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Vitamina C e evolução: as capacidades perdidas dos primatas

Jovem cientista em bata branca analisa uma tangerina cortada em laboratório com frutas e gráficos na mesa.
Neste artigo
  1. Quando um gene desaparece, recuperar a função torna-se quase impossível
  2. Outras capacidades antigas deixaram cicatrizes no nosso genoma
  3. O que estas portas fechadas revelam sobre a nossa própria fragilidade

Num jardim zoológico, diante de um vidro ligeiramente riscado, uma criança estende uma laranja a um macaco que a observa sem compreender verdadeiramente o gesto. A imagem parece comum, quase enternecedora. No entanto, este fruto encerra uma antiga história biológica: há milhões de anos, alguns antepassados dos primatas perderam a capacidade de produzirem a própria vitamina C. Desde então, tal como nós, têm de a obter através da alimentação. Estudo após estudo recorda uma realidade inquietante: a evolução raramente recua. Quando um gene se deteriora, desaparece ou permanece inútil durante milhões de anos, repará-lo é quase milagroso. Aquilo de que a natureza abdona nem sempre regressa.

Todos conhecemos a sensação de pensar que, com tempo suficiente, tudo acabará por voltar ao normal. Em biologia, esta ideia é apelativa, mas confronta-se com uma realidade bem mais dura: certas alterações acumuladas no genoma fecham portas durante períodos muito longos. Nos primatas, várias capacidades ancestrais foram perdidas e, mais tarde, substituídas por hábitos alimentares, mecanismos de compensação ou novas adaptações. Não é uma catástrofe percetível no dia a dia. Ainda assim, sob a pele e dentro das células, persistem marcas de um passado que, provavelmente, não voltará a repetir-se. E esta história diz-nos diretamente respeito.

Quando um gene desaparece, recuperar a função torna-se quase impossível

O exemplo mais elucidativo é o da vitamina C. A maioria dos mamíferos consegue produzi-la no fígado graças a uma enzima codificada pelo gene GULO; os seres humanos, os macacos e vários outros primatas não o conseguem fazer. Nos nossos remotos antepassados haplorrinos, este gene deixou de funcionar há cerca de 60 milhões de anos, numa época em que a abundância de frutos garantia as necessidades nutricionais. Enquanto a alimentação compensava essa perda, a seleção natural não tinha motivo para consertar o mecanismo. Assim, o gene foi-se degradando, fragmento a fragmento, até se transformar numa espécie de ruína molecular.

Esta perda está longe de ser um pormenor. Uma deficiência grave de vitamina C causa escorbuto, com cansaço intenso, hemorragias e má cicatrização; os marinheiros de séculos passados aprenderam-no dolorosamente. Nos adultos, as recomendações situam-se, em geral, entre 75 e 90 miligramas diários, consoante as referências de saúde e as circunstâncias. Um kiwi, uma laranja ou um pimento podem contribuir amplamente para satisfazer esta necessidade. Sejamos sinceros: ninguém faz estes cálculos todos os dias. Porém, esta dependência da alimentação é a herança direta de uma decisão evolutiva que nunca foi uma decisão.

Recuperar a capacidade de fabricar vitamina C não seria apenas voltar a ligar um interruptor. Seria necessário reconstruir um gene funcional, colocá-lo no local adequado e garantir que atua nos tecidos certos, no momento certo, sem perturbar o restante metabolismo. A teoria da evolução designa isto por lei de Dollo: uma estrutura complexa perdida pode, por vezes, ser substituída por outra, mas raramente reaparece na sua forma original. A irreversibilidade não é absoluta; é sobretudo uma questão de probabilidade. Após milhões de anos de mutações, essa probabilidade torna-se ínfima.

Outras capacidades antigas deixaram cicatrizes no nosso genoma

Para analisar estas perdas sem cair no sensacionalismo, há um método simples: procurar aquilo que substituiu a função desaparecida. No caso da vitamina C, uma dieta rica em vegetais funcionou como rede de segurança. Noutros genes, o desaparecimento pode ter estado associado a alterações do ambiente, da alimentação ou do modo de vida. Por isso, ao ler um estudo sobre o tema, convém colocar três perguntas concretas: que gene está em causa, há quanto tempo está inativo e que solução biológica permitiu à espécie continuar a viver? Frequentemente, estes pormenores revelam muito mais do que um título chamativo.

Um erro comum é assumir que a perda de um gene corresponde inevitavelmente a uma fragilidade. A evolução não procura a perfeição nem o conforto: preserva, acima de tudo, o que permite sobreviver e transmitir genes num determinado contexto. Nos grandes símios e nos seres humanos, a perda da uricase, uma enzima que ajuda muitos mamíferos a eliminar o ácido úrico, é muitas vezes estudada sob esta perspetiva. Pode ter proporcionado vantagens em certos ambientes antigos, antes de se tornar, por vezes, problemática na vida moderna. O nosso genoma nunca foi um manual de otimização.

Os geneticistas estudam também a perda do gene CMAH na linhagem humana, ocorrida há vários milhões de anos. Este gene participava na produção de um determinado tipo de ácido siálico presente na superfície das células; o seu desaparecimento alterou a nossa relação com certos agentes infeciosos, mas também a nossa biologia imunitária.

«A natureza não dá saltos», escreveu Charles Darwin, lembrando que as grandes transformações resultam frequentemente de uma longa sequência de pequenas alterações.

  • Um gene pode tornar-se dispensável quando o ambiente muda.
  • Uma função perdida pode ser compensada pela alimentação ou por outro mecanismo.
  • Uma reconstrução idêntica é teoricamente possível, mas extraordinariamente improvável.

O que estas portas fechadas revelam sobre a nossa própria fragilidade

Há algo de quase íntimo nesta ideia: todos transportamos ausências herdadas. O nosso corpo é capaz de feitos notáveis, mas também depende de uma peça de fruta, de uma alimentação diversificada e de um ambiente menos hostil do que aquele que alguns dos nossos antepassados enfrentaram. A perda da síntese de vitamina C não é uma curiosidade limitada aos laboratórios; recorda-nos que a saúde humana está ligada a uma história muito antiga, marcada por abundância sazonal, limitações e compromissos. Os primatas não “falharam” ao perder uma capacidade. Simplesmente seguiram outro caminho.

Esta perspetiva convida a desconfiar dos discursos que apresentam a evolução como uma subida contínua rumo ao melhor. Uma característica pode desaparecer sem drama e tornar-se incómoda quando o mundo à sua volta se transforma bruscamente. A alimentação industrial, o sedentarismo, o aumento da longevidade ou a globalização das doenças criam hoje condições que os nossos antepassados nunca conheceram. A nossa biologia antiga tem de se adaptar a um quotidiano novo, por vezes demasiado rápido para ela. Trata-se de uma tensão silenciosa, mas visível em muitos problemas de saúde modernos.

Imaginar as portas que a evolução fechou também permite olhar de outra forma para os restantes primatas. Tal como o nosso, o seu genoma não é um museu imóvel: conserva vestígios, remendos improvisados e funções abandonadas. Partilhar esta história num passeio, numa visita ao jardim zoológico ou durante uma refeição em que uma laranja passa de mão em mão pode parecer algo modesto. Ainda assim, é uma forma de recordar que o ser humano não está separado do mundo vivo. É um dos seus capítulos mais recentes, com recursos surpreendentes e lacunas impossíveis de apagar.

Ponto essencial Pormenor Valor acrescentado para o leitor
Vitamina C Os seres humanos e vários primatas perderam o gene GULO funcional. Compreender porque é que a alimentação continua a ser indispensável.
Regresso evolutivo Reconstruir uma função complexa desaparecida exige uma sucessão de mutações altamente improvável. Ler os anúncios científicos com maior nuance.
Genoma humano Perdas como as da uricase ou do CMAH moldaram a nossa biologia atual. Relacionar a saúde moderna com uma antiga história evolutiva.

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Inês Margarida Carvalho

Inês Margarida Carvalho é técnica superior de intervenção social, com experiência em desenvolvimento comunitário, envelhecimento ativo e apoio a famílias. Colabora com projetos ligados ao CSPSJ, dedicando-se à promoção da inclusão, do bem-estar social e da participação da comunidade.

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