Para o cérebro humano, o rosto de outra pessoa tem algo de especial. Uma parte considerável do processamento neurológico é dedicada a interpretar rapidamente as feições, distinguindo rostos familiares de desconhecidos que possam representar uma ameaça.
Um homem norte-americano de 58 anos que recorreu ao Departamento de Ciências Psicológicas e do Cérebro do Dartmouth College vê o mundo de forma diferente. Na sua mente, o mesmo sistema de leitura facial estica e deforma os rostos até lhes dar um aspeto monstruoso, ou até demoníaco.
Diagnosticado com uma doença neurológica rara chamada prosopometamorfopsia, ou PMO, o paciente oferece aos investigadores uma oportunidade única para compreender melhor como os sistemas visuais processam habitualmente os traços que permitem distinguir amigos de inimigos.
Como a prosopometamorfopsia altera os rostos
Durante mais de dois anos e meio antes de visitar o laboratório de Dartmouth, o homem viu os rostos à sua volta transformarem-se em caricaturas grotescas. Surgiam sulcos nas testas, nas bochechas e nos queixos, enquanto os olhos e as bocas se alongavam.
A experiência começou por ser angustiante, mas, com o tempo, habituou-se às máscaras bizarras que a sua mente sobrepunha às pessoas que encontrava. Continuava a reconhecê-las e manteve uma perceção clara da realidade: por mais assustadoras que fossem as imagens, sabia que não estava a ver verdadeiros demónios.
Ainda assim, havia algo de errado, pois nem sempre tinha vivido desta forma. O seu historial de perturbação bipolar ou de perturbação de stress pós-traumático poderia estar relacionado com o fenómeno? Talvez o traumatismo craniano grave que sofreu no início dos 40 anos tivesse deixado alguma sequela, ou a dose tóxica de monóxido de carbono que inalou quatro meses antes do aparecimento das distorções tivesse desempenhado algum papel.
Quando os psicólogos do Dartmouth College Antônio Mello, Daniel Stehr, Krzysztof Bujarski e Brad Duchaine realizaram uma série de testes, perceberam que o caso não correspondia inteiramente à forma habitual de manifestação da PMO.
A doença pode apresentar-se de várias maneiras: pode transformar pessoas em demónios ou dragões, fazer inchar a parte inferior do rosto e as bochechas, afinar o nariz ou aumentar os olhos. No entanto, costuma afetar tanto as imagens planas de rostos como os rostos vistos ao vivo.
Uma oportunidade para estudar a prosopometamorfopsia
“Noutros estudos sobre a doença, os pacientes com PMO não conseguem avaliar até que ponto uma representação visual das suas distorções corresponde ao que veem, porque a própria representação também mostra um rosto e, por isso, eles percecionam distorções nela”, explica Mello, autor principal do estudo de caso.
Neste caso, apenas os rostos vistos ao vivo eram afetados. Uma fotografia das mesmas feições não apresentava distorções, o que deu aos investigadores uma oportunidade única de mapear com precisão as alterações dos traços. Ao mostrarem ao homem fotografias de voluntários presentes na sala, puderam estudar comparações detalhadas entre as imagens contrastantes.
Historicamente, a prosopometamorfopsia era considerada uma forma de cegueira facial, ou prosopagnosia. Está, contudo, a tornar-se claro que as duas doenças não têm necessariamente de ocorrer em conjunto e que os mecanismos subjacentes apenas se sobrepõem parcialmente.
A PMO é agora encarada como uma distorção visual e integra cerca de 40 exemplos do que é conhecido como síndrome de Alice no País das Maravilhas. Esta síndrome altera geralmente a perceção, fazendo com que pessoas ou objetos pareçam maiores ou menores do que são na realidade.
Diagnóstico e acompanhamento do caso
Encontrar formas de distinguir doenças com causas neurológicas semelhantes, mesmo quando se manifestam de maneiras tão diferentes, é essencial para estabelecer prognósticos e tratamentos adequados.
“Várias pessoas com PMO disseram-nos que foram diagnosticadas por psiquiatras com esquizofrenia e medicadas com antipsicóticos, quando o que têm é um problema do sistema visual”, afirma Duchaine, psicólogo do Dartmouth College e autor sénior do estudo de caso.
No caso deste paciente, suspeita-se que a responsável possa ser uma pequena lesão de 1 centímetro, observada numa ressonância magnética na zona superior esquerda do hipocampo.
A boa notícia é que, após um ano de observação, a lesão não se alterou. Ao partilhar a sua experiência, o homem poderá também ajudar outras pessoas em situações semelhantes a sentirem-se menos angustiadas e sozinhas.
“Não é invulgar que as pessoas com PMO não contem aos outros que têm um problema de perceção dos rostos, por recearem que as distorções sejam interpretadas como sinal de uma perturbação psiquiátrica”, diz Duchaine.
“É um problema que muitas vezes as pessoas não compreendem.”
O estudo de caso foi publicado na revista The Lancet.






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