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Bactérias no pólen protegem abelhas e culturas agrícolas

Apicultor com equipamento protetor a examinar favo de mel cheio de abelhas numa colmeia ao ar livre.
Neste artigo
  1. O pólen como escudo protetor secreto na colmeia
  2. Compostos naturais contra doenças das abelhas e das plantas
  3. Como plantas, micróbios e abelhas formam uma rede
  4. Novas ferramentas para uma apicultura sustentável
  5. Uma oportunidade também para a agricultura
  6. O que apicultores e jardineiros amadores já podem fazer

As colónias de abelhas-melíferas enfrentam pressão em todo o mundo, ao mesmo tempo que os agricultores procuram garantir colheitas estáveis. Um estudo realizado nos Estados Unidos revela agora um aliado até aqui subvalorizado, escondido no pólen, capaz de reforçar a proteção tanto das colmeias como de culturas agrícolas importantes contra agentes patogénicos perigosos.

O pólen como escudo protetor secreto na colmeia

As abelhas-melíferas recolhem pólen sobretudo por ser uma fonte de proteínas. Todos os anos, quantidades enormes destes “pacotes de proteína” amarelos são armazenadas nos favos. Durante muito tempo, assumiu-se que o pólen servia apenas de alimento. Porém, essa perspetiva é claramente insuficiente.

Investigadores do Washington College e da Universidade de Wisconsin-Madison analisaram amostras de pólen recolhidas em flores e diretamente em colmeias. Conseguiram isolar 34 estirpes distintas de actinobactérias. Cerca de 72% pertenciam ao género Streptomyces, reconhecido como uma verdadeira fábrica de antibióticos naturais.

No pólen encontra-se um arsenal microbiano que ajuda a defender simultaneamente as larvas de abelha e as plantas cultivadas contra agentes patogénicos.

O percurso destes microrganismos vai das plantas às abelhas e regressa à colmeia: as bactérias estão presentes nas flores, nas abelhas coletoras e, por fim, no pólen armazenado. Assim, durante os voos de recolha, estes insetos transportam não só grãos de pólen, mas também os micróbios que vivem neles.

Menos diversidade significa menor proteção

A riqueza microbiana do pólen está intimamente ligada à diversidade de plantas existente na área circundante. Uma paisagem variada, com muitas espécies floridas, disponibiliza também uma seleção mais ampla de microrganismos benéficos. Em contrapartida, as monoculturas uniformes empobrecem este “recurso invisível”.

Isto chama a atenção para uma questão frequentemente esquecida nas discussões sobre proteção dos insetos: não contam apenas a quantidade de néctar e de pólen, mas também a sua qualidade microbiana. Quanto mais diversificada for a oferta floral, mais robustos poderão tornar-se os sistemas de defesa microbianos das colónias.

Compostos naturais contra doenças das abelhas e das plantas

A questão central do estudo era saber se as estirpes bacterianas isoladas conseguem realmente travar agentes patogénicos de forma eficaz. Para o verificar, os investigadores realizaram os clássicos testes de competição: em meios de cultura, as bactérias do pólen foram colocadas perante agentes causadores de doenças já conhecidos.

Foram analisados seis micróbios particularmente problemáticos:

  • Para as abelhas: Aspergillus niger (causa cria-pedra), Paenibacillus larvae (responsável pela loque americana), Serratia marcescens (um oportunista na colmeia).
  • Para as plantas: Erwinia amylovora (fogo bacteriano, por exemplo em macieiras), Pseudomonas syringae, Ralstonia solanacearum (associada, entre outros problemas, a doenças de murchidão e podridões radiculares em culturas agrícolas).

O resultado foi claro: quase todas as estirpes de Streptomyces testadas inibiram de forma significativa o crescimento de Aspergillus niger. Esta infeção fúngica é especialmente insidiosa para as abelhas, pois pode circular discretamente na colmeia e transformar as larvas em múmias duras, semelhantes a pedra.

Diversas estirpes bacterianas também atuaram contra Paenibacillus larvae. Esta bactéria provoca a temida loque americana, capaz de destruir colónias inteiras e de levar à imposição de medidas de controlo em regiões completas. Por isso, qualquer abordagem que dispense os antibióticos convencionais desperta grandes expectativas.

Do lado das plantas, as bactérias presentes no pólen também demonstraram eficácia: abrandaram agentes patogénicos responsáveis pelo fogo bacteriano, por doenças de murchidão e por podridões das raízes ou dos caules. Entre as plantas afetadas estão:

  • macieiras e pereiras;
  • tomateiros;
  • batateiras e outras culturas.

O que torna estas bactérias tão especiais

As estirpes isoladas de Streptomyces produzem um vasto conjunto de substâncias bioativas. O estudo menciona, entre outras:

Grupo de substâncias Propriedade
PoTeMs macrolactamas policíclicas com amplo espetro antimicrobiano
Surugamidas péptidos cíclicos que podem inibir o crescimento bacteriano
Loboforinas moléculas antibióticas conhecidas, eficazes contra vários micróbios
Sideróforos captadores de ferro que retiram aos agentes patogénicos um elemento essencial à vida

Muitos destes compostos são considerados relativamente estáveis, atuam contra diferentes agentes patogénicos e têm pouca ação sobre organismos não visados. São precisamente estas características que os tornam interessantes para aplicação em colmeias e em campos agrícolas.

Em vez de recorrer a uma solução química agressiva, o pólen disponibiliza um arsenal subtil, mas eficaz, de antibióticos naturais.

Como plantas, micróbios e abelhas formam uma rede

Mas qual é a origem destas bactérias benéficas? As análises genéticas dos investigadores indicam que não são simples “passageiros” acidentais do pólen. Estas estirpes vivem como endófitos nas plantas, colonizando os tecidos internos sem prejudicar o hospedeiro.

Para isso, dispõem de ferramentas genéticas específicas, tais como:

  • enzimas que tornam mais permeáveis as paredes celulares das plantas;
  • capacidade de produzir hormonas vegetais, como auxina e citocininas;
  • sideróforos como a desferrioxamina, que permitem ligar o ferro no solo ou nos tecidos vegetais.

Desta forma, as bactérias deslocam-se pelos caules, folhas e flores. Aí, chegam ao pólen e são transportadas pelas abelhas durante a recolha. Já na colmeia, continuam a produzir compostos antimicrobianos, ajudando a proteger a criação e as reservas alimentares.

Forma-se, assim, uma espécie de relação triangular: as plantas fornecem às abelhas pólen e endófitos úteis; por sua vez, os micróbios protegem plantas e abelhas contra agentes patogénicos. Este sistema delicadamente equilibrado pode ser perturbado quando, por exemplo, diminui a diversidade vegetal ou são aplicados pesticidas em grandes áreas.

Novas ferramentas para uma apicultura sustentável

Até agora, muitos apicultores recorrem a antibióticos como a oxitetraciclina ou a tilosina quando enfrentam doenças graves da criação. Esta estratégia apresenta vários inconvenientes: altera a flora intestinal das abelhas, aumenta o risco de micróbios resistentes e pode deixar resíduos na cera ou no mel.

Em alguns países, estudos já relatam agentes de loque que quase deixaram de responder a determinados compostos. À medida que surgem mais resistências, menor se torna a margem de ação disponível para a apicultura.

É precisamente neste ponto que entram as novas conclusões. Se for possível estabelecer de forma direcionada estirpes benéficas de Streptomyces nas colónias, a “defesa microbiana” interna das abelhas poderá ser reforçada sem perturbar o equilíbrio ecológico da colmeia.

Entre as possíveis estratégias discutidas no meio científico estão:

  • inocular colónias com estirpes bacterianas adaptadas localmente através de pólen tratado;
  • adicionar os micróbios a pastas alimentares ou xaropes;
  • promover determinadas plantas floridas que transportem um número particularmente elevado de endófitos úteis.

A visão é esta: as abelhas não recebem medicamentos do exterior, mas levam para casa as suas próprias bactérias protetoras.

Uma oportunidade também para a agricultura

A ação das bactérias do pólen não termina à entrada da colmeia. Uma vez que várias estirpes também suprimem micróbios perigosos para as plantas, estas ganham relevância como potenciais produtos de proteção biológica das culturas. Por exemplo, preparações específicas poderiam revestir sementes ou ser aplicadas no solo, permitindo que as plantas cresçam desde o início acompanhadas por endófitos protetores.

Isto abre aos agricultores a possibilidade de reduzir a utilização de fungicidas e bactericidas sintéticos, sem colocar em risco perdas acentuadas de produção. Os agentes patogénicos resistentes poderiam ser contidos por uma diversidade de microrganismos antagonistas, em vez de exigir constantemente novos compostos químicos.

Porque as faixas floridas são mais do que decoração

O estudo acrescenta uma nova dimensão ao debate sobre paisagens ricas em flores. As faixas floridas, sebes e prados com grande diversidade de espécies não fornecem apenas néctar e habitat: funcionam também como uma espécie de “banco de micróbios”. A partir destes espaços, as bactérias benéficas chegam às colmeias e aos campos através do pólen.

Por isso, quem promove estruturas paisagísticas com muitas espécies autóctones diferentes reforça indiretamente a saúde microbiana dos polinizadores e das culturas. A longo prazo, isto pode reduzir para as explorações agrícolas os custos associados à proteção das plantas e às perdas de abelhas.

O que apicultores e jardineiros amadores já podem fazer

A aplicação prática destas novas abordagens ainda está numa fase inicial, e permanecem muitas questões por esclarecer, incluindo a segurança, a dosagem ideal e a conjugação com métodos de tratamento já existentes. Ainda assim, o trabalho permite retirar algumas recomendações aplicáveis no dia a dia:

  • Maior diversidade floral em redor do apiário: misturas de flores silvestres autóctones, ervas aromáticas e arbustos favorecem uma combinação diversificada de micróbios do pólen.
  • Utilização criteriosa de produtos fitofarmacêuticos: reduzir pulverizações de largo espetro no jardim ou no campo preserva não apenas os insetos, mas também os microrganismos úteis.
  • Dar preferência a plantas regionais: as espécies adaptadas localmente transportam frequentemente comunidades microbianas estabelecidas, compatíveis com as abelhas da região.

Para os jardineiros amadores, isto significa que cada zona florida adicional e diversificada pode ser mais do que um bonito apontamento de cor: pode atuar como um pequeno posto de saúde para os polinizadores e como uma proteção para as plantas cultivadas no próprio jardim.

Termos como “endófito” ou “sideróforo” podem, à primeira vista, soar a jargão de laboratório, mas descrevem processos muito concretos: os endófitos são simplesmente micróbios que vivem nos tecidos vegetais e que frequentemente estabelecem com os seus hospedeiros uma espécie de “contrato de arrendamento em troca de proteção”. Os sideróforos assemelham-se a minúsculos braços de preensão que roubam ferro para o fornecer à sua própria célula, deixando assim os agentes patogénicos sem recursos.

Quanto melhor forem compreendidas estas relações subtis entre plantas, micróbios e abelhas, mais precisamente será possível criar ecossistemas nos quais a química seja uma solução de último recurso, e não uma prática habitual. É exatamente neste ponto que se inserem as novas descobertas sobre as bactérias presentes no pólen.

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Inês Margarida Carvalho

Inês Margarida Carvalho é técnica superior de intervenção social, com experiência em desenvolvimento comunitário, envelhecimento ativo e apoio a famílias. Colabora com projetos ligados ao CSPSJ, dedicando-se à promoção da inclusão, do bem-estar social e da participação da comunidade.

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