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Engenharia climática: poderá reduzir os riscos para a segurança nacional?

Homem com bata branca segura tablet e aponta para aviões no céu, com globo terrestre e modelo de avião na mesa.
Neste artigo
  1. O enorme problema das alterações climáticas
  2. Quem poderá recorrer à engenharia climática e de que forma?
  3. Criar riscos para os vizinhos aumenta o risco de conflito
  4. O que se segue?

O histórico Acordo de Paris sobre o clima deu origem a um lema dos países em desenvolvimento: «1,5 para sobreviver». Refere-se ao objectivo internacional de limitar o aquecimento global a menos de 1,5 graus Celsius (2,8 Fahrenheit) face à era pré-industrial. Contudo, é provável que o mundo ultrapasse esse limiar dentro de uma década, e há poucos sinais de abrandamento do aquecimento global.

À medida que as temperaturas sobem, o planeta já enfrenta catástrofes naturais de proporções épicas. Os recordes de calor são batidos com regularidade. As épocas de incêndios florestais tornaram-se mais severas. A intensidade dos furacões está a aumentar. A subida do nível do mar está lentamente a submergir pequenos Estados insulares e zonas costeiras.

O único método conhecido capaz de travar rapidamente esta subida da temperatura é a engenharia climática. Por vezes, é designada geoengenharia, métodos de redução da luz solar ou intervenção climática solar. Trata-se de um conjunto de medidas propostas para alterar deliberadamente o clima.

Entre essas medidas está a reprodução do efeito de arrefecimento das grandes erupções vulcânicas, através da introdução de grandes quantidades de partículas reflectoras na atmosfera, ou o aumento da luminosidade das nuvens baixas sobre os oceanos. Ambas as estratégias reflectiriam uma pequena parcela da luz solar de volta para o espaço, arrefecendo o planeta.

Ainda assim, subsistem muitas questões sem resposta sobre os efeitos de uma alteração deliberada do clima, e não existe consenso sequer quanto a saber se é boa ideia procurar essas respostas.

Para muitos países, uma das maiores preocupações relacionadas com as alterações climáticas é a segurança nacional. E isto não diz respeito apenas a guerras. Os riscos para o abastecimento de alimentos, energia e água são questões de segurança nacional, tal como a migração provocada pelo clima.

Poderá a engenharia climática ajudar a reduzir os riscos das alterações climáticas para a segurança nacional ou, pelo contrário, agravá-los? Não é simples responder a esta pergunta, mas os investigadores que, como nós, estudam as alterações climáticas e a segurança nacional têm alguma noção dos riscos que se avizinham.

O enorme problema das alterações climáticas

Para perceber como poderá ser a engenharia climática no futuro, importa primeiro compreender por que motivo um país poderia querer experimentá-la.

Desde a Revolução Industrial, os seres humanos libertaram para a atmosfera cerca de 1,74 biliões de toneladas de dióxido de carbono, sobretudo através da queima de combustíveis fósseis. Esse dióxido de carbono retém calor e aquece o planeta.

Uma das medidas mais importantes que podemos tomar é deixar de libertar carbono para a atmosfera. Porém, isso não melhorará a situação rapidamente, porque o carbono permanece na atmosfera durante séculos. A redução das emissões apenas impedirá que a situação se agrave.

Os países poderiam retirar dióxido de carbono da atmosfera e armazená-lo, num processo denominado remoção de dióxido de carbono. Actualmente, os projectos de remoção de dióxido de carbono - incluindo o cultivo de árvores e os dispositivos de captura directa do ar - retiram da atmosfera cerca de 2 mil milhões de toneladas de dióxido de carbono por ano.

No entanto, a utilização de combustíveis fósseis e a indústria continuam a libertar anualmente mais de 37 mil milhões de toneladas de dióxido de carbono para a atmosfera. Enquanto a quantidade adicionada for superior à removida, secas, cheias, furacões, ondas de calor e a subida do nível do mar, entre muitas outras consequências das alterações climáticas, continuarão a piorar.

Poderá demorar muito tempo até se atingirem emissões líquidas nulas, o ponto em que os seres humanos deixam de aumentar as concentrações de gases com efeito de estufa na atmosfera. A engenharia climática poderá ajudar durante esse período de transição.

Quem poderá recorrer à engenharia climática e de que forma?

Vários organismos de investigação governamentais já estão a analisar cenários, procurando perceber quem poderá decidir aplicar engenharia climática e como o poderá fazer.

Prevê-se que a engenharia climática seja barata quando comparada com o custo de acabar com as emissões de gases com efeito de estufa. Ainda assim, exigiria milhares de milhões de dólares e anos para desenvolver e construir uma frota de aviões capaz de transportar todos os anos megatoneladas de partículas reflectoras até à estratosfera. Qualquer multimilionário que ponderasse um projecto deste tipo ficaria rapidamente sem dinheiro, apesar do que a ficção científica possa sugerir.

Porém, um único país, ou uma coligação de países, que esteja a sentir os danos das alterações climáticas poderá fazer um cálculo económico e geopolítico e decidir iniciar a engenharia climática por iniciativa própria.

Este é o chamado problema do «interveniente isolado»: um país com, pelo menos, riqueza média poderia afectar unilateralmente o clima mundial.

Por exemplo, países confrontados com ondas de calor cada vez mais perigosas poderão querer provocar arrefecimento, enquanto os que dependem da precipitação das monções poderão procurar recuperar alguma da previsibilidade que as alterações climáticas perturbaram. A Austrália está actualmente a estudar a viabilidade de arrefecer rapidamente a Grande Barreira de Coral para evitar o seu desaparecimento.

Criar riscos para os vizinhos aumenta o risco de conflito

O clima não respeita fronteiras nacionais. Por isso, um projecto de engenharia climática num país afectará provavelmente a temperatura e a precipitação nos países vizinhos. Isso poderá ser positivo ou negativo para as culturas agrícolas, o abastecimento de água e o risco de inundações. Poderá também ter consequências não intencionais generalizadas.

Alguns estudos indicam que uma aplicação moderada de engenharia climática provavelmente traria benefícios amplos em comparação com as alterações climáticas. Mas os efeitos não seriam iguais em todos os países.

Depois de a engenharia climática ser implementada, os países poderão estar mais inclinados a atribuir-lhe fenómenos extremos, como furacões, cheias e secas, independentemente das provas.

A engenharia climática poderá desencadear conflitos entre países, levando a sanções e exigências de compensação. As alterações climáticas podem deixar as regiões mais pobres especialmente vulneráveis a danos, e a engenharia climática não deveria agravar esses prejuízos. Alguns países beneficiariam da engenharia climática e, por isso, seriam mais resilientes perante tensões geopolíticas; outros seriam prejudicados e ficariam mais vulneráveis.

Ninguém realizou ainda engenharia climática em grande escala, pelo que muita da informação sobre os seus efeitos depende de modelos climáticos. Embora estes modelos sejam excelentes instrumentos para estudar o sistema climático, não são eficazes a responder a questões sobre geopolítica e conflitos. Além disso, os efeitos físicos da engenharia climática dependem de quem a aplica e do que faz.

O que se segue?

Por enquanto, a engenharia climática suscita mais perguntas do que respostas. É difícil determinar se criaria mais conflitos ou se poderia reduzir tensões internacionais ao atenuar as alterações climáticas.

Mas é provável que as decisões internacionais sobre engenharia climática sejam tomadas em breve. Na Assembleia das Nações Unidas para o Ambiente, em Março de 2024, os países africanos pediram uma moratória sobre a engenharia climática, apelando à máxima precaução. Outros países, incluindo os Estados Unidos, defenderam a criação de um grupo científico formal para estudar os riscos e os benefícios antes de serem tomadas quaisquer decisões.

A engenharia climática poderia integrar uma solução equitativa para as alterações climáticas. Mas também comporta riscos. Em termos simples, a engenharia climática é uma tecnologia que não pode ser ignorada, embora seja necessária mais investigação para que os decisores políticos possam tomar decisões informadas.

Ben Kravitz, Professor Auxiliar de Ciências da Terra e da Atmosfera, Universidade do Indiana, e Tyler Felgenhauer, Investigador Científico em Engenharia Civil e Ambiental, Universidade Duke

Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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Inês Margarida Carvalho

Inês Margarida Carvalho é técnica superior de intervenção social, com experiência em desenvolvimento comunitário, envelhecimento ativo e apoio a famílias. Colabora com projetos ligados ao CSPSJ, dedicando-se à promoção da inclusão, do bem-estar social e da participação da comunidade.

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