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Porque deve tirar os sapatos ao chegar a casa

Pessoa amarrando os atacadores na entrada de casa com sapateira e um prato com migalhas no chão.
Neste artigo
  1. Debaixo da sola, um pequeno inventário do exterior
  2. É mesmo necessário tirar os sapatos ao chegar a casa?
  3. Um pequeno hábito que também revela a nossa relação com a casa

Numa noite chuvosa, chega-se a casa com os braços cheios de compras, pousa-se o saco à entrada e atravessa-se a sala sem sequer pensar nisso. Os sapatos passaram pelo passeio, pelo metro, pelo parque de estacionamento do supermercado e, por vezes, por uma poça suspeita ou pelo chão de um consultório médico. Depois, avançam sobre o tapete, junto ao sofá, a poucos metros dos brinquedos das crianças ou do cão que dorme. É um gesto tão habitual que acaba por passar despercebido. No entanto, ao olhar com atenção para o que fica preso numa sola, a situação ganha outra perspetiva. Os microbiologistas não falam de um perigo constante, nem de uma casa que tenha de ser desinfetada de alto a baixo. Limitam-se a recordar uma realidade algo incómoda: os nossos sapatos são coletores muito eficazes. E aquilo que transportam não fica à porta.

Debaixo da sola, um pequeno inventário do exterior

Todos conhecemos o gesto de raspar distraidamente a sola antes de entrar em casa de alguém: uma pedrinha presa, uma folha molhada, uma marca de lama seca. Mas aquilo que se vê representa apenas uma parte do percurso. Os relevos da borracha também acumulam partículas finas, resíduos orgânicos e microrganismos recolhidos a cada passo, sobretudo em locais com muita circulação.

Um estudo frequentemente referido, realizado por investigadores da Universidade do Arizona, analisou sapatos usados diariamente. Foram encontradas bactérias em 96 % das solas observadas e bactérias coliformes, associadas nomeadamente a matéria fecal, em cerca de um quarto delas. O dado pode causar algum desconforto, mas retrata acima de tudo a vida quotidiana: passeios sujos, dejetos de animais, pavimentos de casas de banho públicas e água estagnada cruzam-se muito mais do que imaginamos.

Os investigadores verificaram ainda que nem todas as bactérias permaneciam retidas na parte inferior do sapato. Algumas podem ser transferidas para o chão de casa, em especial logo depois da entrada. Isto não quer dizer que cada lar se torne perigoso no instante em que um par de sapatilhas passa a porta: a simples presença de um micróbio não é suficiente para causar uma infeção. Ainda assim, uma sola suja funciona como um carimbo, deixando no pavimento doméstico uma pequena marca do exterior.

É mesmo necessário tirar os sapatos ao chegar a casa?

A medida mais simples passa por criar uma verdadeira zona de paragem à entrada. Um tapete resistente no exterior remove já parte da sujidade visível, enquanto um capacho lavável no interior ajuda a reter o que sobra. Ter chinelos, sandálias limpas ou até meias grossas antiderrapantes junto à porta torna a troca quase automática, mesmo nos dias de maior pressa.

O erro mais comum é achar que uma passagem rápida com um pano resolve tudo depois de um dia de chuva. Sejamos sinceros: ninguém consegue fazê-lo todos os dias. É preferível adotar uma rotina viável, com aspiração regular e lavagem do chão nas zonas de passagem, em vez de prometer uma limpeza impecável que é abandonada logo na quarta-feira à noite.

As casas com um bebé que gatinha, uma pessoa imunologicamente vulnerável ou um animal que está frequentemente perto do chão beneficiam, muitas vezes, de maior rigor. Não se trata de obsessão, mas de uma forma tranquila de diminuir aquilo que se traz involuntariamente para dentro de casa.

«Os sapatos podem transferir bactérias para o interior, mas o objetivo não é viver com medo: trata-se sobretudo de limitar uma fonte evitável de contaminação», resume o espírito das recomendações formuladas por muitos microbiologistas.

  • Definir uma zona de entrada para deixar sapatos e botas.
  • Lavar as solas muito sujas depois de uma saída na lama ou num local contaminado.
  • Disponibilizar chinelos limpos aos convidados que aceitem tirar os sapatos.
  • Limpar regularmente o chão junto à porta, sobretudo quando há crianças pequenas.

Um pequeno hábito que também revela a nossa relação com a casa

Tirar os sapatos não é uma regra universal, nem um juízo sobre quem opta por não o fazer. Em algumas famílias, é um hábito adquirido desde a infância; noutras, pedir a um convidado que se descalce pode parecer demasiado íntimo. Ainda assim, bastam alguns minutos para notar a diferença num chão claro ou numa casa com um animal: menos pó, menos marcas e a sensação agradável de um interior verdadeiramente separado da rua.

No fim de contas, a questão vai além das bactérias. Tem que ver com essa pequena transição mental entre a agitação exterior e o regresso a casa, no momento em que se pousam as chaves, o casaco e, por fim, os sapatos. Os microbiologistas recordam que reduzir a transferência é mais realista do que tentar eliminar todos os micróbios, porque uma casa totalmente estéril não existe e nem seria necessariamente desejável. Resta esse gesto simples e discreto, que protege um pouco mais os pavimentos e transforma o ambiente logo à entrada.

Ponto essencial Detalhe Valor acrescentado para o leitor
As solas retêm micróbios Os relevos acumulam poeiras, resíduos orgânicos e bactérias encontradas no exterior. Compreender melhor porque é que o chão de casa pode sujar-se rapidamente.
O risco deve ser relativizado A presença de bactérias não significa doença automática. Adotar bons hábitos sem cair numa preocupação excessiva.
Tirar os sapatos continua a ser a solução mais simples Uma zona de entrada, chinelos e limpeza regular são geralmente suficientes. Reduzir facilmente a sujidade trazida do exterior.

Neste momento

Inês Margarida Carvalho

Inês Margarida Carvalho é técnica superior de intervenção social, com experiência em desenvolvimento comunitário, envelhecimento ativo e apoio a famílias. Colabora com projetos ligados ao CSPSJ, dedicando-se à promoção da inclusão, do bem-estar social e da participação da comunidade.

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