É razoável pressupor que participar num retiro de meditação de sete dias tenha um efeito calmante e regenerador numa pessoa.
Afinal, aulas de meditação guiada, rituais de cura e sessões sobre como alcançar estados transcendentais… parece bastante apelativo, não é? É certamente melhor do que apanhar o autocarro para ir trabalhar.
Contudo, este tipo de actividades poderá ser muito mais transformador do que imaginávamos.
Segundo cientistas, quando combinadas, parecem exercer um efeito surpreendentemente profundo e marcante tanto no corpo como na mente.
Um estudo publicado em 2025 na revista Communications Biology concluiu que frequentar um retiro de meditação de sete dias esteve associado a uma espécie de reprogramação neural nos participantes, capaz de produzir alterações potencialmente benéficas para a saúde.
“Não se trata apenas de aliviar o stress ou de relaxar”, afirmou Hemal Patel, investigador biomédico da UC San Diego.
“Trata-se de mudar de forma fundamental a maneira como o cérebro interage com a realidade e de quantificar biologicamente essas mudanças.”
Embora os resultados não comprovem uma relação de causa e efeito - tratou-se apenas de um pequeno estudo observacional -, indicam que os efeitos da meditação e de actividades associadas poderão ser mais intensos e abrangentes do que se pensava.
Como decorreu o retiro de meditação
Patel e a sua equipa acompanharam 20 adultos saudáveis, escolhidos aleatoriamente entre mais de 500 participantes num retiro de meditação e saúde realizado em San Diego.
Ao longo dos sete dias, os participantes assistiram diariamente a palestras que salientavam as capacidades de autocura do corpo, a aptidão da mente para moldar a realidade e o poder curativo de estar centrado no presente e de vivências de tipo místico.
Participaram também em sessões de meditação guiada, nas quais praticaram técnicas de respiração consciente, e em rituais colectivos de cura. Nestes últimos, os «curadores» meditavam enquanto concentravam a atenção num elemento do grupo.
Dos 20 participantes do estudo - 14 mulheres e 6 homens, com uma idade média de cerca de 46 anos -, 11 eram meditadores experientes, com pelo menos seis meses de prática destas técnicas, enquanto os outros 9 eram principiantes.

Os efeitos da meditação e de actividades relacionadas poderão ser mais poderosos e abrangentes do que imaginávamos. (ArtistGNDphotography/Getty Images Signature/Canva)
Para além das actividades do retiro já descritas, os participantes realizaram vários testes antes e depois do evento.
Estes incluíram exames ao cérebro por ressonância magnética funcional (fMRI), análises ao plasma sanguíneo e o preenchimento de um questionário criado para avaliar experiências e sensações associadas a estados místicos. Isto ocorreu mesmo sem o consumo de drogas psicadélicas, que não foram utilizadas pelos participantes do estudo.
Depois de participarem no retiro de meditação, os participantes apresentaram alterações significativas em vários testes.
Ainda que não seja possível concluir que as actividades de meditação tenham provocado essas mudanças - não existiu, por exemplo, um grupo de controlo com o qual comparar os resultados, tratando-se exclusivamente de dados observacionais -, as conclusões dos investigadores são certamente interessantes.
Alterações cerebrais e biológicas após a meditação
Os dados de fMRI revelaram que, após a meditação, havia menor actividade cerebral na rede de modo padrão, associada ao pensamento autorreferencial e orientado para o interior. A actividade cerebral diminuiu igualmente na rede de saliência, que contribui para detectar estímulos internos e externos.
De acordo com os investigadores, a meditação pareceu diminuir o nível de actividade segmentada no cérebro, levando a um estado funcional de todo o cérebro no qual a informação circulava com maior eficiência.
Para averiguarem se as actividades de meditação poderiam ter influenciado a neuroplasticidade dos participantes, os investigadores aplicaram plasma sanguíneo colhido após a meditação a neurónios numa placa de laboratório. Observaram que as células desenvolveram neuritos significativamente mais longos - prolongamentos ramificados da célula - do que as células tratadas com plasma recolhido antes do retiro.
Outros indicadores de alteração identificados no sangue dos participantes incluíram uma transição para o metabolismo glicolítico, sinais de modulação imunitária e aumentos de opióides endógenos, substâncias naturais do organismo que aliviam a dor.
As respostas dadas depois do retiro no Questionário de Experiência Mística (MEQ–30) indicaram que as pontuações dos participantes aumentaram significativamente, de 2.37 para 3.02. Os investigadores referem que este resultado é comparável aos observados com o uso de substâncias psicadélicas.
“Estamos a observar as mesmas experiências místicas e padrões de conectividade neural que habitualmente exigem psilocibina, agora alcançados apenas através da prática de meditação”, disse Patel.
“Ver simultaneamente alterações no sistema nervoso central nas imagens cerebrais e mudanças sistémicas na química do sangue realça que estas práticas mente-corpo actuam à escala de todo o organismo.”
Importa referir que um dos coautores do estudo, Joe Dispenza, é o diretor executivo da empresa Encephalon, que organiza os retiros de meditação descritos na investigação e comercializa ainda o acesso a outros conteúdos de meditação e cura.
Limitações do estudo e investigação sobre meditação
Entre as outras limitações a considerar está o facto de este ser um estudo pequeno e incapaz de demonstrar causalidade. Os próprios investigadores reconhecem-no e defendem estudos futuros com desenhos mais rigorosos e controlados, que permitam medir de que modo, e se, a meditação poderá desencadear estas alterações.
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Apesar de ser necessária prudência na interpretação destes resultados, esta não é certamente a primeira investigação a sugerir que a meditação pode ter efeitos poderosos.
Outro estudo recente reuniu evidências de que a meditação remodela a actividade cerebral, enquanto outros trabalhos indicam que a meditação pode ajudar a aliviar a dor ou a reduzir o impacto do stress e do envelhecimento.
Ainda não sabemos realmente até onde poderão chegar estes efeitos.
Mas estamos mais perto de o compreender.
“Há anos que sabemos que práticas como a meditação podem influenciar a saúde”, afirmou Patel.
“Mas o mais impressionante é que reunir várias práticas mente-corpo num único retiro produziu alterações em tantos sistemas biológicos, que conseguimos medir directamente no cérebro e no sangue.”
As conclusões foram publicadas na Communications Biology.
Este artigo foi verificado por Rebecca Dyer e editado por Rebecca Dyer. Embora tenhamos orgulho no nosso processo, somos apenas humanos. Se detectar um erro, informe-nos.







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