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Os misteriosos crânios de animais dos neandertais na gruta de Des-Cubierta

Homem examina crânios de cabras com grandes cornos numa caverna iluminada por uma vela.
Neste artigo
  1. Uma gruta cheia de cabeças e cornos
  2. Se não era para comer, qual seria o propósito?
  3. O que isto revela sobre a mente dos neandertais
  4. Um cenário frio: a vida na Ibéria da Idade do Gelo
  5. Como os cientistas distinguem padrões naturais de humanos
  6. Porque importa para a nossa imagem dos neandertais

Os crânios pertenciam a enormes animais da Idade do Gelo e foram colocados naquele local por neandertais há mais de 43.000 anos. Os arqueólogos consideram agora que este comportamento invulgar se prolongou durante séculos, talvez muito mais tempo, e que pouco tinha a ver com a caça ou a alimentação. O que estas pessoas faziam na gruta continua a ser um mistério, mas o local está a levar os investigadores a repensar a possível riqueza e subtileza da cultura neandertal.

Uma gruta cheia de cabeças e cornos

A história passa-se na gruta de Des-Cubierta, no vale do Lozoya, no centro de Espanha, identificada pela primeira vez em 2009. No seu interior, os investigadores encontraram um depósito notável: 35 crânios de grandes mamíferos, muitos ainda com cornos ou hastes. Entre os animais representados estavam bisontes-das-estepes, auroques, ou seja, bovinos selvagens, rinocerontes-lanudos e veados-vermelhos.

Todos os crânios encontrados na gruta pertenciam a espécies com cornos ou hastes, e as mandíbulas estavam quase sempre ausentes.

Esta selecção cuidada chamou a atenção. Outros ossos dos mesmos animais, como os dos membros, as costelas e as vértebras, praticamente não apareciam. Contudo, em níveis próximos do sítio foram encontradas mais de 1.400 ferramentas de pedra de um estilo conhecido como musterense, associando claramente a gruta aos neandertais e não aos humanos modernos.

A gruta não servia de habitação. Faltam vestígios evidentes de lareiras, camas ou lixo, que habitualmente identificam um espaço habitado. Des-Cubierta parece antes ter sido um lugar ao qual os neandertais regressavam repetidamente para ali deixar algo.

Distinguir a queda de rochas dos rituais

Des-Cubierta não permaneceu intacta. Ao longo de muitos milhares de anos, rochas desprenderam-se do tecto e das paredes, espalhando pedras e ossos. Para perceber o que os neandertais tinham realmente feito, a equipa precisou de distinguir os efeitos da gravidade e do tempo das escolhas humanas deliberadas.

A arqueóloga Lucía Villaescusa Fernández e os seus colegas mapearam cada fragmento de osso, cada pedra e cada rocha caída. Depois, compararam os padrões: onde estavam os crânios, como se tinham acumulado as rochas e onde se concentravam as ferramentas.

A distribuição dos crânios e das ferramentas não correspondia ao padrão esperado de uma queda natural de rochas, o que aponta para uma colocação intencional.

O estudo, publicado na revista Archaeological and Anthropological Sciences, conclui que os neandertais levaram os crânios para a gruta e os dispuseram em determinadas áreas. Os mesmos locais foram utilizados vezes sem conta ao longo de vastos períodos entre 135.000 e 43.000 anos atrás, durante algumas das fases mais frias da Idade do Gelo.

Se não era para comer, qual seria o propósito?

Uma das descobertas mais surpreendentes prende-se com aquilo que os crânios não revelam: não parecem ser resíduos do desmanche de animais. As mandíbulas, que contêm muita carne e medula, estão geralmente ausentes. As marcas de corte são escassas. Muitos crânios conservam as bases ósseas dos cornos ou das hastes, embora esses tecidos resistentes pudessem ter sido aproveitados como matéria-prima.

Este padrão afasta os investigadores de uma explicação puramente económica. Os crânios não eram apenas restos de refeições empilhados num canto conveniente.

Os indícios apontam para uma prática que não estava directamente ligada a necessidades de sobrevivência, como a alimentação ou o fabrico de ferramentas.

O que acontecia então? Os arqueólogos mostram prudência. Evitam afirmar categoricamente que se tratava de “religião” ou de um “ritual”, pois estes termos transportam significados modernos. Ainda assim, estão em discussão várias hipóteses:

  • Exibições simbólicas: os crânios com cornos ou hastes poderiam funcionar como sinais visuais associados à identidade do grupo, a histórias ou a crenças.
  • Troféus de caça: as cabeças de presas perigosas poderiam celebrar a perícia ou a coragem, à semelhança das actuais salas de troféus.
  • Marcos territoriais: a gruta poderia ter sido um ponto de referência especial, conhecido por uma rede de neandertais espalhada pelo vale.
  • Espaços de ensino: os membros mais velhos poderiam usar os crânios para ensinar os jovens caçadores sobre os animais e as tácticas de caça.

Nenhuma destas hipóteses pode ser demonstrada apenas a partir dos ossos. No entanto, a persistência do comportamento ao longo de muitas gerações sugere uma tradição partilhada. A prática foi transmitida, repetida e aparentemente respeitada.

O que isto revela sobre a mente dos neandertais

Durante décadas, os neandertais foram retratados como brutos lentos e sem imaginação. Essa imagem tem vindo a desaparecer, à medida que se acumulam indícios de enterramentos deliberados, adornos pessoais feitos com garras de águia e conchas, e utilização de pigmentos.

Des-Cubierta acrescenta uma nova peça a este quadro. Em vez de adornos usados no corpo, encontramos aqui uma paisagem modificada para lhe atribuir significado. A gruta foi transformada numa espécie de receptáculo simbólico.

O sítio sugere que os neandertais criaram tradições com uma lógica própria, em vez de se limitarem a copiar aquilo que o Homo sapiens fez mais tarde.

O arqueólogo francês Ludovic Slimak descreve esta evolução do pensamento como uma mudança na pergunta. Em vez de procurarem saber se os neandertais eram “como nós”, os investigadores perguntam que tipos de comportamento com significado desenvolveram segundo os seus próprios critérios. Des-Cubierta dá uma resposta discreta, mas firme: ali passava-se algo complexo.

Indícios de Des-Cubierta O que sugerem
Apenas espécies com cornos ou hastes Escolha selectiva e possivelmente simbólica dos animais
Crânios sem mandíbulas nem a maioria dos outros ossos Não se trata de simples restos de comida ou de um descarte aleatório
Utilização repetida das mesmas áreas da gruta Tradição duradoura dentro de um grupo ou de uma região
Gruta não utilizada como habitação Espaço reservado a uma actividade especial, não doméstica

Um cenário frio: a vida na Ibéria da Idade do Gelo

A cronologia situa estes neandertais num clima rigoroso. Entre 135.000 e 43.000 anos atrás, a região central da Península Ibérica atravessou oscilações repetidas entre fases frias e secas e períodos ligeiramente mais amenos. Bisontes-das-estepes e rinocerontes-lanudos percorriam planícies abertas; as florestas recuavam e voltavam a expandir-se a cada mudança climática.

A manutenção de uma tradição partilhada em condições tão instáveis aponta para laços sociais fortes. Os grupos deslocavam-se com as manadas, enfrentavam invernos rigorosos e, mesmo assim, continuavam a regressar a uma gruta específica para realizar o mesmo acto algo enigmático.

Essa repetição sugere histórias que já não sobreviveram: relatos de animais poderosos, caçadas perigosas, antepassados ou espíritos ligados aos cornos e às hastes. Não podemos ouvir as palavras, mas o comportamento deixa entrever os contornos ténues do seu mundo de narrativas.

O que significa aqui “comportamento simbólico”

Os arqueólogos falam frequentemente de “comportamento simbólico” quando os objectos representam ideias. Uma marca pintada pode representar um clã. Um colar de conchas pode indicar estatuto ou pertença. No caso de Des-Cubierta, defende-se que os crânios representavam algo para além da carne ou do osso.

Para os leitores, pode ser útil dividir a ideia em elementos mais simples:

  • Alguém escolheu os objectos que iria trazer.
  • Essa pessoa colocou-os em posições que tinham importância para ela.
  • Outras pessoas compreenderam suficientemente esse significado para repetir o gesto.

Estes três passos revelam já pensamento abstracto, compreensão partilhada e memória entre gerações, todos eles elementos fundamentais da cultura.

Como os cientistas distinguem padrões naturais de humanos

À primeira vista, uma mistura de ossos e rochas numa gruta pode parecer puro caos. Para determinar se houve intervenção humana, os investigadores recorrem hoje a ferramentas que surpreenderiam um caçador de fósseis da época vitoriana.

Em Des-Cubierta, a equipa utilizou uma análise espacial detalhada. Registou a posição tridimensional exacta de cada objecto. Depois, um programa informático testou se essas distribuições correspondiam ao que seria esperado por efeito da gravidade, do fluxo de água ou do desabamento do tecto.

Quando o padrão dos crânios e das ferramentas contraria as regras das forças naturais, a intervenção humana torna-se a explicação mais provável.

Este tipo de modelação está a tornar-se uma prática corrente na arqueologia de grutas. Permite às equipas detectar comportamentos subtis que poderiam passar despercebidos a olho nu, como percursos através de um sítio, recantos preferidos ou “zonas” distintas com funções diferentes.

Porque importa para a nossa imagem dos neandertais

Descobertas deste género têm consequências de grande alcance. Os manuais escolares e os documentários ainda apresentam frequentemente os neandertais como figuras secundárias na história do Homo sapiens. Uma gruta cheia de crânios cuidadosamente dispostos sugere antes uma história paralela, com os seus próprios rituais e valores.

Para professores, guias de museu ou pais que conversem com crianças curiosas, Des-Cubierta oferece um exemplo concreto:

  • Os neandertais caçavam animais grandes e perigosos.
  • Transportavam partes seleccionadas para uma gruta especial.
  • Regressaram a esse lugar durante milhares de anos.
  • Seguiam um padrão que ia além da simples sobrevivência.

Esta sequência é mais fácil de imaginar do que afirmações abstractas sobre “cognição complexa”. Torna uma espécie distante mais reconhecivelmente humana, sem fingir que pensava exactamente como nós.

Os próximos passos passarão por comparar Des-Cubierta com outros sítios que apresentam colecções invulgares de partes de animais, desde acumulações de hastes até adereços de cabeça feitos com crânios de veado em grupos posteriores de caçadores-recolectores. Ao confrontarem as semelhanças e as diferenças, os investigadores esperam perceber se as práticas dos neandertais constituíam uma tradição cultural única ou se reflectiam padrões que voltaram a surgir repetidamente ao longo da história humana.

Neste momento

Inês Margarida Carvalho

Inês Margarida Carvalho é técnica superior de intervenção social, com experiência em desenvolvimento comunitário, envelhecimento ativo e apoio a famílias. Colabora com projetos ligados ao CSPSJ, dedicando-se à promoção da inclusão, do bem-estar social e da participação da comunidade.

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