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Celacanto vivo nas Molucas: descoberta francesa a 140 metros de profundidade

Mergulhador com lanterna a observar um grande peixe próximo a recife colorido no fundo do mar.
Neste artigo
  1. Uma busca científica nas sombras das Molucas
  2. Dois anos de preparação para minutos históricos com o celacanto
  3. O que o celacanto mostra sobre a vida em terra firme
  4. Um habitat discreto sob forte pressão
  5. Próximas etapas: ciência sem captura nem danos
  6. O que este “fóssil vivo” ainda pode ensinar

No ponto em que a luz desaparece e o silêncio se torna opressivo, dois mergulhadores franceses documentaram um fenómeno que a ciência raramente consegue observar.

A mais de 140 metros de profundidade, numa zona pouco estudada da Indonésia, uma expedição francesa deparou-se com um peixe pré-histórico ainda vivo. O encontro põe em causa algumas certezas sobre os seus hábitos nas profundezas e volta a sublinhar a necessidade de proteger ecossistemas marinhos extremos.

Uma busca científica nas sombras das Molucas

Em outubro de 2024, no arquipélago das Molucas, no leste da Indonésia, os franceses Alexis Chappuis e Julien Leblond mergulharam até à faixa entre os 140 e os 150 metros. A essa profundidade, qualquer falha tem consequências graves e a subida à superfície exige cálculos rigorosos ao milímetro.

Com rebreathers de circuito fechado - equipamentos que reutilizam o ar expirado - e fatos técnicos adequados a águas frias, não procuravam corais coloridos nem grandes predadores. O alvo era um fantasma da paleontologia: o celacanto, peixe que muitos manuais escolares continuam a apresentar como extinto há milhões de anos.

Após vários minutos num azul quase negro, o cenário revelou-se rochoso e irregular, marcado por promontórios e vertentes abruptas. Era precisamente este o tipo de fundo que Chappuis procurava nos mapas batimétricos e nos modelos de temperatura do leito marinho.

Subitamente, surgiu uma silhueta: um corpo espesso, azul-escuro e salpicado de manchas claras, suspenso em movimentos lentos sobre uma rocha coberta de esponjas e corais moles.

Na gravação, o peixe não foge, não se esconde e não parece assustado. Apenas flutua, como se sempre estivesse ali.

Os mergulhadores acompanharam o animal durante alguns minutos que, nas condições extremas daquela profundidade, têm enorme valor científico. No dia seguinte, regressaram ao mesmo local e encontraram o mesmo exemplar, identificado pelo padrão singular de pintas brancas nos flancos.

Dois anos de preparação para minutos históricos com o celacanto

Embora o momento possa parecer uma casualidade, a expedição esteve longe de ser improvisada. Ao longo de dois anos, Chappuis estudou cartas náuticas, dados de temperatura, registos de mergulho técnico e testemunhos de pescadores locais.

A missão consistia em encontrar áreas frias, profundas e acidentadas, comparáveis aos habitats onde celacantos já tinham sido filmados noutras partes do mundo, incluindo ao largo das Comores e da África do Sul.

Porque é tão perigoso mergulhar a esta profundidade

  • A pressão é extremamente elevada, obrigando ao uso de misturas gasosas específicas, a um planeamento rigoroso e a longas paragens de descompressão.
  • A margem de erro é reduzidíssima: qualquer avaria técnica a 140 metros pode ser fatal.
  • A visibilidade limitada e o frio intenso encurtam o período disponível para observação.
  • A logística tem custos elevados, exigindo embarcações de apoio, equipas de segurança e redundância de equipamento.

No conjunto, foram realizados mais de 50 mergulhos profundos antes de a equipa localizar o ponto preciso onde o peixe foi registado. A localização exacta permanece confidencial, para limitar o risco de turismo predatório e de pesca direccionada.

A expedição representa a primeira observação detalhada de um celacanto vivo na província de Maluku, registrada em publicação científica internacional.

O que o celacanto mostra sobre a vida em terra firme

O celacanto foi inicialmente conhecido pela ciência através de fósseis muito antigos. Durante décadas, assumiu-se que o grupo tinha desaparecido há cerca de 66 milhões de anos. Essa ideia foi derrubada em 1938, quando foi encontrado um exemplar vivo na costa sul-africana.

Actualmente, são reconhecidas duas espécies:

Espécie Região Características marcantes
Latimeria chalumnae Oceano Índico ocidental (Comores, África do Sul) Populações raras, associadas a vertentes vulcânicas profundas
Latimeria menadoensis Indonésia (Sulawesi, Molucas e arredores) Coloração azul-acastanhada, registos ainda mais escassos

O exemplar observado nas Molucas pertence à espécie indonésia, Latimeria menadoensis. Mede cerca de 1,10 metro, tem um corpo robusto e barbatanas que, à primeira vista, fazem lembrar pequenos “braços” musculados.

Estas barbatanas lobadas e articuladas são uma das principais razões do interesse científico pela espécie. Ajudam a compreender de que forma certos peixes de barbatanas carnudas deram origem, ao longo de milhões de anos, aos primeiros vertebrados que passaram a deslocar-se em terra.

Também merece atenção o vestígio de um antigo “pulmão” interno, actualmente inactivo, mas ainda existente. O crânio, dividido em duas partes móveis, continua igualmente a intrigar os investigadores, por representar uma configuração rara entre os peixes modernos.

O celacanto funciona como uma janela para um passado remoto, mas não é uma peça congelada no tempo: ele continuou evoluindo, só que em um ritmo muito lento.

Um comportamento menos “preguiçoso” do que se supunha

Descrições anteriores apresentavam o celacanto como um animal extremamente reservado, que passaria o dia escondido em cavernas e sairia poucas vezes para caçar. A nova observação desafia parcialmente essa imagem.

O peixe indonésio foi avistado em espaço aberto, junto a um promontório rochoso, com as barbatanas abertas e movimentos tranquilos, sem demonstrar qualquer comportamento de fuga. Isto aponta para uma utilização do habitat mais flexível do que se imaginava.

Para os investigadores, esta nuance poderá significar que o animal não depende apenas de fendas e cavernas, alternando entre zonas de abrigo e áreas mais expostas, possivelmente consoante as correntes, a temperatura ou a presença de presas.

Um habitat discreto sob forte pressão

Os celacantos vivem habitualmente entre os 100 e os 400 metros de profundidade, em zonas de vertente onde a luz solar praticamente não chega. Esta faixa é frequentemente designada por “zona crepuscular” dos oceanos.

Estar longe da superfície não garante segurança. Vários factores ameaçam esta espécie lenta e vulnerável:

  • Poluição por plástico que afunda e se acumula em depressões profundas.
  • Aquecimento das águas, capaz de modificar as correntes e as faixas de temperatura em que o peixe consegue sobreviver.
  • Ruído de navios e sonares, que perturba a vida dos organismos das profundezas.
  • Projectos de turismo extremo, com mergulhos ultraprofundos à procura de “atracções exóticas”.

A União Internacional para a Conservação da Natureza classifica a espécie indonésia como vulnerável. O modo de vida do celacanto aumenta o risco: cresce lentamente, só atinge a maturidade sexual por volta dos 55 anos e a gestação pode prolongar-se por cerca de cinco anos.

Um único indivíduo pode viver mais de um século, o que torna cada perda uma ferida difícil de cicatrizar para a população.

A observação nas Molucas não confirma ainda a existência de uma grande população estabelecida na região, mas demonstra que existem ali condições ambientais adequadas. Entre Sulawesi e a Papua Ocidental, extensas zonas profundas continuam sem qualquer cartografia detalhada.

Próximas etapas: ciência sem captura nem danos

A equipa ligada à descoberta defende que os estudos seguintes recorram a métodos não invasivos. Uma das principais apostas é o “eDNA”, ou ADN ambiental: filtram-se amostras de água para procurar vestígios genéticos deixados por fezes, muco ou fragmentos de pele.

Com esta abordagem, os cientistas podem:

  • Confirmar a presença de celacantos em diferentes baías profundas.
  • Comparar a diversidade genética entre regiões da Indonésia.
  • Detectar possíveis rotas de deslocação entre áreas de vertente.
  • Propor zonas de protecção específicas, associadas a locais essenciais para a vida do animal.

Esta mudança de paradigma responde a uma preocupação persistente: estudar espécies raras sem as capturar, sem redes e sem exemplares mortos em museus. No caso do celacanto, cada indivíduo vivo tem mais valor do que qualquer peça conservada em formol.

O que este “fóssil vivo” ainda pode ensinar

A designação “fóssil vivo” é frequentemente contestada por biólogos. A expressão sugere que o animal ficou parado no tempo, algo que não corresponde à realidade evolutiva. O celacanto mudou, embora devagar, adaptando-se ao ambiente profundo que ocupa actualmente.

Para quem acompanha temas de ciência e conservação, este caso ilustra vários conceitos:

  • Evolução lenta: as espécies podem transformar-se a ritmos muito distintos, sem deixarem de evoluir.
  • Zona crepuscular: faixa do oceano com pouca luz, onde existe vida complexa, mas quase não há observação directa.
  • Espécies de história de vida longa: animais que demoram décadas a reproduzir-se são extremamente sensíveis a qualquer aumento de mortalidade.

Uma forma prática de perceber o impacto é imaginar uma população pequena, cujos indivíduos precisam de mais de meio século para ter descendência e enfrentam gestações de vários anos. Se um único acidente de pesca matar alguns adultos, a quebra demográfica pode exigir gerações inteiras para ser compensada.

Por outro lado, a identificação de novas áreas com habitat adequado cria uma oportunidade estratégica. Quanto mais cedo estas zonas forem cartografadas e integradas em planos de gestão marinha, menores serão os futuros conflitos com a pesca de profundidade, a mineração submarina ou as rotas de navegação.

Em última análise, a imagem de um celacanto a flutuar serenamente nas vertentes das Molucas é um lembrete incómodo: o planeta ainda abriga animais que sobreviveram a extinções em massa, mas que podem não resistir à combinação de plástico, ruído, calor e curiosidade humana sem controlo.

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Inês Margarida Carvalho

Inês Margarida Carvalho é técnica superior de intervenção social, com experiência em desenvolvimento comunitário, envelhecimento ativo e apoio a famílias. Colabora com projetos ligados ao CSPSJ, dedicando-se à promoção da inclusão, do bem-estar social e da participação da comunidade.

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