O cérebro humano poderá ter aumentado de tamanho de forma gradual, não porque a evolução tenha selecionado antepassados de cérebro maior, favorecendo a sua inteligência em detrimento da dos restantes, mas porque a energia destinada ao crescimento dos folículos ováricos que contêm óvulos foi antes canalizada para a cabeça.
A hipótese é de Mauricio González-Forero, biólogo evolutivo matemático da Universidade de St Andrews, no Reino Unido, que criou um modelo da expansão cerebral dos hominíneos, desde os australopitecos até aos humanos modernos.
Com base em trabalhos anteriores, González-Forero recorreu à matemática básica para elaborar equações que descrevem o crescimento dos tecidos cerebrais e corporais. As equações têm em conta os limites impostos pelos custos energéticos desse crescimento e pelas características genéticas que regulam a distribuição de energia no corpo em diferentes fases do desenvolvimento.
A conclusão de que a evolução e o desenvolvimento humanos dependeram mais da capacidade reprodutiva dos nossos antepassados do que do tamanho do cérebro é algo desconcertante para uma espécie tão orgulhosa dos seus cérebros excecionalmente grandes.
Teorias sobre o crescimento do cérebro humano
Não faltam, naturalmente, teorias para explicar por que razão o cérebro humano praticamente triplicou de tamanho ao longo de 4 milhões de anos, enquanto o dos antepassados distantes dos chimpanzés quase não mudou.
Mais recentemente, cientistas propuseram que o cérebro, que aumentou à medida que os intestinos diminuíam, poderá ter recebido os recursos necessários para crescer quando os nossos antepassados deixaram uma alimentação crua e começaram a experimentar alimentos fermentados. Como o cólon teria menos trabalho a processar esses alimentos, poderia ter ficado disponível mais energia para o crescimento cerebral.
Também trabalhos anteriores de González-Forero sugeriam que o aumento excecional do cérebro humano poderia resultar de uma reorganização do orçamento energético do corpo.
Em 2018, o investigador e Andy Gardner, também matemático da Universidade de St Andrews, concluíram que desafios «ecológicos», como encontrar comida e acender fogueiras, poderão ter sido problemas decisivos a favorecer uma maior capacidade cerebral. Segundo o estudo, não teriam sido as pressões sociais, como a cooperação e a competição, anteriormente apontadas como explicação.
Só ao encontrar alimentos os primeiros humanos conseguiam obter energia suficiente para superar os elevados custos metabólicos que, de outro modo, travavam o crescimento do cérebro. A investigação anterior de González-Forero sugere que a resolução de problemas e a partilha de conhecimentos culturais para caçar, recolher alimentos e encontrar bocados saborosos poderão ter incentivado ainda mais a expansão cerebral.
Folículos ováricos e energia no desenvolvimento humano
Na perspetiva de González-Forero, faltavam ainda às teorias anteriores ferramentas matemáticas que permitissem distinguir a seleção evolutiva, em que as características vantajosas são ativamente favorecidas pela seleção natural, das limitações que apenas restringem ou travam a evolução de determinadas formas.
O investigador voltou, por isso, ao seu modelo e ajustou-o, acrescentando novas equações. Segundo afirma, estas separam a seleção evolutiva das limitações, quantificam os custos energéticos do crescimento dos tecidos cerebrais, corporais e reprodutivos e integram a variação das características genéticas que controlam o desenvolvimento humano, desde a infância, passando pela adolescência, até à idade adulta.
No artigo publicado, González-Forero escreve que a nova abordagem «permite uma análise mais aprofundada, mostrando que a expansão cerebral dos hominíneos ocorre no modelo devido à seleção direta do número de folículos [ováricos], e não do tamanho do cérebro».
Por outras palavras, os humanos poderão ter desenvolvido cérebros maiores apenas quando, numa fase crucial do desenvolvimento humano, ficou disponível a energia anteriormente destinada ao crescimento dos tecidos reprodutivos - em particular, dos folículos do ovário que alimentam e libertam um óvulo todos os meses.
González-Forero defende, assim, que era o número de folículos ováricos alimentados numa fase inicial da vida que limitava o crescimento cerebral, e não uma eliminação evolutiva dos cérebros mais pequenos a favor dos maiores. Até ocorrer essa mudança na distribuição de energia dos ovários para o cérebro, os nossos antepassados mantiveram cérebros relativamente pequenos.
Segundo o investigador, essas limitações reprodutivas «desviam a mudança evolutiva numa direção que provoca a expansão cerebral» e tiveram um papel evolutivo tão importante «que, sem essas limitações, a expansão cerebral não é favorecida pela seleção e não evolui».
O que o modelo mostra sobre a expansão cerebral
Na rede X, anteriormente conhecida como Twitter, González-Forero afirmou que o seu modelo reproduz com êxito os principais padrões do desenvolvimento humano desde a infância até à idade adulta, bem como uma duplicação do tamanho do cérebro.
Importa, contudo, lembrar que o cérebro humano não cresceu necessariamente de forma exponencial. Alguns cientistas consideram que poderá também ter diminuído em certos períodos, há milhares de anos, em algum momento após a última idade do gelo, talvez devido às alterações climáticas.
Esta «teoria da diminuição do cérebro» tem, porém, sido alvo de forte escrutínio. Apesar de toda a nossa capacidade cerebral coletiva, continuamos a ter apenas uma ideia vaga de por que razão e em que momento o cérebro humano aumentou, e de se terá realmente diminuído de tamanho para se tornar mais eficiente.
O estudo foi publicado na revista Nature Human Behaviour.






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