do Pacífico na escuridão total às 11:07, hora local (18:07 GMT), e atravessou os Estados Unidos a velocidade supersónica, voltando ao oceano pela costa atlântica do Canadá pouco menos de uma hora e meia depois de atingir terra.
Ao longo da «faixa de totalidade» do eclipse, realizaram-se festivais, encontros de observação e até casamentos colectivos. Nessa zona, a coroa solar brilhou por trás da Lua, num espectáculo que deixou as multidões maravilhadas.
«Foi espectacular. Nunca tinha visto nada assim», afirmou Paulina Nava, residente de 36 anos na cidade balnear mexicana de Mazatlán.
As pessoas «gritavam, aplaudiam, algumas tiravam fotografias, outras beijavam-se», acrescentou. O Presidente Andrés Manuel López Obrador, que se deslocou à cidade, classificou o acontecimento como um «dia muito bonito e inesquecível».
A milhares de quilómetros de distância, no centro de Montreal, no Canadá, trabalhadores de escritórios saíram dos arranha-céus para tirar fotografias, segurando os óculos de eclipse diante dos telemóveis.
«O meu coração batia muito depressa», disse Erica Park, de 26 anos.
Segundo a NASA, a faixa de totalidade tinha 185 quilómetros de largura e abrangia quase 32 milhões de norte-americanos, enquanto outros 150 milhões viviam a menos de 320 quilómetros desse corredor. A agência espacial transmitiu o evento em directo pela internet.
Encerramentos de escolas e casamentos colectivos
Em locais privilegiados para a observação, hotéis e alojamentos de curta duração estavam completamente reservados há meses em estados como Texas, Arkansas, Ohio e Maine.
Em Ingram, no Texas, observadores de eclipses de todo o mundo reuniram-se no parque Stonehenge II - uma réplica do monumento pré-histórico de Inglaterra - sem se deixarem demover pelo céu encoberto.
Jeni Lyn Hunter, de 57 anos, e o marido, Charles Guillory, de 60, viajaram de Floresville, no Texas. O casal identifica-se como «pagão» e usava chapéus de Merlin.
«Significa muito para mim porque tenho cancro em fase quatro, mas não vou desistir; isto é um renascimento do Sol da vida», declarou Hunter à AFP.
Em Russellville, no Arkansas, mais de 300 casais terão trocado votos na cerimónia colectiva de casamento «A Total Eclipse of the Heart».
A Delta Airlines planeou dois voos especiais ao longo da trajectória do eclipse, enquanto muitas escolas da zona encerraram durante o dia.
Donald Trump, que na segunda-feira divulgou um anúncio de campanha em que a sua cabeça bloqueia o Sol, ignorou notoriamente todas as recomendações de segurança e olhou directamente para o eclipse de 2017, quando estava na Casa Branca.
Neste ano eleitoral, o Presidente Joe Biden troçou do rival numa publicação nas redes sociais: «Não sejam tolos, pessoal.»
Os profissionais de saúde também alertaram para a necessidade de usar óculos de eclipse certificados, de modo a evitar lesões permanentes na retina.
Apenas quem se encontrava na faixa de totalidade podia retirar a protecção ocular em segurança durante alguns instantes preciosos, uma oportunidade que, para grande parte da América do Norte, só voltará a ocorrer no próximo eclipse solar, em 2044.
Anel de diamante e investigação científica da coroa solar
O eclipse representou igualmente uma oportunidade valiosa para os cientistas. A NASA lançou um trio de foguetes de sondagem antes, durante e imediatamente após o eclipse, para medir as alterações que a súbita escuridão provocou na ionosfera, uma camada superior da atmosfera importante para as comunicações rádio de longa distância.
O fenómeno proporcionou ainda uma excelente ocasião para estudar a coroa solar, a camada exterior da atmosfera do Sol, normalmente ocultada pela luz intensa da superfície, mas com um impacto desproporcionado em elementos que vão dos satélites às redes eléctricas.
«Há algumas nuvens altas, mas a beleza da coroa é claramente visível», afirmou o heliofísico da NASA Michael Kirk, enquanto o eclipse passava por Dallas.
«Consegue ver-se essa estrutura pontiaguda a sobressair - é de uma beleza de cortar a respiração», acrescentou, salientando que a coroa era «assimétrica» devido à aproximação do Sol ao auge do seu ciclo de 11 anos.
À medida que o eclipse decorria, a topografia acidentada da Lua revelou-se através de um impressionante efeito de «anel de diamante», enquanto os planetas Vénus e Júpiter surgiram brevemente no céu.
Em eclipses anteriores, foram observados comportamentos surpreendentes nos animais, como galos a cantar por julgarem que é amanhecer quando a escuridão termina.
Nos seres humanos, os eclipses despertam sentimentos de admiração ao confrontarem-nos com o nosso pequeno lugar na ordem cósmica. Após esta experiência partilhada, as pessoas também revelam sentimentos mais «pró-sociais» umas em relação às outras.
© Agence France-Presse






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