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Eucalipto em Portugal: a ligação entre os incêndios e a paisagem

Homem planta muda numa área queimada, com capacete amarelo e plantas à volta, em dia de sol.
Neste artigo
  1. Quando o eucalipto parecia resolver o problema dos solos pobres
  2. Porque podem os eucaliptos transformar um fogo comum numa catástrofe?
  3. O verdadeiro desafio português: reconstruir uma paisagem resistente

Ao nascer do dia, nas colinas do interior português, sente-se um aroma suave, quase medicinal. A luz prende-se aos troncos brancos dos eucaliptos, as folhas tremem com o vento seco e, para quem passa na estrada, a paisagem parece tranquila. Mas, para muitos moradores, esta floresta evoca mais do que papel, madeira ou emprego: traz à memória os verões em que o céu ficou cor de laranja. Na década de 1950, estas árvores eram apresentadas como uma solução prática para terrenos cansados, erodidos e, por vezes, abandonados. Setenta anos depois, estão no centro de uma discussão escaldante. Literalmente.

Quando o eucalipto parecia resolver o problema dos solos pobres

No Portugal rural do pós-guerra, havia parcelas que quase tinham deixado de produzir. A chuva arrastava a terra, as encostas tinham sido exploradas em excesso e muitas aldeias já viviam com poucos recursos. Parecia sensato plantar depressa e em grandes extensões: o eucalipto crescia rapidamente, resistia a condições adversas e podia ajudar a estabilizar alguns solos degradados. Nessa altura, ninguém via uma ameaça naquelas árvores jovens. Pelo contrário, representavam a promessa de vegetação e rendimento para territórios onde ambos faziam muita falta.

A partir dos anos 1950, o crescimento da indústria do papel deu ainda mais impulso às plantações. Valorizado pelas suas fibras, o eucalipto tornou-se rentável: em certos terrenos, podia ser explorado muito mais depressa do que um sobreiro ou um pinheiro tradicional. Ainda hoje ocupa perto de um quarto da área florestal de Portugal continental, segundo os inventários florestais nacionais. Esta expansão nem sempre aconteceu sob a forma de grandes plantações impecavelmente alinhadas. Muitas vezes avançou aos poucos, parcela a parcela, acompanhando as heranças familiares e as necessidades de dinheiro.

O problema, portanto, não se resume a uma árvore que tenha surgido de repente como invasora absoluta. Portugal conheceu também o abandono agrícola, a extrema fragmentação da propriedade, o declínio do pastoreio e verões cada vez mais quentes. Ainda assim, o eucalipto tem características que alteram o cenário quando começa um incêndio: folhas ricas em óleos inflamáveis, casca que se desprende, manta morta seca e capacidade de rebentar novamente depois do fogo. As chamas encontram ali combustível pronto a arder. Quando o vento aumenta, a paisagem pode mudar radicalmente em poucos minutos.

Porque podem os eucaliptos transformar um fogo comum numa catástrofe?

Uma primeira medida concreta passa por observar o chão antes de olhar para as árvores. Nas imediações de casas, estradas secundárias e pequenos povoados isolados, os proprietários podem abrir faixas limpas de mato, remover os ramos mais baixos e afastar as árvores que estejam demasiado juntas. É um trabalho aparentemente banal e pouco gratificante, até porque tem de ser repetido com regularidade. Sejamos sinceros: ninguém o faz todos os dias. Ainda assim, uma área cuidada em redor de uma habitação pode abrandar as chamas e dar minutos decisivos às famílias e aos serviços de socorro.

Seria um erro comum pensar que abater todos os eucaliptos resolveria o problema. Muitos pequenos proprietários continuam a depender deste recurso e alguns terrenos deixados a descoberto após o corte tornam-se também vulneráveis à erosão ou à proliferação de matos. Mais importante do que apontar um único culpado é reduzir a continuidade da vegetação que permite ao fogo propagar-se de vale em vale. Diversificar as espécies, recuperar árvores de folha larga autóctones e manter áreas agrícolas abertas exige tempo, apoios públicos e uma coordenação de que as aldeias isoladas nem sempre dispõem.

Os grandes incêndios de 2017, entre eles o de Pedrógão Grande, que causou 66 mortes, mostraram como uma paisagem seca, fragmentada e mal cuidada pode tornar-se perigosa. Entre os profissionais florestais portugueses, há uma frase que se ouve frequentemente:

«Um incêndio nunca é apenas a história de uma faísca; é também a história do território que ela atravessa.»

Nas zonas mais expostas, há várias práticas capazes de fazer uma diferença real:

  • Criar um mosaico de paisagens, alternando eucaliptos, sobreiros, castanheiros, pastagens, culturas e espaços abertos. O fogo progride com mais dificuldade quando encontra descontinuidades, zonas húmidas ou plantas menos inflamáveis. Esta diversidade devolve também utilidade agrícola a terrenos que tinham sido abandonados.
  • Cuidar das imediações das casas ao longo de várias dezenas de metros, quando a regulamentação local o exigir. Isso implica cortar as ervas secas, afastar as pilhas de lenha, limpar as caleiras e impedir que os ramos toquem nas fachadas ou nos cabos. São tarefas simples, mas tornam-se essenciais quando começa um incêndio.
  • Juntar os pequenos proprietários em associações de gestão florestal. Em Portugal, as parcelas são muitas vezes minúsculas e pertencem, por vezes, a herdeiros que vivem longe da aldeia. A gestão coletiva ajuda a financiar caminhos, limpeza de mato, pontos de água e cortes mais coerentes.
  • Manter a atividade humana no meio rural. Rebanhos, pomares e pequenas culturas são mais do que uma imagem nostálgica: reduzem naturalmente a quantidade de vegetação seca. Quando as terras deixam de ser habitadas e trabalhadas, o fogo ganha frequentemente terreno antes mesmo de começar o verão.

O verdadeiro desafio português: reconstruir uma paisagem resistente

A discussão sobre o eucalipto vai muito além das fronteiras de Portugal. Coloca uma pergunta concreta a todos os países mediterrânicos: quanto vale uma floresta que cresce depressa e gera rendimento, mas se torna impossível de gerir durante as ondas de calor? A árvore não é demoníaca nem inocente. Permitiu o sustento de famílias, o funcionamento de fábricas e o regresso do coberto vegetal a solos frágeis. Mas um modelo concebido para os anos 1950 já não responde necessariamente às secas e aos ventos extremos dos anos 2020.

Os habitantes das zonas ardidas falam do assunto com um cansaço que as imagens de satélite não revelam. Depois das chamas, as colinas parecem despidas, as vedações derretem, os animais procuram água e o cheiro a cinza permanece nas estradas durante muito tempo. Alguns meses depois, porém, voltam a surgir rebentos verdes junto à base dos eucaliptos carbonizados. Essa capacidade de regeneração tanto fascina como inquieta. Se nada mudar em redor, o ciclo pode repetir-se: rebentar, secar, arder. A paisagem conserva a memória das suas escolhas.

Portugal está atualmente a experimentar regras mais rigorosas, restrições a novas plantações em algumas zonas e programas de reflorestação mais diversificados. O resultado dependerá também de decisões muito pequenas: um vizinho que limpa uma parcela, um município que ajuda a reunir proprietários ou uma família que opta por plantar várias espécies em vez de uma só. Todos conhecemos a sensação de que um problema é demasiado grande para lhe podermos tocar. Aqui, porém, cada clareira mantida, cada prado preservado e cada orla florestal melhor planeada pode influenciar o percurso de um incêndio.

Ponto essencial Pormenor Valor acrescentado para o leitor
O eucalipto começou por ser uma resposta para o meio rural O seu crescimento rápido atraiu as regiões portuguesas com solos pobres e fragilizados, antes de passar a abastecer a indústria do papel. Perceber que a escolha histórica respondeu a uma necessidade ajuda a evitar explicações simplistas.
O risco resulta de vários fatores Seca, vento, abandono agrícola, vegetação densa, parcelas fragmentadas e espécies inflamáveis criam condições explosivas. O leitor compreende por que razão cortar apenas um tipo de árvore não chega para prevenir megaincêndios.
A diversidade florestal apresenta uma solução concreta Mosaicos que combinam árvores de folha larga, culturas, pastagens e áreas limpas de mato abrandam a propagação das chamas. Esta abordagem mostra que uma floresta produtiva pode também tornar-se mais segura e mais habitável.

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Inês Margarida Carvalho

Inês Margarida Carvalho é técnica superior de intervenção social, com experiência em desenvolvimento comunitário, envelhecimento ativo e apoio a famílias. Colabora com projetos ligados ao CSPSJ, dedicando-se à promoção da inclusão, do bem-estar social e da participação da comunidade.

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