Quando um raro eclipse solar total atravessar a América do Norte na segunda-feira, os cientistas terão a oportunidade de recolher dados preciosos sobre temas que vão da atmosfera do Sol a comportamentos invulgares dos animais - e até a possíveis impactos nos seres humanos.
O fenómeno ocorrerá com o Sol próximo do máximo do seu ciclo solar de 11 anos, criando as condições para um espectáculo impressionante: ao longo da faixa de totalidade, um corredor que liga o México ao Canadá através dos Estados Unidos, a coroa solar brilhará de forma espectacular em redor da silhueta da Lua.
Os eclipses solares totais proporcionam «oportunidades científicas incríveis», afirmou esta semana, numa conferência de imprensa sobre o evento celeste, a administradora-adjunta da NASA, Pam Melroy.
A agência espacial norte-americana é uma das instituições preparadas para o eclipse e prevê lançar os chamados «foguetões de sondagem» para analisar os efeitos na alta atmosfera da Terra.
Eis o que os investigadores esperam descobrir com o próximo eclipse:
Atmosfera do Sol
Quando a Lua passar directamente diante do Sol e o ocultar, será possível observar «de uma forma muito especial» a coroa, a camada mais exterior e difícil de estudar da atmosfera solar, explicou Melroy.
«Estão a acontecer coisas na coroa que não compreendemos totalmente», disse.
Na coroa, a temperatura aumenta à medida que se afasta da superfície do Sol - um fenómeno contra-intuitivo que os cientistas ainda têm dificuldade em compreender e explicar por completo.
É também na coroa que ocorrem as erupções solares, explosões súbitas de energia que libertam radiação para o espaço, bem como as protuberâncias solares, enormes formações de plasma que se elevam em arcos a partir da superfície solar.
Durante um eclipse, torna-se mais visível a região inferior da coroa - onde ocorre grande parte desta actividade - do que com instrumentos especializados que bloqueiam a zona central do Sol. Trata-se de uma excelente oportunidade de estudo, afirmou Shannon Schmoll, directora do Planetário Abrams da Universidade Estadual do Michigan.
Os investigadores estão especialmente entusiasmados por o Sol se encontrar perto do máximo do seu ciclo de 11 anos.
«A probabilidade de vermos algo extraordinário é muito elevada», afirmou Melroy.
Atmosfera da Terra
O eclipse total dará igualmente aos cientistas a possibilidade de examinar alterações numa zona da alta atmosfera terrestre chamada ionosfera, relevante por influenciar as ondas de rádio utilizadas nas comunicações e na navegação.
«As perturbações nesta camada podem causar problemas no GPS e nas comunicações», disse Kelly Korreck, gestora do programa de eclipses na sede da NASA.
A ionosfera, a região onde a atmosfera terrestre se encontra com o espaço, é influenciada pelo Sol, que durante o dia carrega electricamente as partículas aí existentes.
Os três foguetões de sondagem da NASA serão lançados a partir da Virgínia antes, durante e imediatamente após o eclipse, para medir essas mudanças.
A forte redução da luz solar causada pelo eclipse - mais rápida e localizada do que um simples pôr do sol - deverá ajudar os investigadores a perceber melhor de que forma a luz afecta a ionosfera, permitindo prever com maior precisão eventuais perturbações problemáticas.
Comportamentos dos animais
Já foram registados comportamentos surpreendentes de animais durante eclipses: observaram-se girafas a galopar, enquanto galos e grilos podem começar a cantar e a chilrear.
Além da diminuição da luz solar, a temperatura e o vento - condições às quais os animais são sensíveis - também podem baixar consideravelmente durante um eclipse.
Andrew Farnsworth, investigador de ornitologia da Universidade Cornell, no estado de Nova Iorque, estuda a forma como os eclipses afectam as aves, recorrendo a radares de vigilância meteorológica para detectar aves em voo.
Durante o último eclipse solar total visível nos Estados Unidos, em agosto de 2017, os cientistas verificaram uma «diminuição do número de animais a voar», disse Farnsworth aos jornalistas.
Segundo o especialista, o eclipse de 2017 alterou as actividades diárias de insectos e aves, mas não desencadeou os comportamentos nocturnos habituais dos animais, como a migração das aves ou a saída dos morcegos.
Desta vez, por ocorrer em abril, poderá ser mais provável que as aves migrem durante o eclipse, afirmou.
«Este tipo de padrões é importante para compreendermos as formas como os animais percepcionam os seus mundos», disse Farnsworth.
O espanto humano perante o eclipse solar total
«Os eclipses têm um poder especial. Levam as pessoas a sentir uma espécie de reverência pela beleza do nosso universo», declarou aos jornalistas o administrador da NASA, Bill Nelson.
Em 2017, investigadores estudaram esta sensação de admiração através de dados de quase três milhões de utilizadores do Twitter, actualmente chamado X.
De acordo com Paul Piff, professor de psicologia da Universidade da Califórnia em Irvine, as pessoas que estavam na chamada «faixa de totalidade», onde a Lua ocultará por completo o Sol, tendiam a usar o pronome «nós» - em vez de «eu» - e a manifestar preocupação com outras pessoas.
«O que estamos a descobrir é que experiências que despertam admiração… parecem sintonizar as pessoas e ligar-nos uns aos outros, ligando-nos a entidades maiores do que nós próprios», afirmou Piff.
Este ano, pretende analisar se a experiência tem algum efeito nas divisões políticas da sociedade.
Cientistas cidadãos
Estão previstos cerca de 40 projectos de ciência cidadã em torno do eclipse, desde a utilização de uma aplicação móvel para registar a temperatura e a cobertura de nuvens até à gravação do ruído ambiente durante o fenómeno.
«Encorajamo-lo a ajudar a NASA a observar as imagens e os sons à sua volta», disse Nelson.
© Agence France-Presse






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