É difícil esquecer a sensação de estar diante de um glaciar que avança na nossa direcção, com imensas colunas de gelo a crepitar continuamente à medida que se deslocam. O movimento é demasiado lento para ser visto em tempo real, mas torna-se evidente de um dia para o outro.
Um de nós, Harold, viveu essa experiência em 2012, durante trabalho de campo no Nathorstbreen, no arquipélago ártico de Svalbard. Nessa altura, o glaciar avançava mais de 10 metros por dia.
Encontros deste género são raros. À medida que o clima aquece, a maioria dos glaciares do mundo recua rapidamente e é provável que milhares desapareçam por completo nas próximas décadas.
Uma pequena parte dos glaciares, contudo, faz o contrário: após um longo período de estagnação e recuo, acelera e avança repetidamente durante meses ou anos. Este fenómeno, conhecido como avanço acelerado dos glaciares, intriga os cientistas há muito tempo.
Pode ser tentador considerar o avanço do gelo um contraponto ao cenário sombrio do desaparecimento dos glaciares, mas a realidade é precisamente a oposta. Estes avanços podem acelerar a perda de gelo, tornar os glaciares mais vulneráveis às alterações climáticas e criar perigos graves para as populações que vivem a jusante.
Acabámos de publicar um estudo global sobre mais de 3.000 glaciares sujeitos a avanços acelerados, com o objectivo de descobrir o que provoca este movimento. O nosso trabalho sintetiza também, pela primeira vez, os perigos associados a estes glaciares e a forma como as alterações climáticas afectam os seus avanços acelerados.
Porque aceleram alguns glaciares
Durante estes episódios, os glaciares passam de um movimento muito lento para velocidades de dezenas de metros por dia, por vezes em poucas semanas. A fase mais rápida, em que o gelo pode deslocar-se a mais de 60 metros por dia, dura normalmente um ano ou mais, embora alguns glaciares tenham mantido o avanço acelerado até 20 anos. O regresso a velocidades baixas e até à estagnação pode acontecer abruptamente, em poucos dias, ou prolongar-se por vários anos.
Durante o seu avanço acelerado, iniciado em 2008, o Nathorstbreen avançou mais de 15 quilómetros em cerca de uma década, transformando por completo a paisagem em poucos anos.
Pensa-se que o início destes avanços seja controlado por alterações sob o glaciar. Nos glaciares propensos a avanços acelerados, a água produzida pela fusão do gelo não escoa imediatamente, acumulando-se antes na base. Isso reduz a fricção entre o gelo e o terreno, facilitando um deslizamento mais rápido.
Quando essa água acaba por escoar, o glaciar volta a abrandar. Alguns glaciares registam avanços acelerados repetidos, separados por anos ou décadas de deslocação lenta do gelo, mas é difícil prever exactamente quando ocorrerão.
As principais regiões de avanço acelerado dos glaciares
O nosso estudo mostra que pelo menos 3.000 glaciares tiveram um avanço acelerado em algum momento. Embora correspondam apenas a cerca de 1% de todos os glaciares do mundo, tendem a ser grandes e representam aproximadamente 16% da área global ocupada por glaciares.
É de notar que se concentram em grupos geográficos densos no Árctico, nos Himalaias e noutras altas montanhas da Ásia, bem como nos Andes, estando praticamente ausentes de outras regiões. A principal razão é o clima: os avanços acelerados geralmente não ocorrem onde as condições são actualmente demasiado quentes, como nos Alpes europeus ou na Escandinávia continental, nem onde são demasiado frias e secas, como na Antártida.
Outros factores, como a dimensão e a geologia subjacente, também são importantes para determinar quais os glaciares de uma região que apresentam estes avanços e quais os que não apresentam.
Algumas das regiões com maior concentração situam-se em zonas povoadas, onde os glaciares em avanço acelerado podem tornar-se perigosos. O gelo pode avançar sobre infra-estruturas e terrenos agrícolas e bloquear rios, formando lagos perigosos que, quando o gelo se rompe, podem provocar inundações devastadoras.
Um lago instável formado pelo avanço acelerado do glaciar Shisper, na cordilheira do Caracórum, esvaziou-se várias vezes entre 2019 e 2022. As descargas causaram danos extensos na estrada do Caracórum, uma ligação essencial entre o Paquistão e a China.
O gelo em movimento rápido pode abrir fendas profundas, afectando as deslocações em regiões como Svalbard, onde os glaciares funcionam como vias de ligação entre povoações isoladas. Pode também perturbar o turismo e as actividades recreativas, por exemplo quando os alpinistas usam glaciares para se aproximarem dos picos. Quando avançam para o mar, os glaciares libertam numerosos icebergs em pouco tempo, o que pode representar um risco para a navegação e o turismo.
Como o aquecimento climático altera os avanços acelerados
O aquecimento do clima já está a mudar a forma e o momento em que os glaciares avançam rapidamente. Em algumas regiões, estes episódios tornam-se mais frequentes; noutras, estão a diminuir à medida que os glaciares se tornam mais finos e perdem a massa necessária para iniciar um avanço acelerado.
Também se demonstrou que chuva intensa, períodos de fusão intensa ou outros fenómenos meteorológicos extremos podem desencadear avanços mais cedo do que o previsto. Estes factores poderão tornar-se mais importantes num clima em aquecimento.
No conjunto, estes dados apontam para uma imprevisibilidade crescente dos avanços acelerados dos glaciares. Com o aquecimento global, algumas regiões poderão registar menos episódios, enquanto noutras poderão aumentar. É possível que glaciares que nunca avançaram desta forma comecem a fazê-lo, incluindo em zonas sem registo de avanços anteriores, como a península Antárctida, que está a aquecer rapidamente.
Os glaciares em avanço acelerado lembram-nos que o gelo nem sempre responde ao aquecimento de forma simples e previsível. Num mundo em rápida mudança, é essencial compreender estas excepções e gerir os perigos que criam.
Harold Lovell, docente sénior de Glaciologia na Universidade de Portsmouth, e Chris Stokes, professor no Departamento de Geografia da Universidade de Durham
Este artigo é republicado a partir de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.






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