Algo muito mais próximo de casa poderá explicar os sinais sísmicos alegadamente provocados pela queda de um meteorito interestelar na Terra há 10 anos.
No ano passado, o meteorito ganhou destaque quando uma equipa de cientistas visitou o que considerava ser o local de impacto da rocha espacial e dragou minúsculas esférulas do fundo marinho - detritos que, segundo especularam, poderiam conter indícios de tecnologia alienígena.
Contudo, surgiu agora uma nova dificuldade para essa hipótese. Os dados de monitorização sísmica usados para reconstituir a alegada trajectória do objecto até ao mar, ao largo da costa da Papua-Nova Guiné, poderão não registar um meteorito a atingir o planeta, mas sim o estrondo de um camião a circular numa estrada próxima.
O sinal sísmico na ilha de Manus
"O sinal mudou de direcção ao longo do tempo, correspondendo exactamente a uma estrada que passa junto ao sismómetro", explica o sismólogo planetário Benjamin Fernando, da Universidade Johns Hopkins.
"É realmente difícil pegar num sinal e confirmar que ele não vem de determinada coisa. Mas aquilo que podemos fazer é demonstrar que existem muitos sinais como este e mostrar que todos apresentam as características que esperaríamos de um camião e nenhuma das características que esperaríamos de um meteorito."
Quando um fragmento rochoso suficientemente grande entra na atmosfera, pode explodir antes de se desintegrar. A Terra é atingida por estes meteoros em bola de fogo - conhecidos como bólides - algumas dezenas de vezes por ano. A maior parte cai no oceano, mas existem sistemas de rastreio bastante sofisticados capazes de indicar onde entram na atmosfera e com que intensidade explodem.
Uma das formas de seguir bólides particularmente grandes passa pelos dados sísmicos: tanto as vibrações produzidas pelas ondas de infrassons geradas durante a entrada atmosférica como as vibrações provocadas quando fragmentos da rocha explodida caem em terra.
Um meteorito denominado CNEOS 2014-01-08 foi detectado por satélites do Governo dos Estados Unidos a entrar e a atravessar a atmosfera terrestre em Janeiro de 2014. Os sensores registaram uma velocidade anormalmente elevada, que apontava para uma origem interestelar, levando os astrofísicos Avi Loeb e Amir Siraj, da Universidade de Harvard, a investigar o caso em busca de vestígios da rocha espacial que pudessem analisar.
Os investigadores recuperaram dados de uma estação de monitorização sísmica na ilha de Manus, registados quando o meteorito entrou na atmosfera, e concluíram que a rocha de alta velocidade tinha caído numa zona ao largo da Papua-Nova Guiné. Dragaram o fundo do mar e encontraram esférulas - pequenas bolas microscópicas de material meteórico, formadas depois de o bólide aquecer até derreter e libertar minúsculas gotas de rocha fundida que, posteriormente, solidificam.
A trajectória de CNEOS 2014-01-08 poderá estar errada
No entanto, Fernando e a sua equipa repararam em algo invulgar nos dados sísmicos utilizados para aperfeiçoar a trajectória do bólide. A precisão obtida na medição da trajectória era muito superior à de quaisquer outras medições comparáveis realizadas com dados de não apenas uma, mas várias estações sísmicas. A área de queda relativamente reduzida calculada a partir de uma única estação fez disparar os seus detectores de treta.
Fernando e os restantes investigadores analisaram mais atentamente o sinal da ilha de Manus, bem como diversas outras estações de monitorização na Papua-Nova Guiné e na Austrália, concebidas para detectar ondas sonoras de testes nucleares. Além de terem associado o sinal de Manus à estrada próxima, encontraram dados das outras estações que indicavam que o meteorito caiu a mais de 170 quilómetros (106 milhas) do local onde Loeb e Siraj procuraram.
"A localização da bola de fogo ficava, na verdade, muito longe do sítio onde a expedição oceanográfica foi recuperar estes fragmentos de meteorito", afirma Fernando. "Não só utilizaram o sinal errado, como estavam a procurar no local errado."
Não é invulgar que sinais interpretados de uma forma acabem por ter outra explicação. Basta recordar o caso de radioastrónomos que passaram décadas intrigados por um sinal que afinal era produzido por um forno de micro-ondas, ou de uma explosão de raios gama "excepcional" que se revelou ser lixo espacial. Os seres humanos são muito ruidosos e desorganizados, e separar os sinais naturais do ruído que produzimos pode ser difícil.
Esférulas meteóricas e as alegações sobre tecnologia alienígena
Mas alegações extraordinárias exigem provas extraordinárias. A Terra está repleta de esférulas meteóricas: um estudo de 2021 concluiu que cerca de 3 600 toneladas de esférulas cósmicas caem no planeta todos os anos. Associar esférulas recolhidas do oceano 10 anos mais tarde a um meteorito específico seria extremamente difícil.
Além disso, num preprint publicado no ano passado, astrónomos concluíram que a velocidade de CNEOS 2014-01-08 foi, muito provavelmente, bastante sobrestimada. Isto significa que os indícios de uma origem interestelar provavelmente já estavam errados à partida.
Por isso, infelizmente, é preciso voltar à estaca zero na procura de sinais sólidos de inteligência extraterrestre.
"Tudo o que foi encontrado no fundo do mar não tem absolutamente nenhuma relação com este meteorito", diz Fernando, "independentemente de se tratar de uma rocha espacial natural ou de uma peça de uma nave espacial alienígena - embora suspeitemos fortemente de que não eram alienígenas."
A equipa apresentará as suas conclusões na Conferência de Ciência Lunar e Planetária de 2024, e os seus cálculos podem ser consultados num preprint disponível no arXiv.






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