Um número espantoso de galáxias brilhantes, um berçário estelar em tons de roxo e laranja e uma galáxia espiral semelhante à nossa Via Láctea: o telescópio espacial europeu Euclid revelou novas imagens na quinta-feira.
Trata-se do segundo conjunto de imagens divulgado pela Agência Espacial Europeia desde o lançamento do Euclid, no ano passado, para a primeira missão dedicada a investigar os mistérios da matéria escura e da energia escura.
Também foram agora publicados, pela primeira vez, resultados científicos da missão de seis anos, que pretende aproveitar o seu amplo campo de visão para cartografar dois mil milhões de galáxias em um terço do céu.
O cientista do projeto Euclid, Rene Laureijs, disse à AFP que ficou «pessoalmente mais entusiasmado» com a imagem de um enorme aglomerado de galáxias denominado Abell 2390.
A imagem deste aglomerado, situado a 2,7 mil milhões de anos-luz da Terra, inclui mais de 50 000 galáxias.
Uma única galáxia - como a nossa - pode albergar centenas de milhares de milhões, ou até biliões, de estrelas.
Só o Abell 2390 possui uma massa equivalente à de cerca de 10 biliões de sóis, declarou Jason Rhodes, do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, numa conferência de imprensa online.
A imagem revelou igualmente indícios de matéria escura, cuja presença invisível só pode ser identificada ao observar-se a forma como a sua gravidade distorce a luz.
«Há tanta matéria escura neste aglomerado que curva intensamente a luz proveniente de algumas destas galáxias de fundo», fazendo com que pareçam arqueadas, explicou Rhodes.
Pensa-se que a matéria escura e a energia escura constituem 95 por cento do universo - mas sabemos muito pouco sobre ambas.
Indícios de matéria escura no Abell 2390
A imagem do Abell 2390 também sugeriu a existência de matéria escura ao mostrar a luz ténue de «estrelas órfãs» que vagueiam entre os aglomerados de galáxias.
Estas estrelas são expulsas das galáxias, «criando uma espécie de nuvem que envolve todo o aglomerado», explicou à AFP o cientista francês Jean-Charles Cuillandre.
Os astrónomos consideram que este fenómeno invulgar aponta para a presença de matéria escura entre as galáxias.
Nasce uma estrela
O Euclid captou ainda a imagem mais profunda de sempre de Messier 78, um berçário onde nascem estrelas, localizado a 1 300 anos-luz da Terra, na constelação de Orionte.
As estrelas continuam a formar-se no centro azulado da imagem. Depois de se desenvolverem durante milhões de anos, emergem das nuvens roxas e laranja visíveis na parte inferior.
Laureijs sublinhou que «só o Euclid consegue mostrar isto numa única imagem».
Isso deve-se ao campo de visão muito amplo do Euclid, em contraste com o do telescópio espacial James Webb, que observa mais longe e se encontra numa posição estável a 1,5 milhões de quilómetros da Terra.
Outros retratos do telescópio espacial Euclid
Outra imagem, do enorme aglomerado de galáxias Abell 2764, mostra uma extensão escura onde sobressai uma estrela amarela.
Cuillandre reconheceu que a imagem resultou de um erro ao apontar o telescópio. Ainda assim, afirmou que ela demonstra «a capacidade absolutamente única do Euclid para concentrar luz», pois conseguiu detetar objetos muito ténues junto da estrela brilhante.
A imagem do Euclid do jovem aglomerado Dorado trouxe uma surpresa. Apesar de o aglomerado já ter sido bem estudado, os cientistas disseram que o Euclid descobriu uma galáxia anã nunca antes observada.
«Nunca vi nada parecido», afirmou Cuillandre.
Na quinta imagem, a galáxia espiral NGC 6744 - com uma semelhança impressionante à Via Láctea - estende-se sobre um fundo de estrelas cintilantes.
No rasto da matéria escura
A missão ainda está numa fase inicial, e as cinco novas imagens foram obtidas num único dia.
Nos próximos anos, os cientistas tencionam analisar os dados do Euclid à procura de todo o tipo de corpos celestes, como planetas «errantes», que flutuam livremente pelo universo sem estarem ligados a uma estrela.
No entanto, os investigadores já analisam o primeiro lote de imagens do Euclid, divulgado em novembro.
Num dos 10 estudos de pré-publicação lançados na quinta-feira, os cientistas investigaram estrelas órfãs no aglomerado de Perseu.
Estas estrelas perdidas «estão agora aprisionadas na gravidade da matéria escura», afirmou Laureijs.
Trata-se ainda apenas de uma «deteção indireta de matéria escura», salientou, acrescentando que era demasiado cedo «para dizer algo sobre a energia escura».
A missão não decorreu inteiramente sem dificuldades.
Em março, uma operação delicada derreteu com êxito uma fina camada de gelo que vinha a obscurecer lentamente a visão do telescópio, através do aquecimento de um dos seus espelhos.
Há indícios de que o gelo está novamente a acumular-se, disse Laureijs, acrescentando que a equipa tem tempo para estudar o que fazer a seguir.
© Agence France-Presse






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