Nas duas décadas até 2019, a produção mundial de plástico duplicou. Até 2040, o fabrico e o processamento de plástico poderão consumir até 20% da produção mundial de petróleo e 15% do orçamento anual de emissões de carbono.
Grande parte do plástico que produzimos acaba por se tornar lixo. À medida que os fabricantes aumentam a produção, quantidades cada vez maiores irão parar aos aterros, rios e oceanos. Prevê-se que os resíduos plásticos tripliquem até 2060.
Os produtores remetem frequentemente a responsabilidade para os consumidores, apresentando os sistemas de reciclagem como solução para a poluição por plástico. Se reciclarmos os nossos plásticos, a quantidade produzida não deverá importar - certo?
Não é bem assim. A questão essencial é saber até que ponto a produção de plástico e a poluição estão relacionadas. A nossa nova investigação concluiu que a relação é direta: um aumento de 1% na produção de plástico conduz a um aumento de 1% na poluição por plástico, ou seja, em resíduos não geridos, como garrafas nos rios e plástico a flutuar nos oceanos.
Além disso, mais de metade da poluição por plástico com marca identificável está associada a apenas 56 empresas em todo o mundo. A Coca-Cola Company é responsável por 11% desses resíduos e a PepsiCo por 5%. Se estas empresas adotarem planos eficazes de redução do plástico, poderemos observar uma diminuição mensurável do plástico no ambiente.
O problema só tende a tornar-se mais urgente. Os especialistas calculam que, até ao final da presente década, mais 53 milhões de toneladas irão parar aos oceanos todos os anos. Isso é prejudicial para nós e para outras espécies.
Os plásticos podem causar danos reais à nossa saúde: o primeiro contacto com eles começa ainda no útero. Nos mares, podem provocar a asfixia de tartarugas e aves marinhas. Em terra, podem contaminar as águas subterrâneas. Os custos sociais e económicos da poluição por plástico rondam atualmente os 3,8 biliões de dólares australianos por ano.
Esta semana, os negociadores estão reunidos no Canadá para prosseguir a elaboração de um tratado mundial sobre plásticos juridicamente vinculativo.
Plástico fantástico?
Nas décadas de 1960 e 1970, os plásticos eram considerados uma maravilha da modernidade. Depressa se tornaram comuns e, depois, omnipresentes. Os plásticos de utilização única surgiram por todo o lado. Quando são descartados nas bermas das estradas ou nos rios, podem acabar por chegar ao oceano.
Atualmente, cerca de 36% de toda a poluição mundial por plástico provém do setor das embalagens, sob a forma de plásticos de utilização única.
Para perceber como a produção de plástico influencia os resíduos, recorremos a dados mundiais de auditorias ao lixo, isto é, levantamentos dos resíduos presentes no ambiente. Estes dados ajudam a compreender as alterações nos tipos e nos volumes de resíduos plásticos. Utilizámos cinco anos de dados de mais de 1500 auditorias realizadas em 84 países. Os levantamentos revelaram que 48% do lixo tinha uma marca identificável e 52% não tinha marca.
Para avaliar os níveis de produção, usámos dados comunicados por grandes empresas de plásticos a uma organização de economia circular e comparámo-los com os níveis de poluição por plástico com marca identificável.
Esperávamos que uma produção maior significasse mais resíduos, mas não uma correlação tão direta. É revelador que a proporção seja de 1:1. Isto significa que, quando as empresas produtoras de embalagens de plástico expandem as suas operações, contribuem diretamente para aumentar os resíduos no ambiente.
Verificámos que apenas 13 empresas contribuíam, cada uma, com 1% ou mais do total de plástico com marca identificável observado. Todas produzem alimentos, bebidas ou produtos de tabaco, geralmente embalados em plástico de utilização única.
Os produtos da Coca-Cola Company foram a principal fonte de poluição por plástico com marca identificável, representando 11% de todo esse lixo.
Atualmente, as empresas podem vender os seus produtos em plásticos de utilização única, cabendo aos consumidores reciclá-los ou colocá-los no lixo. Esta situação gera custos elevados para as autarquias, responsáveis pelos serviços de gestão de resíduos. Acresce o custo da degradação ambiental, que todos suportamos.
Muitas grandes empresas assumiram compromissos voluntários para reduzir o plástico. Contudo, muitas não estão a cumprir as suas metas, o que sugere que estas medidas voluntárias não estão a ser eficazes.
Existe uma alternativa melhor. Os sistemas de responsabilidade do produtor podem ajudar a transferir os custos e a responsabilidade dos consumidores para os produtores. Isto está em conformidade com o princípio do «poluidor-pagador»: as empresas que fabricam produtos que se tornam resíduos têm a responsabilidade de assegurar a sua gestão adequada.
Nos locais onde estes sistemas já estão em funcionamento, como na União Europeia, as empresas respondem frequentemente alterando as embalagens dos seus produtos. Se isso lhes custar dinheiro, agirão.
O problema dos plásticos de utilização única
Mesmo quando são recolhidos, os plásticos de utilização única constituem um fluxo de resíduos difícil de gerir, pois têm pouco ou nenhum valor para reciclagem. Por vezes, são queimados como combustível em fornos de cimento ou utilizados em instalações de valorização energética de resíduos.
A própria reciclagem pode ser uma fonte surpreendentemente significativa de microplásticos, uma vez que os métodos de reciclagem mecânica fragmentam as garrafas em pedaços minúsculos.
Acresce que a reciclagem não é um círculo, ao contrário do que o conhecido símbolo poderá sugerir. Quanto mais vezes reciclamos plástico, mais este se degrada. Acaba, por fim, por se tornar resíduo.
Para travar os resíduos plásticos, é preciso deixar de produzir mais plástico
Se a reciclagem e a deposição em aterro têm um alcance limitado, a peça que falta terá de ser a imposição de um limite à produção de plástico.
Como se concretizaria essa medida?
Passaria por exigir aos fabricantes que reduzissem progressivamente a quantidade de plástico nos seus produtos e adotassem alternativas seguras e sustentáveis ao plástico à medida que estas ficassem disponíveis.
Os países poderiam:
- definir metas mensuráveis para eliminar gradualmente produtos de utilização única não essenciais, perigosos e insustentáveis, como recipientes para comida para levar, talheres de plástico e sacos de plástico de utilização única;
- trabalhar na conceção de produtos seguros e sustentáveis para reduzir a procura mundial de plástico novo, aumentando simultaneamente a reutilização, o reenchimento, a reparação e a reciclagem;
- investir em alternativas e substitutos sem plástico, com melhores perfis sociais, económicos e ambientais, como os tradicionais produtos reutilizáveis.
E quanto aos 52% de resíduos plásticos sem marca? Para enfrentar este problema, são necessários melhores dados e maior responsabilização, por exemplo através de uma base de dados internacional de acesso aberto sobre os produtores de plástico ou de normas internacionais para a identificação das marcas nas embalagens. A Austrália está a avançar nesse sentido com as reformas previstas para as embalagens.
Uma coisa é certa: as tendências atuais apontam para quantidades cada vez maiores de plástico, e mais plástico significa mais poluição por plástico.
Kathryn Willis, investigadora de pós-doutoramento, CSIRO; Britta Denise Hardesty, investigadora científica principal sénior na área dos oceanos e da atmosfera, CSIRO; Katie Conlon, doutorada e investigadora, Universidade Estadual de Portland; e Win Cowger, diretor de investigação, Instituto Moore de Investigação sobre a Poluição por Plástico, Universidade da Califórnia, Riverside.
Este artigo é republicado a partir de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.






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