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Canibalismo filial nos animais: por que razão comem as próprias crias

Sapo com ovos na boca perto de um pequeno charco rodeado de vegetação rasteira em ambiente natural.
Neste artigo
  1. Canibalismo filial seletivo: controlo de qualidade e reciclagem
  2. A reinicialização total: quando o animal recomeça do zero
  3. A guerra dos sexos no ninho

Aos nossos olhos, os animais que praticam canibalismo filial podem parecer monstros. Do ponto de vista evolutivo, porém, a perspetiva humana tem pouca importância.

Para a espécie humana, o instinto parental representa uma missão sagrada de sobrevivência da descendência; pelas leis da natureza, trata-se sobretudo de uma questão de rentabilidade. Como explica Aneesh Bose, ecólogo comportamental na Universidade Sueca de Ciências Agrícolas: “O canibalismo filial está extremamente difundido. É uma ferramenta presente na caixa de ferramentas de muitas espécies, integrada nas suas estratégias de reprodução”. Entre nós sucede o contrário: o canibalismo, parental ou não, é um dos maiores tabus das sociedades contemporâneas.

As 1 500 espécies identificadas que praticam canibalismo filial também cuidam das suas crias. É nesse paradoxo que a nossa sensibilidade humana encontra um choque violento. Para nós, ser progenitor implica naturalmente proteger, mas, segundo a teoria evolucionista formulada por Charles Darwin, essa lei moral não tem razão para existir na natureza. Um animal pode passar dias a guardar os ovos e, numa bela manhã, comê-los ao lanche: por que razão nunca corrigiu a seleção natural este comportamento?

Canibalismo filial seletivo: controlo de qualidade e reciclagem

Na natureza selvagem, a vida é um investimento. Para animais com ciclos de reprodução rápidos, como insetos, aranhas ou peixes, a sobrevivência de um único indivíduo tem pouca importância perante o sucesso de toda a linhagem. Por isso, o canibalismo seletivo é considerado pelos progenitores a melhor estratégia para o garantir. Para compreender o fenómeno, é preciso pensar friamente: cada cria tem um valor individual muito reduzido e sacrificar parte da ninhada permite, por vezes, salvar as restantes.

É o que acontece, por exemplo, com o necróforo, também conhecido como escaravelho-coveiro. Um estudo de 1987 mostrou que, quando a comida escasseia, estes insetos devoram algumas das suas crias para que as outras possam crescer saudáveis. Desta forma, conseguem garantir recursos alimentares suficientes para todas.

Entre animais domésticos como cães, gatos e até porcos, por vezes uma mãe come uma cria nado-morta ou demasiado fraca para sobreviver. Em termos biológicos, é uma reciclagem de energia: o parto é extremamente extenuante e a reabsorção desses nutrientes dá à mãe força para cuidar melhor do resto da ninhada.

É por isso que grandes animais como as baleias e os elefantes, cujos ciclos de gestação são muito lentos, não comem as crias. O nascimento de uma única cria exige anos de investimento, pelo que devorá-la seria um sacrifício sem benefício adaptativo.

A reinicialização total: quando o animal recomeça do zero

Outras espécies não praticam canibalismo seletivo e, por isso, não têm dificuldade em comer a totalidade da descendência. Este comportamento observa-se sobretudo em pequenos mamíferos, como roedores e coelhos. Segundo Aneesh Bose, este “sacrifício global” ocorre frequentemente quando o tamanho da ninhada é considerado insuficiente.

Se uma fêmea der à luz crias demasiado pouco numerosas face à enorme energia exigida pela amamentação, pode optar por interromper todo o processo. Ao consumir a descendência, recupera as calorias e “reinicia” o ciclo para tentar ter outra ninhada mais numerosa e promissora, o mais cedo possível.

Em certos casos, o stress ambiental pode funcionar como catalisador. Entre os roedores, se o habitat se tornar subitamente perigoso, nomeadamente devido à presença de predadores, a mãe prefere consumir as crias a deixá-las ao inimigo. É um “seguro de vida” para si própria: sobrevive para voltar a reproduzir-se quando as condições forem mais favoráveis.

A guerra dos sexos no ninho

Por vezes, o canibalismo resulta de um conflito de interesses entre os progenitores, sobretudo em peixes como o peixe-sol-azul (Lepomis macrochirus). Um estudo de 2003 demonstrou que, no momento da eclosão, os pais conseguem “sentir” quimicamente se as crias são suas.

Se detetar no ninho o odor da descendência de outro macho, o pai não hesita em comer os intrusos para os eliminar. Mas, como salienta Bose, “isso contraria a vontade da mãe”, que está geneticamente ligada a todas as crias. Noutras espécies de peixes, como o góbio-da-areia (Pomatoschistus minutus), a fêmea tem de permanecer vigilante para impedir que o macho transforme o berço num banquete.

Se estes comportamentos nos parecem cruéis, é porque projetamos nos animais valores morais que lhes são estranhos, apesar de terem sido moldados pela evolução ao longo de milhões de anos. Esta antropomorfização contradiz totalmente uma lei fundamental da etologia: a natureza não conhece o bem nem o mal, apenas aquilo que é funcional. No grande livro do reino animal, a ética nada pesa perante a eficácia: comer as próprias crias é apenas uma reafetação do investimento para garantir um melhor rendimento futuro. Tentar moralizar estes comportamentos ou não conseguir aceitar esta realidade como norma são duas reações que fazem precisamente de nós humanos, separados do reino animal.

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Inês Margarida Carvalho

Inês Margarida Carvalho é técnica superior de intervenção social, com experiência em desenvolvimento comunitário, envelhecimento ativo e apoio a famílias. Colabora com projetos ligados ao CSPSJ, dedicando-se à promoção da inclusão, do bem-estar social e da participação da comunidade.

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