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Zita Martins fala de ciência, astrobiologia e mulheres em Portugal

Mulher cientista a enviar email num laboratório moderno ao pôr do sol, com equipamento e notas na mesa.
Neste artigo
  1. Zita Martins no palco do StarTalk Live!
  2. Mulheres na ciência: os desafios apontados por Zita Martins
  3. O futuro da astrobiologia em Portugal e a carreira de Zita Martins

Investigadora e professora, Zita Martins é também vice-presidente do Instituto Superior Técnico para os Assuntos Internacionais. A astrobióloga portuguesa foi recentemente convidada a falar no conhecido programa do astrofísico Neil deGrasse Tyson e conta como viveu essa experiência. Pelo caminho, aborda os preconceitos e as desigualdades que continuam a afetar as raparigas na ciência. “O talento, a inteligência, a curiosidade e a capacidade de fazer ciência não têm género”, sublinha, deixando uma recomendação: “tenham a coragem de sonhar alto.”

Zita Martins no palco do StarTalk Live!

A 15 de outubro, Zita Martins juntou-se a Neil deGrasse Tyson no palco da Sala Tejo da Meo Arena, para participar no emblemático espetáculo de ciência “StarTalk Live!”. A astrobióloga explica que o convite para esta edição especial, recebido com “entusiasmo e sentido de responsabilidade”, chegou através da produtora do podcast. O programa combina humor com divulgação científica, uma fórmula que marca o espetáculo.

“É muito gratificante poder participar numa iniciativa desta natureza, que contou também com o apoio da Agência Espacial Portuguesa, reforçando a importância de promover o conhecimento científico e o interesse pelo Espaço em Portugal”, afirma numa conversa escrita com o Delas.pt.

Perante uma audiência de cerca de duas mil pessoas, a cientista teve de se preparar para “conversar, reagir e explicar conceitos científicos de forma natural”. “A minha experiência de investigação e de comunicação de ciência ao longo dos anos foi fundamental. Gosto muito de comunicar ciência porque acredito que o conhecimento só cumpre verdadeiramente a sua função quando é partilhado”, conta.

A propósito desta participação, Zita Martins fala ainda do seu percurso numa área científica em que os homens continuam a ser maioria, aponta formas de atrair mais raparigas e aconselha os jovens que desejam seguir carreiras científicas. Entre as sugestões estão ter “coragem de sonhar alto”, procurar conhecer e ouvir profissionais das áreas que lhes interessam e rejeitar a ideia de que é necessário encaixar num modelo específico.

A investigadora conhece de perto a importância de tomar a iniciativa: aos 20 anos escreveu à NASA. “O mais importante nessa experiência foi perceber que não devemos ter receio de fazer perguntas, mesmo quando estamos a contactar pessoas que admiramos e que parecem estar muito distantes da nossa realidade”, revela.

Como viveu a experiência em palco?

Foi extraordinário, quer por ter podido partilhar o palco com Neil deGrasse Tyson e Chuck Nice, quer por falar de ciência perante uma sala esgotada, com cerca de duas mil pessoas interessadas em conhecer melhor o Universo. Uma das características mais inesperadas do formato é a capacidade do humor para tornar descontraída uma conversa sobre questões científicas muito profundas, sem sacrificar o rigor.

O que mais me surpreendeu foi a dimensão do interesse e o calor humano da audiência. Emocionou-me especialmente sentir o carinho do público: senti-me muito acarinhada e orgulhosa por representar a ciência feita em Portugal num palco desta dimensão. São momentos que nos lembram que a ciência pode despertar emoções, inspirar pessoas e, talvez, levar alguns jovens a escolher uma carreira científica.

“Continuam a existir desigualdades e estereótipos que precisamos de combater. Um dos maiores desafios é precisamente a persistência da ideia de que determinadas áreas científicas, como a física, a engenharia ou as ciências espaciais, são mais adequadas aos homens. Não existe qualquer fundamento científico nisso”

Mulheres na ciência: os desafios apontados por Zita Martins

Que dificuldades encontrou enquanto rapariga e mulher numa área científica ainda dominada por homens?

Durante a minha carreira, trabalhei em contextos científicos em que as mulheres eram minoritárias, particularmente nos cargos de liderança. Em outubro de 2025, por exemplo, fui eleita presidente da rede T.I.M.E., uma associação internacional de escolas de engenharia, tornando-me a primeira mulher a liderá-la em mais de 30 anos de história.

Houve avanços muito importantes, mas subsistem desigualdades e estereótipos que é necessário combater. Entre os maiores obstáculos está a ideia persistente de que áreas como a física, a engenharia ou as ciências espaciais são mais adequadas aos homens. Essa ideia não tem qualquer fundamento científico: a inteligência, o talento, a curiosidade e a capacidade para fazer ciência não dependem do género.

De que forma superou essas dificuldades?

Procurei sempre centrar-me na qualidade do trabalho, na preparação científica e nas metas que queria alcançar. Acreditar nas minhas capacidades, manter a persistência e impedir que as expectativas alheias limitassem as minhas ambições foi essencial. Também foi decisivo o apoio permanente da minha família, que me deu asas para voar e concretizar os meus sonhos.

O que pode ser feito para atrair mais raparigas para uma ciência ainda tão masculinizada?

As instituições têm de assegurar igualdade de oportunidades, reconhecer o mérito e combater os preconceitos. Tenho muito orgulho no Instituto Superior Técnico, onde trabalho, pelo esforço significativo que tem feito para promover a igualdade de género e criar condições para que as mulheres desenvolvam plenamente as suas carreiras científicas.

Um exemplo é o Prémio Maria de Lourdes Pintasilgo, criado em 2016, que distingue os percursos de excelência de mulheres formadas no Técnico. Ao fazê-lo, dá visibilidade a exemplos femininos capazes de inspirar as novas gerações.

Existem ainda outras medidas importantes, com efeitos concretos na vida das pessoas. O Técnico tem uma creche e um jardim de infância no campus da Alameda, o que facilita a conciliação da vida familiar com a profissional. Mais recentemente, introduziu uma medida que considero particularmente relevante: professores que tenham gozado pelo menos 100 dias de licença parental podem ser dispensados do serviço docente no semestre seguinte.

Deste modo, podem dedicar mais tempo à investigação e recuperar o ritmo da atividade científica, evitando que a parentalidade prejudique a progressão na carreira. Estas iniciativas são fundamentais: não basta que as raparigas cheguem à ciência, é preciso garantir-lhes condições para ficar, progredir e ocupar cargos de liderança. Não podemos continuar a desperdiçar talento por motivos alheios à competência ou ao mérito científico.

“O [Instituto Superior] Técnico dispõe de uma creche e jardim de infância no campus da Alameda, facilitando a conciliação entre a vida familiar e profissional” e implementou recentemente “a possibilidade de dispensa de serviço docente durante o semestre seguinte à licença parental, para professores que tenham usufruído de uma licença de pelo menos 100 dias. Esta medida permite que possam dedicar mais tempo à investigação e recuperar o ritmo da sua atividade científica, evitando que a parentalidade se transforme numa desvantagem na progressão da carreira”

O futuro da astrobiologia em Portugal e a carreira de Zita Martins

Que perspetivas vê para a astrobiologia em Portugal?

Encaro o futuro da astrobiologia em Portugal com grande otimismo, embora ainda haja um caminho importante a percorrer. Esta área é profundamente interdisciplinar: cruza química, biologia, física, geologia, astronomia e engenharia para procurar respostas a algumas das perguntas fundamentais da humanidade. Como surgiu a vida na Terra? De que condições precisa para existir? Estaremos sozinhos no Universo?

Portugal conta com investigadores de excelência, universidades e centros de investigação capazes de dar contributos muito relevantes para essas questões. A participação portuguesa no setor espacial europeu está também a crescer e há oportunidades de colaboração internacional, nomeadamente através da Agência Espacial Europeia.

O principal desafio passa por assegurar investimento continuado na investigação científica, criar condições para atrair e reter talento e oferecer carreiras estáveis aos jovens investigadores. A ciência não se desenvolve de um dia para o outro: precisa de tempo, financiamento, equipamentos e equipas altamente qualificadas.

Gostaria muito que Portugal se afirmasse cada vez mais como referência na investigação em astrobiologia e ciências planetárias. Temos o talento necessário; importa continuar a criar as condições para o transformar em conhecimento e inovação.

Quais são os seus objetivos profissionais a curto prazo?

Quero prosseguir a investigação científica de excelência em astrobiologia, em particular sobre a origem da vida na Terra e a procura de vida noutros pontos do sistema solar. Outra grande prioridade é reforçar a dimensão internacional da minha carreira, participando em projetos de investigação e missões espaciais internacionais e desenvolvendo colaborações com algumas das principais instituições científicas do mundo.

Responder às grandes questões que estudamos exige equipas multidisciplinares, acesso a infraestruturas de excelência e uma colaboração internacional muito estreita. Pretendo continuar a contribuir para uma presença portuguesa cada vez mais relevante na investigação espacial internacional e para que o Instituto Superior Técnico seja reconhecido como um local de excelência nesta área.

É especialmente importante mostrar que, a partir de Portugal, podemos fazer ciência com grande impacto internacional, constituir equipas competitivas e criar oportunidades para os nossos jovens investigadores.

“Quero continuar a contribuir para que Portugal tenha uma presença cada vez mais relevante na investigação espacial internacional”

A formação de novas gerações de cientistas continua igualmente a ser uma das vertentes que mais valorizo na minha carreira. Como professora do Instituto Superior Técnico, tenho o privilégio de trabalhar com jovens de enorme talento. Acompanhar o seu desenvolvimento e ajudá-los a construir percursos científicos com possível projeção internacional é muito gratificante.

Quero também continuar a comunicar ciência e a aproximá-la da sociedade. Acredito que cabe aos cientistas partilhar conhecimento, estimular a curiosidade e mostrar às novas gerações que a ambição científica não tem limites geográficos.

Além da investigação, tenho objetivos muito ambiciosos na internacionalização do ensino superior. Enquanto vice-presidente do Instituto Superior Técnico para os Assuntos Internacionais e presidente da associação T.I.M.E., quero ajudar a reforçar parcerias estratégicas entre universidades de países diferentes, promover a mobilidade de estudantes e investigadores e abrir novas oportunidades de formação e colaboração internacional.

Estou profundamente convicta de que a internacionalização é essencial para a excelência académica e científica. Quero abrir portas a estudantes, professores, investigadores e trabalhadores técnicos e administrativos da comunidade académica, para que beneficiem de experiências internacionais transformadoras, e também atrair para Portugal talento de todo o mundo.

Aos 20 anos escreveu à NASA para saber como fazer carreira na ciência espacial e recebeu uma resposta. Até que ponto essa resposta influenciou o seu futuro, sabendo que também trabalhou na agência?

Fui cientista convidada da NASA Goddard em 2005 e 2006. Esta história mostra como um gesto aparentemente simples pode ter consequências muito importantes na nossa vida. Quando tinha cerca de 20 anos, sabia que queria trabalhar em astrobiologia, juntando a química ao espaço, mas não conhecia ao certo o percurso necessário para lá chegar.

Na altura, o acesso à informação era muito diferente do atual. Decidi, por isso, contactar cinco cientistas da NASA para lhes pedir conselhos sobre a formação académica que deveria escolher. A principal lição foi perceber que não devemos ter medo de fazer perguntas, mesmo a pessoas que admiramos e que parecem muito distantes da nossa realidade.

Claro que o meu futuro não foi determinado por uma única resposta. Houve muitos anos de estudo, trabalho, dedicação e persistência, além de oportunidades que soube aproveitar. Ainda assim, aquela iniciativa ajudou-me a identificar um caminho possível.

É uma mensagem que gosto de passar aos jovens: não tenham receio de pedir conselhos nem de procurar oportunidades. O pior que pode acontecer é não receberem resposta. Mas, se não tentarem, a resposta será sempre não.

“[Para os jovens] É importante terem curiosidade, fazerem perguntas, procurarem informação e não terem receio de experimentar coisas novas”

Que iniciativas aconselha às jovens raparigas para perseguirem os seus desejos, objetivos e ambições?

Antes de mais, recomendo-lhes que tenham coragem para sonhar alto. Devem manter a curiosidade, fazer perguntas, procurar informação e experimentar coisas novas sem receio. É perfeitamente natural não sabermos desde muito cedo qual será a nossa profissão.

Aconselho-as também a procurar conhecer pessoas que trabalhem nas áreas que lhes interessam. Hoje há muitas oportunidades para contactar investigadores, participar em atividades científicas, visitar universidades, frequentar programas de verão e descobrir diferentes profissões.

Por fim, não devem sentir que precisam de corresponder a um modelo específico. É possível gostar de ciência e dança, de matemática e literatura ou de engenharia e música. Os interesses não são incompatíveis e, muitas vezes, até se complementam.

Neste momento

Inês Margarida Carvalho

Inês Margarida Carvalho é técnica superior de intervenção social, com experiência em desenvolvimento comunitário, envelhecimento ativo e apoio a famílias. Colabora com projetos ligados ao CSPSJ, dedicando-se à promoção da inclusão, do bem-estar social e da participação da comunidade.

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