Um pequeno feto, aparentemente sem nada de especial e que cresce apenas numa ilha remota do Pacífico, foi reconhecido na sexta-feira pelo Guinness World Records como o organismo com o maior genoma da Terra.
O feto da Nova Caledónia, Tmesipteris oblanceolata, tem no núcleo das suas células mais de 50 vezes a quantidade de ADN presente nas células humanas.
Segundo os cientistas que publicaram um novo estudo, se o ADN de uma das células do feto, cuja largura é apenas uma fração de milímetro, fosse desenrolado, atingiria 106 metros de comprimento. Estendido na vertical, ultrapassaria a altura da torre que alberga o famoso sino Big Ben, em Londres.
O genoma recordista do feto da Nova Caledónia
O genoma do feto atingiu uns impressionantes 160 gigapares de bases (Gbp), a unidade usada para medir o comprimento do ADN. O valor é sete por cento superior ao do anterior recordista, a planta japonesa com flor Paris japonica.
Em comparação, o genoma humano tem uns modestos 3,1 Gbp. Se o nosso ADN fosse desenrolado, teria cerca de dois metros de comprimento.
Ilia Leitch, investigadora dos Jardins Botânicos Reais de Kew, no Reino Unido, e coautora do estudo, disse à AFP que a equipa ficou «realmente surpreendida por encontrar algo ainda maior do que a Paris japonica».
«Pensávamos que já tínhamos atingido o limite biológico. Estamos mesmo a explorar os extremos da biologia», afirmou.
Com uma altura de cinco a 10 centímetros, o feto encontra-se apenas na Nova Caledónia, um território francês no Pacífico que registou recentemente episódios de agitação.
Em 2023, dois elementos da equipa de investigação deslocaram-se à ilha principal, Grand Terre, onde trabalharam com cientistas locais. O estudo foi publicado na revista iScience.
O Guinness World Records atribuiu ao feto o cobiçado título de «maior genoma».
Segundo Adam Millward, editor-chefe do Guinness World Records, a vitória deste feto «de aspeto inofensivo» mostra que «os recordistas nem sempre são os mais vistosos por fora».
Afinal, o que é um genoma?
Estima-se que o corpo humano tenha mais de 30 biliões de células.
Cada uma dessas células tem um núcleo que contém ADN, comparável a um «livro de instruções que diz a um organismo como nós como viver e sobreviver», explicou Leitch.
O conjunto de todo o ADN de um organismo chama-se genoma. Até agora, os cientistas estimaram a dimensão do genoma de cerca de 20 000 organismos, apenas uma pequena parte das formas de vida existentes na Terra.
Entre os animais, o peixe pulmonado marmoreado tem o maior genoma, com 130 Gbp.
Embora as plantas possuam os maiores genomas, também podem ter alguns incrivelmente pequenos. O da planta carnívora Genlisea aurea mede apenas 0,06 Gbp.
As consequências de um genoma de grandes dimensões
Ainda assim, os humanos não precisam de se sentir inferiores perante o poderoso T. oblanceolata.
Segundo Leitch, todas as provas indicam que ter um genoma enorme é uma desvantagem. Quanto mais ADN existe, maiores têm de ser as células para o acomodar.
Nas plantas, células maiores obrigam, por exemplo, a que os poros das folhas também sejam maiores, o que pode levar a um crescimento mais lento. É igualmente mais difícil produzir novas cópias de todo esse ADN, limitando a capacidade de reprodução das plantas.
Por isso, os genomas mais volumosos encontram-se em plantas perenes de crescimento lento, que não conseguem adaptar-se facilmente às adversidades nem enfrentar a concorrência.
Leitch afirmou que a dimensão do genoma pode, assim, influenciar a forma como as plantas reagem às alterações climáticas, às mudanças no uso dos solos e a outros desafios ambientais provocados pelos seres humanos.
Para que serve tanto ADN?
Poderão existir genomas ainda maiores algures, mas Leitch considera que este feto deve estar perto do limite.
«Não consigo compreender como é que um organismo com todo este ADN funciona realmente», disse.
A investigadora admitiu que os cientistas não sabem qual é a função da maior parte do ADN em genomas tão grandes. Alguns chamam-lhe «ADN lixo».
«Mas isso deve-se provavelmente à nossa própria ignorância. Talvez tenha uma função e ainda não a tenhamos descoberto», afirmou Leitch.
Jonathan Wendel, botânico da Universidade Estadual do Iowa que não participou na investigação, concordou que a quantidade de ADN contida no feto é «surpreendente».
No entanto, disse à AFP que isto apenas «representa o primeiro passo».
«Um grande mistério é o significado de toda esta variação: como crescem e encolhem os genomas e quais são as causas e consequências evolutivas destes fenómenos?»
© Agence France-Presse






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