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Micro-ondas: mais de 700 espécies de bactérias resistem ao calor e à radiação

Homem preocupado ajusta micro-ondas com imagem de bactérias na porta na cozinha.
Neste artigo
  1. Mais de 700 espécies de bactérias resistem ao calor e à radiação
  2. Que perigo representa isto para a saúde?
  3. Como tornar o seu micro-ondas consideravelmente mais seguro
  4. O que fascina os investigadores nestas bactérias
  5. Como avaliar melhor os germes domésticos
  6. Conselhos práticos para casa e escritório

Investigações laboratoriais recentes revelaram que há muito mais micróbios no micro-ondas do que a maioria das pessoas imagina. No dia a dia, este aparelho de cozinha é frequentemente associado à ideia de que «cozinhado significa livre de germes». Contudo, essa perceção está agora a ser posta em causa: o calor e a radiação estão longe de eliminar todos os habitantes indesejados.

Mais de 700 espécies de bactérias resistem ao calor e à radiação

A principal conclusão do estudo parece saída de um thriller culinário: foram identificadas mais de 700 espécies diferentes de bactérias dentro e nas superfícies dos micro-ondas, capazes de suportar surpreendentemente bem as condições existentes. Entre elas estão representantes resistentes de géneros como Bacillus e Clostridium, conhecidos pela sua elevada capacidade de sobrevivência.

A explicação está na estratégia que usam para persistir. Muitos destes germes produzem os chamados esporos, uma espécie de cápsula protetora que lhes permite sobreviver durante longos períodos de secura, calor e até radiação. Quando os salpicos de alimentos nas paredes internas secam, os esporos permanecem simplesmente à espera.

«O micro-ondas aquece a sua comida - mas nem todos os cantos atingem a mesma temperatura e nem todas as bactérias desistem assim tão depressa.»

As zonas mais afetadas são, sobretudo, aquelas onde se acumulam salpicos de comida: o teto da cavidade, o prato rotativo, as fendas à volta do prato, a moldura da porta e a borracha de vedação. Nestes locais cria-se um pequeno habitat com recantos secos e ligeiramente húmidos, ideal para microrganismos resistentes.

Que perigo representa isto para a saúde?

Nem todas as bactérias presentes na cozinha constituem um risco. Muitas espécies são inofensivas e algumas existem naturalmente no ambiente e na nossa pele. Ainda assim, o estudo também aponta para germes que podem provocar diarreia, náuseas e outros problemas gastrointestinais. Entre os exemplos mais típicos estão as salmonelas e bactérias semelhantes aos estafilococos.

O risco aumenta claramente quando se verificam vários fatores em simultâneo:

  • interior muito sujo, com restos antigos de alimentos;
  • aquecimento insuficiente das refeições, por tempo demasiado curto ou potência demasiado baixa;
  • utilização partilhada em escritórios, copas, escolas ou apartamentos partilhados;
  • pessoas com sistema imunitário fragilizado, crianças pequenas ou idosos.

Quem aquece rapidamente o almoço no trabalho partilha o micro-ondas com muitas outras pessoas - e, consequentemente, também com os seus hábitos de limpeza. Nestes aparelhos, os especialistas encontram regularmente uma quantidade particularmente elevada de germes problemáticos, porque ninguém se sente responsável pela higienização.

Porque é que o micro-ondas transmite tantas vezes uma falsa sensação de segurança

O mito do «micro-ondas que mata germes» continua muito enraizado. Do ponto de vista físico, é apenas parcialmente verdadeiro. A radiação de micro-ondas faz vibrar as moléculas de água presentes nos alimentos, levando-as a movimentar-se e a aquecer a comida. Porém, para que as bactérias morram efetivamente, todo o prato tem de atingir temperaturas suficientemente elevadas - geralmente bem acima dos 70 graus no interior, durante vários minutos.

Na prática, é comum as extremidades e as camadas superiores ficarem muito quentes, enquanto o centro permanece apenas morno. Nas bordas do prato, nos restos de molho ou no queijo projetado contra a parede formam-se zonas de calor intenso; entre elas, subsistem áreas onde os germes conseguem sobreviver ou voltar a multiplicar-se mais tarde.

Como tornar o seu micro-ondas consideravelmente mais seguro

Além de evidenciar o problema, o estudo apoia medidas simples que qualquer agregado familiar pode aplicar.

Limpeza regular: indispensável no micro-ondas

Os especialistas aconselham uma limpeza profunda do interior pelo menos uma vez por semana, ou com maior frequência em caso de utilização intensiva. O essencial é combinar a remoção de gordura com a desinfeção.

  • Limpe as paredes interiores, o teto e a base com um produto desengordurante.
  • Lave separadamente as fendas, os cantos e o prato rotativo, de preferência retirando-o e colocando-o em água morna com detergente da loiça.
  • Higienize cuidadosamente a borracha de vedação da porta com um pano e um produto de limpeza suave.
  • Termine com um spray desinfetante adequado para superfícies em contacto com alimentos ou com toalhetes com álcool.

Há um truque doméstico bastante conhecido: colocar uma taça com água e uma boa quantidade de vinagre ou sumo de limão no micro-ondas durante alguns minutos. O vapor amolece os resíduos mais difíceis, tornando-os mais fáceis de remover. No entanto, por si só, este método não substitui a desinfeção.

Aquecer corretamente: a temperatura é decisiva

A limpeza pouco vale se os alimentos forem aquecidos sem o cuidado necessário. Para reduzir o risco, importa atender a três aspetos:

  • Mexa ou vire os pratos a meio do aquecimento, para que também o centro fique quente.
  • Escolha um tempo de aquecimento suficiente e opte, de preferência, por uma potência mais elevada.
  • No caso de porções grandes, verifique depois a temperatura com um termómetro de cozinha simples - pelo menos 70 graus no interior.

As sobras já arrefecidas não devem ser reaquecidas repetidamente apenas até ficarem mornas. É preferível aquecê-las bem de uma vez e consumi-las rapidamente ou eliminá-las.

O que fascina os investigadores nestas bactérias

A diversidade inesperada de germes no micro-ondas não é apenas inquietante; também desperta o interesse da comunidade científica. Os organismos que resistem facilmente ao calor e à radiação são considerados ferramentas potencialmente valiosas para a indústria e a investigação.

Possíveis utilizações na biotecnologia e na indústria

Vários grupos de investigação estão a testar possíveis aplicações para estes micróbios particularmente resistentes. Entre as possibilidades em discussão encontram-se:

  • decomposição de resíduos orgânicos em ambientes quentes ou contaminados por radioatividade;
  • produção de enzimas termoestáveis para as indústrias química e farmacêutica;
  • modelos de vida em condições extremas, por exemplo na investigação espacial.

É precisamente a capacidade de sobreviver num ambiente tão quotidiano, mas hostil, como o micro-ondas que torna estas bactérias interessantes. Elas fornecem pistas sobre os mecanismos usados pelos microrganismos para suportar o stress, desde camadas protetoras espessas até ADN com grande capacidade de reparação.

Como avaliar melhor os germes domésticos

Muitas pessoas associam automaticamente as bactérias a doenças, mas a realidade é mais complexa. Sem micróbios não existiriam iogurte nem pão de massa mãe, a nossa flora intestinal estaria vazia e até a pele é habitada por «guarda-costas» úteis. Em casa, o que mais importa é a quantidade, o tipo e o local onde os germes se encontram.

A classificação geral seguinte pode ajudar na orientação:

Local Situação típica dos germes Risco
Esponja, pano da loiça número muito elevado de germes, ambiente húmido e quente elevado, devido ao contacto direto com louça e mãos
Interior do micro-ondas muitas espécies, algumas formadoras de esporos médio a elevado, dependendo do nível de sujidade
Bancada de trabalho germes variáveis devido ao contacto com alimentos médio, facilmente controlável através da limpeza

Em comparação, o micro-ondas não apresenta automaticamente uma situação pior do que outras superfícies. Torna-se sobretudo problemático quando os restos de comida ficam colados às paredes durante dias e ninguém assume a responsabilidade de o limpar.

Conselhos práticos para casa e escritório

Algumas rotinas simples reduzem substancialmente o risco, sem transformar o micro-ondas numa tarefa permanente de manutenção:

  • Aqueça sempre os alimentos com tampa, cobertura ou uma tampa própria para pratos.
  • Remova os salpicos visíveis com um pano húmido logo após aquecer a comida.
  • Estabeleça dias fixos de limpeza semanais no escritório ou no apartamento partilhado.
  • Em caso de infeções gastrointestinais em casa, limpe com especial cuidado e substitua os panos com maior frequência.

Ao seguir estas regras básicas, não só reduz o risco de problemas gastrointestinais agudos. A carga microbiana mantém-se globalmente mais baixa e as bactérias altamente resistentes ao calor têm menos oportunidades de se instalarem de forma permanente.

Para pessoas com o sistema imunitário enfraquecido, por exemplo após doenças graves ou em idade mais avançada, vale a pena ter uma atenção ainda mais crítica. Nestes casos, pode fazer sentido inspecionar os aparelhos regularmente, substituir o prato rotativo quando necessário e ponderar a compra de um novo micro-ondas se existirem danos visíveis no interior.

A conclusão é surpreendentemente clara: o micro-ondas não é um aparelho estéril, mas sim mais um local onde os microrganismos podem sentir-se confortáveis. Com alguns cuidados específicos, é possível reduzir significativamente o risco - e a cozinha rápida continua a ser aquilo que deve ser: prática, mas não causadora de doenças.

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Inês Margarida Carvalho

Inês Margarida Carvalho é técnica superior de intervenção social, com experiência em desenvolvimento comunitário, envelhecimento ativo e apoio a famílias. Colabora com projetos ligados ao CSPSJ, dedicando-se à promoção da inclusão, do bem-estar social e da participação da comunidade.

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