O consumo de canábis pode deixar marcas persistentes no organismo humano, sugere um estudo publicado em 2023 com mais de 1.000 adultos - não no próprio código do ADN, mas na forma como esse código é expresso.
Investigadores dos EUA concluíram que a canábis poderá provocar alterações no epigenoma, que funciona como um conjunto de interruptores capazes de ligar ou desligar genes envolvidos no funcionamento do corpo. Estas conclusões foram validadas por uma revisão sistemática da literatura, publicada em 2024 por investigadores em Portugal.
“Observámos associações entre o consumo cumulativo de marijuana e múltiplos marcadores epigenéticos ao longo do tempo”, explicou em 2023 a epidemiologista Lifang Hou, da Universidade Northwestern.
Consumo de canábis e alterações epigenéticas
A canábis é uma substância frequentemente consumida nos EUA: quase metade dos norte-americanos já a experimentou pelo menos uma vez, referem Hou e a sua equipa no artigo publicado.
Embora alguns estados norte-americanos e outros países tenham legalizado o uso de canábis, os seus efeitos na saúde continuam por compreender totalmente.
Para analisar esta questão, os cientistas recorreram a dados de um estudo de saúde de longa duração que acompanhou cerca de 1.000 adultos durante duas décadas.
No início do estudo, os participantes tinham entre 18 e 30 anos. Ao longo dos anos, responderam a questionários sobre o consumo de canábis e forneceram amostras de sangue aos 15 e aos 20 anos de acompanhamento.
Com base nestas amostras, recolhidas com cinco anos de intervalo, Hou e os seus colegas analisaram alterações epigenéticas - em particular, os níveis de metilação do ADN - em pessoas que tinham consumido canábis recentemente ou durante períodos prolongados.
A adição ou remoção de grupos metilo no ADN é uma das modificações epigenéticas mais estudadas.
Sem alterar a sequência genómica, a metilação do ADN influencia a facilidade com que as células “leem” e interpretam os genes, como se alguém ocultasse linhas essenciais num conjunto de instruções.
Fatores ambientais e relacionados com o estilo de vida podem desencadear estas alterações de metilação, que podem ser transmitidas às gerações seguintes. Além disso, os biomarcadores presentes no sangue podem revelar exposições recentes e históricas.
“Já tínhamos identificado associações entre o consumo de marijuana e o processo de envelhecimento, tal como é registado através da metilação do ADN”, afirmou Hou.
“Pretendíamos aprofundar a investigação para perceber se fatores epigenéticos específicos estavam associados à marijuana e se esses fatores tinham relação com resultados de saúde.”
Marcadores de ADN associados ao uso de canábis
Os dados detalhados sobre o consumo de canábis pelos participantes permitiram aos investigadores estimar o uso cumulativo ao longo do tempo, bem como o consumo recente, e compará-los com marcadores de metilação do ADN no sangue.
Nas amostras de sangue recolhidas aos 15 anos, identificaram numerosos marcadores de metilação do ADN: 22 associados ao uso recente e 31 ligados ao consumo cumulativo de canábis.
Nas amostras obtidas aos 20 anos, foram identificados 132 marcadores relacionados com o uso recente e 16 associados ao uso cumulativo.
“Curiosamente, identificámos de forma consistente um marcador que já tinha sido associado ao consumo de tabaco”, explicou Hou, “o que sugere uma possível regulação epigenética comum ao uso de tabaco e de marijuana.”
Várias alterações epigenéticas relacionadas com o uso de canábis já tinham sido associadas a aspetos como a proliferação celular, a sinalização hormonal, infeções, perturbações neurológicas - incluindo esquizofrenia e perturbação bipolar - e perturbações relacionadas com o consumo de substâncias.
Limites do estudo sobre canábis e saúde
É importante salientar que este estudo não demonstra que a canábis cause diretamente estas alterações nem que provoque problemas de saúde.
“Esta investigação proporcionou novos conhecimentos sobre a associação entre o consumo de marijuana e fatores epigenéticos”, declarou o epidemiologista Drew Nannini, da Universidade Northwestern.
“São necessários estudos adicionais para determinar se estas associações são observadas de forma consistente em populações diferentes. Além disso, estudos que analisem o efeito da marijuana nos resultados de saúde relacionados com a idade poderão fornecer mais informação sobre o efeito a longo prazo da marijuana na saúde.”
O estudo foi publicado na revista Molecular Psychiatry.
Uma versão anterior deste artigo foi publicada em julho de 2023.






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